terça-feira, 15 de março de 2011

o presente ilusório

Olho para trás e vejo-te, pequena e ingénua, sorridente, despreocupada. Tu, que hoje ainda és uma parte de mim, que já não existes mais em ti mesma, mas que ainda estás presente, inconscientemente, em tudo o que faço. Sorrio ao ver-te, melancólica, saudosa e tudo o mais. Sorrio parolamente, como quem recorda e gostava de ter mantido um pouco mais do que era antes. Vejo-me ao espelho e revejo nele uma réstia dessa ingenuidade, dessa esperança de criança, desse olhar feliz e cheio, apesar de sentir e saber que cresci, sofri e vivi já muito mais do que tu. Olho para a frente e vejo-te a ti, mais serena, experiente, cansada, e ao mesmo tempo sorridente, completa e realizada. És muito mais do que sou hoje: também já cresceste, sofreste e viveste muito mais. E olhas-me com o mesmo olhar de nostalgia, parecendo recordar-me, detendo ainda uma réstia do que sou hoje, do que já foste em tempos.
Tu, quem já fui um dia; e tu, quem um dia serei. Sinto-me estranha aqui no meio, entre o antes e o depois, o passado e o futuro, o não ser ninguém e o ser toda a gente. O presente é este tempo de transição, no qual existimos apenas para deixar de ser pequenos e ingénuos e passarmos a ser grandes e conscientes. No qual sonhamos ser quem está à nossa frente, sempre tendo em conta o que está atrás, o que já fomos. Somos um conjunto de experiências, nas quais o presente entrará certamente... mas seremos hoje alguém, já, ou apenas uma maquete do que queremos/esperamos ser no futuro? Porque na verdade queremos sempre ser mais e melhores, nunca estamos completos, nunca sentimos que não há futuro. E a dúvida mantém-se até este efectivamente deixar de existir.

quarta-feira, 9 de março de 2011

ver com olhos de ver, ou talvez não

Rio-me, estupidamente, porque não percebes. Passa-te tão ao lado... está mesmo à tua frente e, ainda assim, olhas sem ver, ouves sem escutar verdadeiramente. E não te apercebes do que está mesmo a pedir para ser visto e escutado. É como se fosses cego e surdo, ou fingisses sê-lo... mas porque fingirias? Não, é mesmo uma ignorância estranha, que tento mitigar constantemente, mas sem sucesso. E para ti continua tudo na mesma, como sempre, como se nada fosse. Pareces nem dar por isso. Dói tanto que acaba por ter a sua piada, as coisas escaparem-te de tal forma. Não percebes a força de uma palavra, o significado de um olhar mais demorado, de um gesto mais poderoso, tanto meu como teu. Para ti são como muitos outros, por isso acabas por já não lhes dar qualquer novo significado. Ignoras inconscientemente, no fundo, e roubas constantemente a oportunidade de qualquer coisa que poderia ser, efectivamente, qualquer coisa, mas que acaba por não ser nada. Dá-me para rir, estupidamente, do ridículo que é não veres o que está debaixo do teu nariz, na distância dos teus olhos, mesmo junto às tuas orelhas. E dói bastante não compreenderes a importância que as tuas atitudes adquirem num contexto, ou a falta delas, ou simplesmente a tua pessoa inserida numa qualquer ilusão da mente. Dói não te aperceberes do que significas.

É giro, quando estamos numa determinada sensação propícia a agir de uma determinada forma, fazemos exactamente o oposto.