sábado, 13 de novembro de 2010

when you need a hug

*Ela sai do edifício calmamente, como quem pondera bem o que faz e caminha com um propósito. Está alegre, desde as escadas aos saltinhos e prepara-se para abandonar o local. No entanto, vê-o ao longe e decide ir ter com ele. Já não falam há uns dias, quer pôr a conversa em dia, saber coisas. Aproxima-se tranquilamente e dá um espaço para ele se aperceber da sua presença.
- Olha, olha! – diz sorridente, procurando os seus olhos. – Como estás?
A sua expressão muda quando o olha de frente e se apercebe de que ele não está tão alegre quanto ela. Arrepende-se de o ter abordado daquela forma, tenta compreender o seu rosto, mas apenas se apercebe do humedecimento óbvio dos seus olhos esverdeados, que se tornam mais brilhantes com o reflexo da luz solar nas lágrimas. Aproxima-se mais dele, leva uma mão ao seu braço e tenta confortá-lo.
- Então rapaz, estás bem? – questiona-o, verdadeiramente preocupada com o que o possa estar a preocupar. – O que se passa?
Ele não fixa os seus olhos, procura desviar o olhar e com ele as lágrimas que querem sair a toda a força. Mas acaba por falar, como quem precisa de desabafar o que vai no coração, independentemente de alguém estar a ouvir ou não.
- Ela deixou-me... – afirma, quase incrédulo, deixando-a desconfortável e sem compreender.
- Ela quem? Do que estás a falar? – A rapariga procura manter a calma, questionando-o com um verdadeiro sentido de preocupação.
- A minha namorada...
Ela não sabia que ele tinha namorada, quanto mais que esta o tinha deixado. Agora, sente-se algo estranha por se estar a intrometer na sua vida romântica, sobretudo dados os seus sentimentos por ele. E sente-se mal por desconhecer este facto da sua existência. Mas a preocupação mantém-se.
- Tem calma, rapaz... – procura acalmá-lo. – Tens a certeza de que não foi apenas uma discussão?
Ele parece não a ouvir, visivelmente aterrado com a situação. Começa a caminhar em direcção ao vazio, pela simples necessidade de sair dali e mexer as pernas.
- Não percebo... – verbaliza, não para ela em específico, apenas para o ar, para expressar os seus pensamentos. – Estávamos bem... podia não ser uma relação forte como muitas outras, mas gostávamos um do outro e estávamos bem. Porque é que ela tinha de fazer isto? Porque é que ela decidiu acabar tudo de um dia para o outro, sem explicação?
Ela volta a apertar-lhe amigavelmente o braço, tentando libertá-lo daquela tensão. Mas os olhos dele não vão aguentar, o seu apoio não está a resultar e isso é visível na expressão dele. Ela compreende tudo isto e decide ajudá-lo como pode, parando de caminhar, aproximando-o de si e colocando os braços à sua volta. Começa a sentir o ombro húmido das suas lágrimas, mas não se importa. Ele parece não ter forças para a envolver, mas aos poucos acaba por ceder e apertá-la junto a si, pousando a cabeça entre o seu pescoço e o seu ombro. Não é só a situação de agora, é o acumular de muitas tensões, e ela também sabe disso, conhecendo-o como conhece.
Sente-se mal por ele estar assim, triste por ele estar a sofrer, querendo fazer tudo o que pode para o ajudar. Ao mesmo tempo, gosta de estar assim com ele, de o ter perto dela, de poder sentir o seu cheiro e agarrar o seu corpo, de poder fazer-lhe festas na cabeça e mostrar a sua preocupação por ele. Abandona imediatamente estes pensamentos, sentindo-se egoísta por pensar em si e nos seus sentimentos. Ele desconhece-os, ela nunca teve coragem para lhe dizer, embora procurasse mostrá-los constantemente. Mas ele não os compreende, ou ignora, não querendo dar-lhe falsas esperanças, e por isso ela mantém-se no papel de grande amiga, que acaba por a satisfazer. E o abraço continua, até ela o afastar calmamente e procurar limpar-lhe as lágrimas dos olhos. Prepara-se para ser a melhor amiga que consegue.
- Não fiques assim... – diz ela, voltando a apertar-lhe suavemente o braço. – Seja o que for que a fez deixar-te, só mostra que ela não te merece e que tu mereces bem melhor para ti. Uma pessoa que goste realmente de ti nunca te faria isso, nem nunca o fará. Há muito peixe no mar, não vale a pena ficares assim por alguém que não merece as tuas lágrimas. És uma excelente pessoa, e tenho a certeza absoluta de que um dia encontrarás alguém que te merece verdadeiramente. Entretanto, estou sempre aqui para ti, sabes disso.
Ele já a olha ligeiramente nos olhos, levantando a cabeça como quem está agradecido pelas suas palavras e pelo abraço reconfortante que estava mesmo a precisar de receber. Mas não diz nada, e ela pondera sobre o que acaba de dizer, procurando dar conta da reacção dele também. A sua preocupação levou a melhor e está contente com isso.
Voltam a caminhar levemente, sem dizer nada, embora ela o vá olhando de soslaio, de quando em vez, tentando ver se ele se sente melhor. Espera que sim. Até que ele volta a falar, desta vez mais calmo e menos tenso, mas ainda cabisbaixo:
- Sei que tens razão, mas ainda assim é complicado... E se falasses dos teus sentimentos, se dissesses o que pensas e sentes, talvez... não sei.
Ela aquiesce, sente-se estranha com esta afirmação totalmente descontextualizada da parte dele. Não a compreende, na verdade. Ele sente-se magoado e é exactamente neste momento que parece tomar conhecimento dos sentimentos dela por ele, que nem ela própria sabe definir bem? Ultrapassou assim tão depressa a dor, ou procura apenas desviá-la quando se apercebe da sua profunda preocupação? O que deve responder-lhe, agora?*

Quando temos um sonho assim, que nos toca tanto, e acordamos no preciso momento em que esperamos uma resposta por parte do nosso inconsciente, é normal que procuremos uma conclusão para ele. O que deve a rapariga responder-lhe? Há dois cenários de resposta, na verdade. É só escolher o mais indicado. Se estivesse no lugar dela, não saberia o que escolher. E parafraseando as minhas queridas amigas, o subconsciente é tramado e tem destas coisas. É a vida.

Final 1

Deve aproveitar o momento para dizer o que sente, ou deve manter a compostura e ignorar esta reacção dele? Decide jogar pelo seguro, como tem feito até aqui, embora se pudesse arrepender disso logo de seguida.
- O quê? Do que estás a falar? – questiona como se ele tivesse dito a maior barbaridade de sempre, tentando enganar-se a si própria. - O que eu sinto por ti é o que tu sabes, gosto de ti como amigo e estou aqui para o que der e vier, sim, mas nada mais que isso. – Ela sorri, tentando disfarçar o arrependimento que já começa a sentir. – A rapariga certa para ti há-de aparecer quando for a altura!
Ele sorri também, e ela espera que ele tenha acreditado nas suas palavras. Era a atitude certa a tomar, sabe disso. Sente-se feliz com as palavras que ele lança de seguida, que resumem tudo o que acabaram de passar.
- Obrigado por tudo.

Final 2

Deve aproveitar o momento para dizer o que sente, ou deve manter a compostura e ignorar esta reacção dele? Decide arriscar tudo, aproveitar o momento, rejeitando jogar pelo seguro. O nervosismo ataca-a, por continuar a desconhecer os sentimentos da parte dele, coisa que a atormenta desde sempre. Mas a decisão está tomada, e abre a boca para dizer tudo o que tem a dizer:
- Os meus sentimentos? Eu... – hesita, olhando para a relva que está sob os seus pés. – Eu gosto de ti desde que nos conhecemos... Se queres saber toda a verdade, é um sentimento que vai perdendo alguma importância quando pareces não sentir nada, mas que se fortalece sempre que mostras algum sentimento. Na maior parte das vezes ocupa uma pequena parte do coração, porque ser tua amiga é, para mim, mil vezes mais importante do que querer mais que isso... e é isso que está a acontecer hoje. – faz uma pausa, aliviada com o que acaba de verbalizar. – Não sei o que esperavas ouvir, se pretendias algo com a tua afirmação, estás magoado e provavelmente vais ficar confuso agora, mas ainda bem que te mostrei o que sentia.
Ele amaina o passo, dá voltas à cabeça, provavelmente sem saber, também, porque disse o que disse antes. Ela sente-se expectante, quer a todo o custo que ele pegue na conversa e diga algo que a fará feliz, mas não faz a mais pequena ideia do que a espera. Até que ele decide dizer algo, olhando para ela:
- Obrigado, por tudo. – diz. – Por seres quem és e por estares aqui ao meu lado. E por teres tido a coragem de dizer isso. Não estivesse eu um farrapo e talvez fosse capaz de te dizer algo melhor do que isto... mas estou vulnerável e nem consigo reagir bem assim, perdoa-me.
Apesar da não-resposta e do receio das consequências, a longo-prazo, das suas declarações, ela sorri e mantém a esperança, pegando-lhe no braço e recomeçando a caminhar, deixando no ar apenas isto:
- Eu posso esperar.

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3 comentários:

Mj disse...

«Sente-se mal por ele estar assim, triste por ele estar a sofrer, querendo fazer tudo o que pode para o ajudar. Ao mesmo tempo, gosta de estar assim com ele, de o ter perto dela, de poder sentir o seu cheiro e agarrar o seu corpo, de poder fazer-lhe festas na cabeça e mostrar a sua preocupação por ele. Abandona imediatamente estes pensamentos, sentindo-se egoísta por pensar em si e nos seus sentimentos.» - Adorei! Não sei dizer ao certo porquê... acho que é um sentimento tão complexo e tu conseguiste traduzi-lo aqui tão bem! Provavelmente nem te custou muito descrevê-lo... mas está mesmo perceptível. Aliás, todo o texto está. É uma história que, no fundo é básica.. porque provavelmente acontece a muita gente e até parece a cena de uma série ou algo do género, mas ainda assim está carregado de sentimento. E consegue cativar as pessoas! A mim cativou-me! x)

Quando ao final... sem dúvida que eu escolhia o primeiro. Aquela não era, de todo, a melhor situação para ela confessar os seus sentimentos (embora talvez o facto de ele saber que havia alguém que gostava assim dele, daquela forma, o animasse um pouco). Ele está "de luto" pela relação que acabou, está confuso, não sente nada além de tristeza e desânimo. Ela devia esperar uns tempos... sendo boa amiga, apoiando-o, servindo de confidente e tal... e aos poucos a relação deles ia-se fortalecer... até que ele se aperceberia que não pode viver sem ela!!! :P :P Vá, esta parte final é assim um pouco exagerada e resumida. Exageradamente resumida, se quiseres. Mas basicamente acho que ela devia esperar e contar-lhe depois.
Mas agora uma dúvida: Quando ele lhe pergunta pelos sentimentos dela, com é que sabes que ele está a perguntar sobre os sentimentos dela EM RELAÇÃO A ELE? É que no Final 1 ela responde como se fosse isso que ele perguntasse. Se eu estivesse naquela situação e me fizessem aquela pergunta eu ia interpretar aquilo como: " E se falasses dos teus sentimentos... das tuas experiências, como vais de amores..." Percebes? Há uma pequena diferença, pelo menos em termos das respostas possíveis. Agora, como o sonho foi teu, esclarece-me se houve alguma coisa que indicou que a pergunta se referia a ele ou foste tu que lhe deste esse entendimento/seguiemento.

(desculpa lá o testamento, mas deu-me mesmo vontade de comentar! xD)

Mas resumindo: ADOREI este texto!

Raquel Silva disse...

Muito obrigada pelo teu comentário, Mj =) É uma situação que realmente pode acontecer a qualquer pessoa, e que é mais real até do que parece lol porque a cabeça, mesmo a dormir, acaba por saber coisas sobre nós que mais ninguém sabe. E por isso é fácil de descrever, porque podias ser mesmo tu a viver efectivamente aquela situação, percebes?
Essa parte final era muito perfeitinha, aliás o meu final 2 acaba por ser perfeitinho à sua maneira também, porque ele podia muito bem dizer que não queria nada com ela x) Só que aquela pergunta dele... eu interpretei mesmo com o sentido que lhe dei, talvez pelo desejo de ser assim, ou simplesmente porque fiquei bastante confusa durante o sonho quando ele o disse e só vi a questão como referente aos sentimentos dela por ele, não sei. Parece que ele pode saber o que ela sente, vá-se lá saber como, e até sentir o mesmo, quem sabe... Tens razão, havia as duas interpretações possíveis, mas por alguma razão nem pensei na primeira :p
Resumindo, a vida tem destas coisas, e fica no ar se afinal de contas esta situação toda será "boa" para ela ou não, em termos românticos. Mas o que ela queria mesmo era que ele ficasse bem :)
Mais uma vez, obrigada pelo testamento :P Ainda bem que gostaste! :D

SusanaPacheco. disse...

Raquel, que bonito texto.
Adorei o facto de escreveres tão nitidamente acerca de um sonho teu, também eu postei sobre essa temática no meu blog!

Quanto ao final, penso que ambos fazem sentido ainda que, numa situação real, talvez o 1º fosse o mais "provável" de acontecer.. Por outro lado, o 2º era bastante mais sincero e fazia também sentido :)
Parabéns por este bonito sonho e por o escreveres desta maneira tão viva! beijinhos***