segunda-feira, 1 de novembro de 2010

please, call me child

Lembraste-me daqueles momentos que me fazem suspirar pelo nosso tempo de crianças, como dizes, em que éramos tão felizes simplesmente porque não nos imaginávamos de outra forma. Aqueles dias especiais, das bruxas e abóboras, ou simplesmente aquelas conversas tipicamente adolescentes que tínhamos nos intervalos, à parte de toda a gente. Vejo aquele espaço em que fomos felizes e sorrio, porque me faz lembrar tantos e tantos momentos, porque me leva para aquele tempo que recordo com saudade. E estes dias, como o de hoje, eram como que um prolongamento da amizade, uma forma de ela se consolidar ainda mais. Recordo os filmes, as almofadas, as aranhas nas pipocas, o fumo branco, os fatos, as camas improvisadas, o medo, o desconhecido, a alegria, as histórias malucas, e sinto falta deles, desse tempo em que não desperdiçava um único dia. Hoje as coisas mudaram, já não somos crianças, já não temos aquelas carinhas de meninas queridas e inocentes. Crescemos um bocadinho e já não temos a mesma vontade para nos divertimos daquela forma, as bruxas que esperem lá fora, à chuva, que não as deixaremos entrar esta noite. Ficam as recordações, e vêm outras, que quando toca a estas coisas nunca há recordações a mais. Lembraste-me de outros tantos momentos, e depois vêm as imagens na televisão, e depois vêm os aniversários que não são mais do que uma legalização da passagem do tempo, e o nosso castelo de memórias vai-se construindo cada vez mais, e o nosso passado vai-se desmoronando à medida que caminhamos em direcção ao futuro. Nunca mais haverão dias como este e, no entanto, haverão muitos outros como este, diferentes mas iguais, com ou sem bruxas a atormentarem os nossos sonhos. Não que elas os atormentassem, na altura, pelo contrário, toda a ambiência do dia nos levava para o seu mundo mágico, como se de fadas se tratassem. Aquele desconhecido e aquelas almofadas uniam-nos mais do que qualquer outro medo ou circunstância. Mas esses dias passaram. Já não há passeios pelo recinto, como havia dantes, nem longas conversas naquele sítio que sabíamos não poder frequentar mas no qual passávamos a vida. Já não voltaremos a conversar como dantes, a falar das nossas vidas como se nos pertencessem, a rir com tudo e nada como quando a vida era simples e brilhante. Aquelas escadas verão passar novas crianças, aquelas portas ouvirão novos risos e aquelas pessoas conhecerão novos futuros "nós", que um dia também estarão no nosso lugar e recordarão com saudade o tempo em que queriam fazer anos e ser mais crescidos. A nós, ficam-nos os dias como o de hoje há uns anos atrás, fica-nos a memória de tempos e histórias que outros deverão estar a viver. Ao menos isso :)

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