domingo, 5 de setembro de 2010

vidas de cartão

Duas velhotas sentadas num banco de jardim, serenamente encostado às paredes da casa de campo, no alpendre, contemplam os verdes prados e o azul do céu, que marca aquele caloroso dia de Verão. No regaço da primeira, que demonstra ainda resquícios de um cabelo outrora louro, uma caixa cheia até cima carrega pedaços de todo o mundo, reunidos ao longo de uma vida. No regaço da outra, ainda algo morena apesar da branqueza dos cabelos, já bastante denotada, uma caixa igualmente apinhada mostra uma enorme diversidade de padrões e cores, também eles de diversas partes do planeta. Ambas recordam e conversam acerca dos postais que guardaram durante anos, de trocas com pessoas desconhecidas, conhecidas, ou até mesmo uma com a outra. Quem diz que é arcaico trocar postais? Fizeram-no anos e anos a fio, até aos dias de hoje, quando ainda se deslocam, de quando em vez, aos correios mais próximos, para depositar uns quantos postais e manter as amizades conquistadas no estrangeiro. E hoje, mais precisamente, recordam o tempo e o espaço, que as separou uma vez, mas que não voltará a fazê-lo nunca, até ao fim dos seus dias, que se adivinha não assim tão longínquo. Levarão consigo as memórias de uma vida escrita em cartões de papel, em paisagens e publicidades que atraíram as suas atenções e que partilharam sempre que lhes foi possível. Recordam aquele postal, que trocaram e acabaram por nunca enviar, e aquele outro que guardaram com especial cuidado, separado dos outros mais comuns. Recordam aquelas caixas quando ainda se encontravam vazias, quando começaram a receber um, dois, três postais, e quando foram crescendo para cinquenta, cem, duzentos, até hoje se encontrarem assim, sem mais um único buraco para postais, mas ainda com espaço de sobra para conhecimento e recordações. Recordam como a troca de postais acabou por as aproximar ainda mais, mais do que qualquer outro meio de comunicação mais moderno e em voga. Os tempos são outros, é verdade. Já não existe uma necessidade de enviar coisas por correio, existem outras formas, mais rápidas e até mais eficientes, de o fazer. No entanto, são diferentes. Um postal é um postal. Não é só um objecto, um bem material que temos e guardamos quase por capricho. É uma lembrança da pessoa que o enviou, do local que retrata, do momento de que fala, e isso pode ser tudo para uma pessoa. Significou e ainda significa o mundo para estas duas jovens de idade avançada, que toda a sua vida privilegiaram o envio de postais pela forma como este as marcou desde que se lembram de si mesmas.

É isto que duas raparigas podem vir a ser daqui a uns sessenta anos... aqui fica uma previsão para o futuro! :P

3 comentários:

Rosa Branca disse...

Espero mesmo que seja adivinhação, Raquel Silva...*** (Mas eu n vou ter brancos..LOOOOL Vou ter o cabelo sempre em forma, o meu codigo genetico foi alterado para nunca ter brancos)

(Nessa altura, ja hei-de ter um postal com uma rosa branca! LOL)

.Tiago Vitória disse...

Está mesmo bonito! Adorei (:

Patrícia disse...

Realmente é pena que estas coisas se percam. Que se deixe de enviar postais e cartas. Eu adoro estas coisas que são consideradas, como tu dizes, arcaicas.

Era tão bom um dia termos todas essas recordações :)