sexta-feira, 10 de setembro de 2010

childhood revisited

Há coisas que, por mais que o tempo tente apagar, nunca se esquecem. Aquele sítio é uma dessas coisas, uma dessas memórias. Ficou colado ao cérebro e não se despegará nunca. Entrar de novo por aquelas portas, ver de novo as pessoas que tornaram aquele local mágico para todos nós, está além de qualquer sensação natural de nostalgia. Foram muitos os anos, e são ainda muitas as recordações guardadas daqueles que hoje consideramos os bons velhos tempos. Trata-se da nossa infância, como nos podíamos esquecer?
Recordo os tapetes com as estradas, as esponjas em que fazíamos picotado, a plasticina, os legos, os quadros com letras para aprendermos a ler. Recordo os meninos a chorar quando os pais se iam embora para o trabalho. Lembro-me de brincar à macaca e ao jogo do lenço, de saltar ao eixo, de andar às cavalitas dos colegas, de dar cambalhotas nas barras do recreio e chegar a casa cheia de nódoas negras, mas feliz. Não esqueço os esconderijos secretos, aquelas árvores nas quais nos sentávamos vezes sem conta para conversar sobre os assuntos que mais nos encadeavam o coração; nem aquela cobertura onde ocorriam os casamentos "a brincar" dos casalinhos. E lembro-me bastante bem dos casalinhos, pelo menos os do último ano - e dos meus ciúmes também, ahah, mas isso é outra história. Lembro-me dos casalinhos antigos também, e daquele ritual de dizermos o nome de quem gostávamos no dia dos namorados, era uma coisa linda. Recordo, obviamente, os grupinhos das raparigas, sempre duos, que se entretinham a criar músicas parvas e coreografias engraçadíssimas.
Lembro-me da nespereira gigante - e de o Diogo trepar para apanhar nêsperas -, bem como de jogar andebol e de achar que as aulas de educação física eram as melhores de sempre. Recordo o jogo das palmeiras - que a minha equipa ganhava sempre LOL - e das palmeiras desenhadas no quadro de giz. Recordo os poemas decorados, os textos escritos, o nascer de uma paixão que nunca pensei vir a ser tão forte. Recordo as fotografias de grupo, no dia de o fotógrafo ir à escola; as peças de teatro e outras encenações nas festas de final do ano, e como adorava vestir-me na sala do lado, a que tinha os bancos cor de laranja. Lembro-me das conversas sobre o Nuno Markl e a Rádio Comercial com a Marta, do 11 de Setembro visto na televisão da escola, das idas à praia no Verão, e de num desses dias o autocarro ter partido um vidro. Lembro-me de ver o Tomás com a mão partida depois de a baliza lhe ter caído em cima; lembro-me das discussões do pessoal, da falta de vontade para estudar; recordo as cenouras que comíamos, cruas, na cozinha, e ainda ver o meu avô a passar pelo portão, todos os dias, à tarde, para me ir buscar à escola. São muitos bons momentos.
Claro que houve momentos menos bons. Recordo muito claramente o dia em que professoras e auxiliares vagueavam pela escola com os olhos cheios de lágrimas, e nós sem saber o que se passava, sentindo-nos impotentes no meio e tudo aquilo. Lembro-me de tentar falar com elas e perguntar se estava tudo bem, lembro-me de ter de ir embora e pedir à Inês para me contar se tivesse descoberto alguma coisa. Mas o dia seguinte chegaria e finalmente perceberíamos do que se tratava; a notícia foi recebida por todos com surpresa, revolta, e por fim com muita tristeza. Acho que naquele dia fiquei sobretudo na fase da surpresa, por isso permaneci imóvel e sem saber o que fazer, até ouvir a professora: "Raquel, conforta os teus amigos". Crianças de 6/7 anos a perderem um amigo de sempre, não é propriamente fácil aceitar. E é daquelas coisas que não se esquecem mesmo. Anos depois, chegou-me a revolta e a tristeza, e por fim a aceitação, que substitui tudo pela saudade e por uma boa memória.
Voltar a encarar o colégio, oito anos depois, apesar de lá ter ido uma vez há cerca de cinco ou seis anos, foi mais uma daquelas sensações estranhas, de quem visita um local que, quando era criança, lhe parecia enorme, e que afinal não o é tanto assim. Algumas coisas mudaram, mas a base mantém-se: está tudo no sítio certo, lembro-me bem de todos os elementos da escola. Foi bom rever os professores e as auxiliares, conversar sobre tempos idos e trazer de volta à memória algumas recordações mais esquecidas. E subir aquelas escadas até às salas, e dar uma cambalhota com a Inês, e procurar fotografias antigas para digitalizar e pôr no facebook, novas tecnologias olé. Tenho saudades daquele tempo, como qualquer um de nós tem. Fomos os primeiros da escola, somos ainda aqueles que o pessoal interno mais recorda, porque os marcámos tanto como nos marcaram a nós.
Tenho pena de não ver alguns de nós há muitos anos - mas é bom encontrar alguns nas redes sociais e pensar "o quê, aquele é o Ricardo? tão diferente...!". E tenho pena que o Tomás e o Diogo não se tenham juntado a nós na visita de hoje. Éramos um grupo muito unido, gostava de nos juntar a todos, mas já foi bom estar com as Ineses e com o Fábio. Podemos não ser amigos como dantes, podemos não nos dar tão bem nem nos ver tanto, mas quando estamos juntos, e sobretudo no ambiente natural que é o colégio, é como se voltássemos a ser crianças e estivéssemos a viver de novo nos anos 90, a nossa infância maravilhosa. Agora é continuar com as visitar, continuar a combinar coisas e a recordar o passado, that's all we have ( :

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