sexta-feira, 12 de março de 2010

teaching.

Um dia vou ensinar História de Portugal a crianças do quarto ano e ser professora por umas horas. Ontem foi o dia :) Fiquei estafada, foram oito vezes a repetir os mesmos factos acerca do 25 de Abril e sempre com miúdos diferentes. Mas cada exposição / aula foi uma descoberta, uma aprendizagem da nossa parte também, e em termos de realização pessoal sinto-me bastante bem.

Não podemos subestimar as crianças. Havia ali pequenos génios! Sobretudo um rapazito que não se calou um minuto a falar do Estado Novo. Tirou-me, à vontade, 5 minutos de aula. Dos 20. Mas também há pequenas pestes, claro. Havia lá um que era impossível, só gozava com os colegas; apetecia-me dar-lhe um tabefe ou pelo menos mandá-lo calar, mas acabei por fingir que ele queria falar e o miúdo acalmou-se. No geral eram todos bastante curiosos e nada tímidos, só via braços no ar quando pedia ou perguntava qualquer coisa. E já sabiam bastante... tive receio de lhes falar da Guerra Colonial, não sabia se fazia parte da matéria, mas um deles acrescentou esse facto à minha informação e tive de falar. E houve uma miúda que, quando perguntei o que era o Salazar e o Estado Novo, respondeu... "autoritário e repressivo". Fiquei wow com o vocabulário!

Apesar de tudo, eles ainda estão um pouco na idade dos "porquês".. querem saber sempre mais. Penso que gostaram do poema e das imagens que levei. Quando lhes contei que a RTP era o único canal de televisão na altura (sendo que eles agora têm 218 - como disse um - ou até 500), o espanto instalou-se através das bocas abertas. E perguntaram-me que programas davam na estação - a Susana salvou-me com um "então, telejornais..". A espingarda que levei também foi alvo da atenção deles. Não houve um único grupo que não me interrogasse se era verdadeira. "Não, é de brincar", respondia. Houve um miúdo espalhol (e ainda outro) que me disse que havia uma pressão de ar verdadeira na escola. Anda uma pessoa a preocupar-se com a segurança e tal...
A propósito da florista que ofereceu um cravo a um soldado, durante a revolução, um rapazito disse-me assim: "Então a florista fez um ganda negócio!". Ri-me imenso. E quando perguntava o que achavam que tinha significado a revolução, diziam: "mais assaltos". Não era bem isso que procurava, mas ok. Num debate com um dos miúdos acerca disso, ainda tentei disfarçar... "oh, mas não preferes viver como vives hoje? Os ladrões são apanhados e presos na mesma, não é?". LOL. A mente deles está de tal forma baralhada que alguns me disseram, também, que o 25 de Abril era o regresso à liberdade depois da República. Eu respondia que não era bem isso. Ah, e todos me falavam da história de o Salazar ter caído da cadeira. A minha colega Cláudia disse-lhes que ele saltava em cima das cadeiras e eu é que fiquei com o peso às costas xD

As minhas colegas têm, igualmente, histórias engraçadas para contar. Acho que foi muito positivo para os alunos e foi-o, de certeza absoluta, para nós. Gostei de ensinar, de aprender, do stress e da descoberta que foi cada aula, pois é impossível adivinhar a interacção que vai haver e o tempo que teremos para falar e ouvir. Foi muito bom, uma experiência para registar e posso dizer, sem dúvidas, de que este foi o melhor projecto que alguma vez poderíamos ter escolhido :)


Mais sobre o projecto e este dia aqui: Projecto 'História para Pequeninos'

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