quinta-feira, 25 de março de 2010

Pedaços de uma vida

   “Rita, preciso de falar contigo”.
   A frase inscreve-se num pequeno pedaço de papel, amachucado e rasgado nas pontas, parte do que antes fora umam folha de um caderno de linhas. Escritas a cor-de-rosa e letra de criança, as palavras ecoam na mente de Rita, a rapariga de dez anos que recebeu o papel, dobrado em seis, da colega do banco de trás. Reconhece desde logo a letra e a caneta de Luísa, a sua melhor amiga de sempre, sorrindo ao ler o que esta lhe transmitiu. Pega na caneta, abre bem o papel em cima do livro de Português e escreve uma resposta para a amiga.
   O professor fala continuamente com o quadro de giz e escreve nele uma série de frases para os alunos completarem de seguida. Rita observa-o de costas e, verificando o perímetro de segurança, volta-se rápida e eficazmente para trás, pedindo à colega para devolver o papel a Luísa, qual pombo-correio da sala de aula. Luísa recebe, pouco tempo depois, o papel ainda mais amachucado, regressado da curta visita a Rita: “Diz, o que se passa?”.
   A rapariga suspira e decide então escrever o que lhe vai na alma. É o João, aquele rapaz que lhe dá voltas e voltas à cabeça mas que, apesar de se darem bem, nunca chegou à frente para lhe mostrar que gosta dela. Se é que gosta… Luísa apenas tem certeza dos seus sentimentos em relação a ele. Por isso precisa da ajuda da melhor amiga. Pode ela tomar a iniciativa e dizer a João que gosta dele? É essa a pergunta que faz a Rita na parte de trás do pedaço de papel já utilizado, já que a parte da frente se encheu de letras logo à primeira conversação.
   Quando Rita recebe o papel, o professor vira-se para a frente da turma e as raparigas sentem o coração a palpitar. Temem ser apanhadas a trocar papelinhos durante a aula e serem castigadas por isso, mas suspiram de alívio pouco depois, quando o professor se volta para o quadro e finge não ter dado conta da agitação dos alunos. Rita lê então a mensagem da amiga e volta a sorrir. Observando a falta de espaço no pequeno papel, para lhe responder, rasga cuidadosamente um pedaço um pouco maior do seu caderno e escreve a mensagem pretendida: “Não perdes nada, Luisinha :)”. Dobrado e bem escondido, o papelinho viaja de novo para a rapariga.
   No entanto, a viagem encontra alguns obstáculos. É Nuno, o rapaz irrequieto e mal-educado que arranca o papel das mãos da rapariga pombo-correio, obrigando Rita a gritar para lhe ser devolvido; e é o professor, que houve o gritinho de Rita e se volta para ver o que se passa. As crianças param as suas actividades ilícitas na sala de aula e fingem estar atentas ao que se passa na mesma, fazendo com que o professor volte ao que estava a fazer. Mas Nuno não larga o papel e Rita acaba por desistir, rasgando um novo pedaço de folha e enviando, finalmente, a mensagem à amiga.
   O medo instala-se em Luísa, ao pensar que Nuno pode ter lido alguma referência a João no papel enviado por Rita; mas esta esclarece-lhe que não escrevera nada que pudesse denunciar a situação. Ao ler a resposta da amiga, Luísa sente uma certa esperança a pairar no ar e lança-lhe um sorrisinho de acordo.
   - No intervalo, Rita. – sussurra por entre as carteiras da frente. Rita volta-se para trás e aquiesce, sorrindo também.
   Nuno desdobra, entretanto, o papelinho que conseguira roubar às raparigas, lendo o seu conteúdo e não compreendendo do que se trata. Mostra-o a João, o seu maior amigo e colega de carteira, a paixão de Luísa e, ele próprio, um grande apaixonado pela rapariga em causa. Mesmo sem o saber, João pressente que aquele papel pode ter a ver com ele. O olhar que lança, de seguida, a Luísa, respondido com um sorriso corado e um balão de pastilha elástica, confirma ligeiramente essa hipótese. João rasga então um pedaço de papel do caderno de Nuno e escreve uma mensagem para Luísa, que Nuno se encarrega de transportar até à carteira dela.
   Luísa sente-se corar quando recebe o papel das mãos de Nuno e um olhar fulminante por parte de João. O que dirá a mensagem?, interroga-se Rita da sua mesa, olhando para trás de modo a ver a reacção da melhor amiga. O professor termina os escritos no quadro, nesse preciso instante, lançando um olhar geral pela sala de aula e contemplando os rostos apreensivos dos alunos. Hoje é um dia de papeizinhos e mensagens, pensa para si. Põe-nos então a trabalhar, exigindo que façam os exercícios do quadro. Nuno suspira de tédio, Rita tenta manter o pescoço virado para trás, Luísa e João sentem-se avermelhar na expectativa de a primeira abrir o papel.
   “Queres namorar comigo?”. Por baixo, dois quadradinhos, um “SIM” e um “NÃO” junto a cada um deles. Luísa mergulha num estado de profunda surpresa e euforia, dando um gritinho histérico que faz João ter ainda mais confiança na sua acção. Rita quer saber o que se passa, por isso Luísa apressa-se a rasgar mais um pedaço de papel e a escrever: “O João pediu-me em namoro!!!!!!!!”. Depois de o enviar através da rapariga da frente, pega no papel de João, sentindo o cheiro deste ao passar as mãos pelo bocado de folha. Com a caneta cor-de-rosa, desenha uma cruzinha no “SIM” e entrega o papel a Nuno, esboçando o maior sorriso do mundo.
   Ninguém faz os exercícios propostos pelo altivo professor que, no fundo, tem um coração de manteiga e os deixa trocar mensagens durante a aula. As férias aproximam-se e não vale a pena puxar pelas crianças, sabe perfeitamente que elas não se concentram em épocas destas. Ainda assim, a rapariga pombo-correio e o próprio Nuno empenham-se no trabalho proposto, após cada um à sua maneira transportar um papel para os amigos. Mas nem Luísa nem João se apercebem desse facto, tão embebidos que estão na troca de papéis.
   João recebe a resposta afirmativa de Luísa e, levando a mão aos lábios, simula o envio de um beijo para a sua carteira. A rapariga sente um arrepio pela espinha acima. O seu maior desejo realizara-se! Nem queria acreditar que João também gostava dela e que assim, de um momento para o outro, a relação entre ambos estava selada, com um beijo silencioso e virtual. Rita também abana a cabeça de espanto e felicidade pela amiga, olhando de relance para Nuno, por quem sempre sentiu uma paixão secreta e nunca teve coragem de expressar, nem sequer à amiga. Mas agora está feliz por ela, é o que importa. E escreve-lhe exactamente isso no papel que envia para trás.
   Nuno, por seu lado, interrompe o que está a fazer para olhar para Rita, que o fixa há alguns minutos mas retira o olhar mal vê que ele a fixa também. No entanto, a rapariga pombo-correio, de seu nome Inês, deixa igualmente de trabalhar e escreve um pequeno papel a caneta azul clara, entregando-o a Nuno e corando ao fazê-lo. O rapaz abre cuidadosamente o papel e lê o que tem escrito: “Também queres namorar comigo?”. Rita vai-se apercebendo de tudo isto e volta-se para a frente quando vê o caso malparado, deixando espaço livre para a paixão crescer no olhar das outras duas crianças.
   Confuso, Nuno pensa responder “NÃO”, mas ao olhar para Inês compreende que sente alguma coisa por ela. É bonita, simpática e, tal como ele, está cansada de ver todos os outros casais da turma com um final feliz. Porque não?, pergunta-se. Acaba por escrever, com a sua caneta igualmente azul, um “SIM” desajeitado mas sincero no outro lado do papel.
   Resta Rita. Todos estão felizes… João e Luísa com o seu romance lamechas, a tímida Inês e Nuno com a sua paixão instantânea e fabricada. Menos ela, a sensível e simpática Rita, que ficara sozinha e sem a paixão da sua vida. É então que Inês lhe entrega um papel vindo do fundo da sala, nem esta sabe bem de quem. Luísa faz uma expressão curiosa, Rita surpreende-se com o papel que tem nas mãos. De quem será? A rapariga desdobra-o com cuidado e lê-o: “Ritinha, o David gosta de ti”. Rita olha de imediato para David, que se sente a corar. Terá sido descoberta a sua paixão secreta por Rita?
   Junto ao quadro, o professor dá um sorrisinho malandro. No seu tempo era assim que as coisas se processavam. Os papelinhos eram o melhor meio de comunicação entre as crianças nas aulas, fosse qual fosse a mensagem que se queria passar. Naquele dia, particularmente, o professor Nuno sentira na pele a enorme importância dos pequenos pedaços de papel na sua vida. O romance com Inês começara naquela sala de aula, uma paixão algo simples e encenada que acabou por durar poucos anos. Quanto a Rita, o romance com David também foi efémero e demasiado forçado, acabando esta por reencontrar Nuno, anos depois, e deixar a paixão que antes tivera por ele reflorescer. A verdade é que, vinte anos mais tarde, Rita está prestes a tornar-se sua esposa e Nuno não podia sentir-se mais feliz.
   Nuno observa a sua turma, voltando ao presente e aos alunos do quarto ano que tem pela frente e que já foi um dia. Agora usam-se telemóveis, mensagens escritas que não dão nas vistas e podem ser recebidas na hora pela outra pessoa. Ainda assim, Nuno consegue dar conta de alguns papelinhos que andam a circular pela sala e sorri ao lembrar-se dos casais formados naquela aula e que ainda se mantêm, como João e Luísa, os seus ainda melhores amigos. Às vezes apetece-lhe regressar à infância e poder reviver aqueles bons velhos tempos, mas cedo se apercebe de que as coisas não mudaram assim tanto ao longo dos vinte anos. Afinal, ainda se escrevem papelinhos nas salas de aula.

1 comentário:

Rosa Branca disse...

Tão fairytale q a Raquel anda:P:P
Só happy endings e tal?:P:)
As ritas andam a fazer o furor nos contos deste pessoal:)