domingo, 5 de julho de 2009

VERTIGENS

É importante compreender que existem diversos tipos de jornalismo, e que para além do jornalismo online e da imprensa escrita, há um imenso mundo de aprendizagem e curiosidade a descobrir. Há sempre um receio generalizado de experimentar coisas novas, conhecer novas técnicas e diversificar a prática, apesar de ser fundamental fazê-lo, sobretudo se se pretender ser um bom jornalista. No entanto, um amigo disse-me, há pouco tempo, que se quero realmente ser jornalista, e se vou lutar por isso, não devo ter receio de aceitar qualquer trabalho, seja ele de que natureza for, que me possa aproximar desse objectivo. E assim, impelida por este desejo enorme de aceitar um desafio e praticar o verdadeiro jornalismo, lancei-me de cabeça para um projecto imediato: a estreia na rádio.

Inicialmente, a ideia era fazer uma gravação, uma espécie de reportagem, sobre o encontro de twitters na Assembleia da República e o debate do Estado da Nação, que aconteceria no mesmo dia. Mais tarde, ou como quem diz, no dia anterior ao acontecimento, a ideia evoluiu para um directo (sim, uma estreia em directo, na rádio) no rescaldo do debate no Parlamento. E, apesar do nervosismo que me envolveu de imediato… não fui de modas. Aceitei o desafio. Aceitei entrar em directo na rádio, sem qualquer texto para me guiar, e ainda por cima num tema que não domino: a política.

Para esclarecer como surgiu o convite para a rádio, já que isto parece uma situação muito fora do normal: para mim, o twitter tem funcionado como uma plataforma de conhecimento, de pessoas, de situações, mas também de lançamento ao nível profissional, ou semi-profissional, se preferirmos. Quando lá estou, para além de ver frases, imagens, interesses, vejo pessoas, porque por detrás de cada conta, ou perfil, existe alguém que procura no twitter uma janela aberta para o mundo. E é exactamente isso que ele significa: uma janela aberta, um outro mundo, complementar ao mundo real. Através dele conheci, entre muitas outras pessoas, o Pedro, com quem partilho, para além de uma idade muito próxima, praticamente todos os interesses, a nível pessoal e profissional. Através do Twitter, ganhei um amigo e um colega de trabalho. Não podia pedir mais.

Ora, o Pedro trabalha numa rádio local de Oliveira do Hospital, terrinha do interior português, perto da Guarda, ainda no distrito de Coimbra – a Rádio Boa Nova que, em Lisboa, apenas pode ser ouvida em emissão online. Faz rádio há cinco anos, nasceu na rádio e para a rádio, e nas férias trabalha diariamente, a pôr músicas e nos noticiários locais e regionais. O convite para experimentar a rádio veio dele. Porque não entrar em directo naquele dia de debate e de encontro de twitters na Assembleia da República? Pois bem, o desafio foi aceite.

No próprio dia do acontecimento, o nervosismo não podia ser maior. Posso até garantir que a estreia na rádio era o que me punha mais nervosa: encontrei-me com todas aquelas pessoas desconhecidas, conheci deputados… apertei a mão ao nosso Primeiro-Ministro, José Sócrates! E não senti absolutamente nervosismo nenhum. Só quando chegou a hora de entrar em directo comecei, de novo, a desesperar. Em relação ao encontro, em si, foi uma iniciativa fantástica do deputado Jorge Seguro, que se revelou também uma pessoa muito acessível, simpática, prestável e humilde. Pudemos entrar nas galerias do Parlamento com os computadores e twittar durante todo o debate, participando num evento histórico, fazendo parte da história. E essa sensação é maravilhosa.

Quando chegaram as seis horas da tarde, abandonei a galeria e dirigi-me para o extenso corredor que rodeia a sala das sessões, com os nervos em popa. Aguardei pelo telefonema do Pedro, impaciente, com as mãos suadas, mas ainda assim mais tranquila do que quando estava nas galerias a contar as horas para o momento derradeiro. «Três minutos», recebi por SMS no telemóvel. Respirei fundo, tranquilizei-me. Os senhores polícias que andavam de um lado para o outro do corredor, a olhar para mim, não foram propriamente tranquilizadores, mas procurei ignorá-los. E o telefone tocou. «Nervosa?»; «Não, já estou melhor»; «Sim, nota-se». O Pedro tentou também acalmar-me, explicando como ia funcionar tudo: depois dos comerciais, o noticiário iria começar, eu ouviria a voz dele, e quando me introduzisse e fizesse perguntas, eu entraria em directo. E assim foi.

O nervosismo, associado à inexperiência, é tramado. Comecei a falar sobre o debate, sobre as várias bancadas, e a tentar responder às perguntas do Pedro. Engasguei-me quando falou no Paulo Portas, perdi-me no meio dos papéis onde tinha escrito os tópicos. Disse «Ahh», «pronto», «e é isso», completamente fora do espírito da rádio. Senti-me mais à vontade quando falei sobre o encontro, sobre o que tinha acontecido, e essa parte correu melhor. Repórter especial da Boa Nova em directo da Assembleia da República. Para primeira vez, não correu mal, de todo. O próprio Pedro mo disse, quando terminou o noticiário e voltou a pegar no telefone. «Estás aprovada», foram as palavras dele. «Foi precisa muita coragem para fazer isto, e tu conseguiste. Agora consegues fazer tudo». E eu assenti. E memorizei aquelas palavras na minha cabeça. Consegui. Foi difícil, mas consegui.

Não tínhamos combinado praticamente nada, mas todas as pessoas que nos ouviram àquela hora referiram a grande coordenação entre nós, a conversa de se desenrolou de forma muito natural. Ainda bem que assim foi. Passámos para o estúdio de gravação, onde repeti algumas das coisas que já tinha dito e voltei a falar do debate, respondendo a perguntas do Pedro. Já não tinha o nervosismo do directo, e enganei-me diversas vezes, mas a edição dele tratou de juntar os bocados bons e eliminar os maus. Para além de ter sido a minha primeira vez na rádio, foi também a primeira vez que, profissionalmente, perdi um exclusivo. O conhecido gesto do Ministro da Economia tinha já ocorrido quando entrei em directo, mas o olhar atento dos polícias ao meu tom de voz elevado e todo o clima de nervosismo fizeram-me esquecer o pormenor. Mais tarde, como todos sabemos, o Ministro apresentou a demissão, e eu perdi a oportunidade de referir o pormenor minutos depois da sua ocorrência. Mas não pensei muito nisso. Estreei-me na rádio, em directo. Custa-me parar de o dizer. E isso foi o mais importante.

É uma sensação agradável, sentir que podemos experimentar e ter sucesso numa outra plataforma jornalística que não os jornais ou as revistas online. É bom podermos diversificar conhecimentos e praticar jornalismo de forma diferente, utilizando outros meios, neste caso específico abdicando dos recursos escritos e visuais, e valorizando a voz, a dicção, a pontuação e o texto radiofónico. O jornalismo é tudo isto. Depois da estreia, posso afirmar com segurança que quero praticar mais, tentar melhorar, e que não me arrependo de ter aceite o convite e ultrapassado todo o nervosismo para o conseguir realizar. E tenho de agradecer, em especial, ao Pedro, por o ter permitido e ajudado a fazer.

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