sábado, 18 de julho de 2009

Special One

Há pessoas que nos marcam profundamente, por estarem presentes nos momentos mais importantes, por nos ensinarem a encarar a vida, por nos serem fiéis e apoiarem sempre. O meu avô é uma dessas pessoas, talvez a única na minha vida. Desde pequena que me identifico com ele, com a pessoa que é, muito possivelmente pela partilha de gostos e pela maneira de ser. Se saí a alguém na minha família, foi decerto ao meu avô. Ou então apreendi conhecimentos e gostos durante o crescimento a seu lado, e tornei-me alguém que vê a vida de forma semelhante à dele. Seja como for, não há ninguém que me tenha marcado mais ao longo destas quase duas décadas de vida. É a verdade das verdades.

As recordações são imensas, incontáveis, desde os primeiros anos de vida até hoje. Era eu uma simples criança, e durante anos e anos fui levada pela mão daquele senhor já algo velhote, com a boina na cabeça, todos os dias, da escola para casa. Esta é a imagem que tenho do meu avô, desde sempre… o senhor da boina às riscas, ou aos quadrados, sempre sorridente e simpático para toda a gente. E até há muito pouco tempo, o caminho da escola para casa era feito a seu lado, independentemente da escola e independentemente do caminho percorrido. Eu e o senhor da boina, lado a lado.

Recordo a ajuda que me dava com as coisas da escola, ainda que, com o tempo, começasse a preferir ser deixada sozinha a estudar calmamente. Ainda antes da primeira classe, ensinou-me as primeiras letras, iniciou-me na aprendizagem da leitura, e durante todo o primeiro ciclo insistiu com ditados para me ensinar a escrever correctamente e sem erros ortográficos. E conseguiu. Hoje em dia, sou a escritora que sou graças à sua persistência nos meus erros, graças a tudo o que me ensinou. O meu desejo de escrever e o meu próprio talento, herdei-os dele, do seu gosto pela escrita desde que se conhece, da sua habilidade para a escrita, para as histórias, para a poesia.

O gosto pela história, pelo conhecimento, pelo mundo, pela informação, foram-me também transmitidos e ensinados por ele. O meu próprio sonho de ser jornalista deriva dessa personalidade que me ajudou a construir. Ainda hoje conversamos horas e horas sobre a actualidade, ou um tema especial que gostemos, e partilhamos opiniões e ideias. Um dos meus passatempos favoritos é ouvir as histórias que tem para contar, sobretudo sobre o passado e o que viveu antes de eu ser nascida. É algo que me fascina profundamente.

Enquanto pequena, havia um jogo muito engraçado que fazia com o meu avô. Hoje considero-o ridículo, totalmente infantil, mas divertia-me imenso com ele sempre que o fazíamos. Era algo a que chamávamos a máquina das cócegas, ou algo semelhante. Eu sentava-me ao colo dele, no sofá, e de repente ele começava a fazer-me cócegas. Eu ria que nem uma perdida, até não aguentar mais os soluços e sair dali quase sem fôlego. É uma memória da minha infância.

Outro pormenor característico do meu avô é o gosto pela leitura, que também me transmitiu. Passava horas e horas agarrado a livros antigos, a relembrar histórias, e tentava sempre captar o meu interesse para a leitura. Hoje ainda o faz, sobretudo relendo livros pela terceira e quarta vez, mas dedica-se mais às palavras cruzadas diárias enquanto toma o cafezinho. Outro dos seus gostos, derivado do conhecimento: as palavras-cruzadas. Foi algo que nunca me fascinou muito, mas quando ele se entretém de roda das pistas, gosto de tentar a minha sorte e adivinhar as palavras que faltam.

A verdade é que, hoje em dia, as memórias não passam de memórias, e apesar de algumas coisas subsistirem, outras mudaram. Eu mudei. Ele mudou. À medida que ambos fomos crescendo, fomos também sendo ligeiramente separados, os nossos gostos alterados, e todas as recordações fazem parte do passado. É certo que continuamos a conversar regularmente sobre os temas que nos interessam, e isso é o mais importante. Não temos a relação de antigamente, mas continuo a admitir que temos muito em comum e que não seria ninguém sem ele. Talvez o possa admitir hoje, mais do que nunca, porque estou a construir a minha personalidade, pouco a pouco, e a sentir na pele a influência que a presença dele teve em quem sou e em quem me tornei.

Não sei que mais dizer. É uma pessoa importante para mim, que me marcou e continua a marcar diariamente. Tenho pena que a idade e a inércia o estejam a consumir lentamente, e a afastar da pessoa que tanto gostava de se divertir e de fazer o que mais lhe aprazia. Mas espero conseguir inverter essa tendência. Aqui, tento relembrar a pessoa que é e que me inspirou durante estes anos todos. Merece-o.

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