quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

The past may be all we have

Preciso desesperadamente de o encontrar. É um sentimento ingénuo, talvez exagerado, certamente incompreensível. Mas não o consigo evitar ou ignorar. Sinto um aperto no peito só de pensar em encontrá-lo; ao mesmo tempo, custa-me a acreditar que não o voltarei a ver mais. E só sei que preciso irremediavelmente de o encontrar.
Em comum temos apenas um passado generoso, uma amizade forte que durou os primeiros anos de vida. Ao tentar recordar esse passado, as memórias são poucas, e o que não recordo é apenas comprovado por testemunhos alheios e fotografias que não refrescam completamente a memória. Recordo apenas um sentimento sólido de amizade, uma ligação que, por mais que o tempo tente apagar, ainda está presente e é sentida na pele. Mas não recordo muito mais, e culpo-me por isso. Porque não e lembro do dia em que, como tantas outras vezes, andámos de bicicleta e brincámos no parque? Porque não recordo a viagem de barco que fizemos, provavelmente o primeiro momento das nossas vidas em que estivemos por nossa conta? Porque não me recordo de ter tirado aquelas fotografias, de ser inocente, bonita, criança, com um enorme futuro pela frente?
Gostava de recordar mais, mas hoje relembro apenas o que me contam do passado mais longínquo. As nossas brincadeiras no prédio, as festas de anos, os sorrisos. Ainda assim, o sentimento da amizade que outrora nos uniu continua como um elo inquebrável, rodeando-me o corpo. E consigo, até, recordar alguns desses momentos, ainda que esteja a criá-los na minha cabeça, no preciso momento em que tento recordá-los nas fotografias. Sem memória de maior, só me resta a criatividade e a inocência que ainda não perdi completamente.
Não o vejo há sete, oito anos, nem sei a data certa. Oito anos é muito ano. Principalmente na nossa idade, que mudamos constantemente, de ano para ano, física e psicologicamente. Não compreendo como aconteceu a separação. Éramos crianças, ambos os nossos pais decidiram abandonar o prédio no qual fôramos criados e partir para localidades bem distantes do centro que nos juntara. E aí, apesar de nos termos ainda encontrado em festas de anos, o contacto perdeu-se. Não compreendo. Uma amizade tão forte como a nossa aparenta ter sido, e eu sinto que foi, deveria ter suplantado qualquer obstáculo espacial, e o contacto deveria ter sido mantido. Mas não. Nada. Nem um endereço de e-mail (sim, porque há dez anos as crianças já usavam computadores!), nem um único número de telefone. Como é possível? Como permiti que a separação se desse de forma tão brusca e radical?
Durante estes cerca de oito anos, não sei também onde andei neste mundo. A verdade é que não o recordei nestes últimos anos. Provavelmente, a sensação de ser criança evoluiu para uma adolescência necessária, um desejo intenso de atingir a idade adulta, e a infância perdida caiu no esquecimento. De tal forma que nem as memórias ficaram, apenas algumas conseguiram ultrapassar o tempo.
No entanto, certo dia, todo o sentimento de amizade e de valorização do passado regressou, não sei se para me atormentar ou ajudar a encarar a realidade. Olho para trás, para as fotografias, e vejo uma rapariga loira, querida, ingénua, sincera, simples. Vejo uma pessoa melhor do que a pessoa que sou hoje, e talvez por isso admire constantemente o passado e o que fui nele. E naquele dia, ao ouvir testemunhos de como a minha amizade com aquele rapaz igualmente querido, simpático e inocente, era forte como uma corda inquebrável, senti um desejo enorme de recuperar essa amizade, de regressar a esse passado que, bem vistas as coisas, não é assim tão distante, e voltar a ser aquela rapariga de quem me orgulho diariamente.
Sem um contacto, um qualquer indício da existência daquela pessoa (exceptuando as fotografias com mais de oito anos), o meu desespero aumentou ao aperceber-me que encontrá-lo não seria fácil, pelo contrário. Coloquei ao meu serviço as mais recentes tecnologias informáticas, pesquisando em motores de busca e redes de interacção social o nome daquele que fora, em tempos, o meu melhor amigo, e talvez o melhor amigo que já tive até hoje. Nada. Milhares de rapazes com o mesmo nome, milhares de rostos que, por mais crescidos que estivessem, não correspondiam à ideia que eu tinha daquele rapaz, e de como ele estaria com os dezassete anos quase feitos. Conseguiria reconhecê-lo? Talvez, mas nunca saberei. A busca não trouxe proveitos, e o meu desespero agravava-se ao encontrar a tarefa cada vez mais complicada.
A principal questão de tudo isto é: porquê agora? Porque preciso de o encontrar, assim, de um dia para o outro? Só porque veio à baila numa conversa e eu senti um enorme desejo de relembrar o que ele significava para mim? Ainda assim, e apesar de a incursão informática não ter dado frutos, a minha determinação não me deixou desistir. Vasculhei tudo o que era fotografias, diários antigos, livros, documentos, brinquedos e coisas da escola. Procurei em todo o lado onde podia encontrar a mínima pista da sua localização, da sua existência.
E encontrei. Guardado no meio de papéis, dentro de uma pequena e secreta caixa de recordações, escondida dentro de uma gaveta inutilizada, inserida num armário que raramente é aberto. Um convite de aniversário, do ano de 2000 (nove anos atrás), com as instruções necessárias à realização do evento, incluindo dois números de telefone para confirmação da ida: o número de casa (inutilizável, pois pertencia ao apartamento no qual vivera antes de se mudar); e um abençoado número de telemóvel, provavelmente de um dos pais.
Um sorriso abriu-se no meu rosto, como era de esperar. A esperança nasceu naquele momento, ao mesmo tempo que o receio de o voltar a encarar deu também mostras da sua existência. As perguntas choveram: como será voltar a vê-lo? Sentiremos que estes oito anos não passaram, que podemos retomar uma amizade perdida mas não esquecida? Será que ele mudou muito, que não gosta de relembrar o passado? Será que ele se lembra de mim?
A coragem não chegou para marcar aquele número e pressionar a tecla verde. Não conheço os pais dele, não o conheço a ele, sequer; não hoje. Nem sequer sei se aquele número ainda existe, se é válido, se ainda lhe pertence. O que diria, uma vez ao telefone? Não tenho coragem, simplesmente sou demasiado tímida para o fazer. Por isso estou à espera que alguém o faça por mim, a minha querida mãe que diz não se importar de lidar com a situação. Enquanto não o faz, só me resta esperar e acreditar que aquele número ainda subsiste e vai acabar com o meu sofrimento. Sem fé, não vou a lado nenhum.
E espero, discreta mas impacientemente, por saber novas dele. Por saber se posso manter a expectativa, ou se o número não existe e tenho de a abandonar para sempre. É a minha última esperança, e isso assusta-me. E se não der? Devo esperar que o destino nos junte? Devo achar que, se houve uma separação e não o voltei a ver, é porque não está escrito que tal vai acontecer?
Inexplicavelmente, talvez estupidamente, preciso de o encontrar. Preciso de o voltar a ver, de o recordar, de voltar a sentir a sua amizade. Não temo mais encará-lo, apenas temo que as coisas tenham mudado de tal forma que não é possível voltar atrás no tempo. Por isso, Diogo Lopes, estejas onde estiveres, se estiveres algures por aí, não deixes de me contactar. Afinal de contas, aquele passado em comum não contará para alguma coisa? Já tentei, com todas as minhas forças, encontrar-te. Só tenho um nome, o teu; um apelido, o teu. Nada mais. E preciso desesperadamente de te encontrar.

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