segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Coisas pelas quais vale a pena viver, ou talvez não

Por vezes é difícil encontrarmos um conjunto de coisas pelas quais valha realmente a pena continuar neste mundo. Porque estamos aqui, afinal de contas? Porque não temos a certeza de que deveríamos estar aqui? Porque continuamos a questionar-nos sobre como a vida seria se algo tivesse sido diferente; sobre a felicidade dos outros e a nossa miséria? Por vezes penso que devíamos parar durante um momento; não ‘parar para pensar’, antes parar mesmo, parar, fazer stop. Parar para podermos ignorar estes pensamentos; parar para parar de vez. Desligar, suspender, encerrar, apenas por alguns momentos. E nesse espaço de tempo, pequeno ou grande, talvez sentíssemos a falta que algumas coisas nos fazem; não a falta da miséria, mas da vida em si, das poucas mas ainda assim algumas coisas boas da vida. Talvez descobríssemos a tal lista de coisas pelas quais vale a pena pisar terra firme e aguentar-nos em pé, ou talvez não, mas ao menos podíamos dizer que tínhamos feito o mínimo esforço. Ora, sabemos que tal é impossível, por isso, como permaneço indubitavelmente viva, continuo ignorante no que respeita às coisas que me fazem continuar aqui. Penso que não estaria melhor doutra forma, e deixo-me ficar assim. Penso que não vale a pena dar-me ao trabalho de mudar, por isso não mudo. Mas, mais do que isso, tenho esperança na mudança, no futuro, na vida em si; e acredito que, um dia, ainda que longínquo, as coisas vão realmente mudar, e a felicidade aparecerá para me sorrir. Essa é, talvez a única coisa pela qual sinto que vale a pena viver: a possibilidade de um futuro melhor, a expectativa e a esperança de uma vida mais feliz, de um destino mais sorridente. Daqui a uns dez ou quinze anos, voltamos a falar. E esta esperança já terá voado para bem longe, decerto. Nenhuma vida é como um conto de fadas. E daí, algumas talvez o sejam, mas são tão raras que não merecem sequer ser mencionadas. Daqui a uns anos, só me resta esperar que as coisas tenham mudado, e que a lista tenha aumentado razoavelmente. Até lá, mantemos a esperança. Porque – e é preciso não esquecer – ter esperança é, exactamente, acreditar em algo que, apesar de possível, se afigura bastante improvável. E estes futuros de que falamos, afiguram-se, sem dúvida, sombrios; mas mais do que isso, incertos. E na incerteza reside a verdadeira esperança.

2 comentários:

Carlos disse...

Olá Raquel!:)
Foi com muito gosto que li mais um dos teus belíssimos textos, após algum tempo de ausência.
A procura de um objectivo, de um propósito para a nossa existência torna-se uma luta constante a partir de certas alturas da nossa vida. Às vezes sentimos que algo está mal em nós, que não somos felizes e que precisamos de mudar, por isso pensamos naquilo que podemos fazer para que isso aconteça. Só que na maior parte das vezes aquilo em que pensamos é demasiadamente difícil de realizar, e ficamos exactamente na mesma, como disseste.
Mas será necessário que tenhamos esse tempo de reflexão, de paragem?
Porque será que temos que ser nós a ter que mudar algo, sacrificar algo, para podermos ter a nossa hipótese de felicidade? E ao fazê-lo, não estaremos nós a perder parte de nós próprios, tornando-nos algo que não somos?
Talvez o nosso objectivo na vida não seja descobrir o nosso objectivo, ou efectuar uma mudança radical dentro de nós, mas sim mudar o mundo (ou pelo menos a parte dele em que estamos) com a força das nossas convicções, dos nossos sonhos e esperanças, para assim termos um sítio onde nos sintamos completamente realizados e felizes.
Desculpa se me alonguei demasiado no comentário, mas neste assunto em particular, qualquer tipo de abreviação é impossível. ;)
Continua a escrever e a fazer sonhar. Bjs

Raquel disse...

Carlos,
Gostei da tua ideia de mudar o mundo e encontrar um lugar onde possamos ser felizes... Apesar de tentadora, sinto-a bastante irrealista e soa-me a cliché. Não me interpretes mal, eu sou mais do que sonhadora, e adoro clichés. Mas a vida não é nada assim :)
Ainda assim, espero que tenhas razão. Obrigada por te alongares no comentário e dizeres o que te vai na alma. Conforta-me saber que alguém compreende estas indecisões que às vezes me servem de pretexto para escrevinhar qualquer coisa :)
Beijinhos