terça-feira, 20 de janeiro de 2009

O Romantismo

O Romantismo é definido como uma corrente artística, política e filosófica, que proliferou durante o final do século XVIII e todo o século XIX. Engloba uma série de características, sendo as principais a valorização do ‘eu’, a subjectividade, o sentimentalismo, a melancolia, as sensações de miséria e infelicidade, a tragédia, a emoção, o sonho, a morte, a idealização, o nacionalismo, a liberdade, a fantasia, a sacralização do amor. Os românticos escreviam e pintavam obras que evidenciavam um elevado teor de tristeza, de infelicidade.
Como dizia o personagem João da Ega n’Os Maias’, os românticos são pessoas que foram feitas para sofrer; segundo ele, não havia nada na vida para que valesse a pena correr, mas ainda assim ele próprio, achando-se um romântico, continuava a correr, quanto mais não fosse para apanhar o autocarro que o levaria a um compromisso. Isso relembra também a célebre frase de Woody Allen, ‘we nedd the eggs’, mas aplicada a uma situação geral: apesar de sofrermos com isso, precisamos de viver as situações para comprovarmos esse mesmo sofrimento.
Goethe era um romântico por excelência: pegando na sua obra ‘Werther’, o jovem personagem sofre pela sua amada, que está comprometida com outro homem; mas Werther não se conforma, porque o seu amor, apesar de impraticável, é impossível de ignorar, e ela dá-lhe alguma esperança. Goethe chega a escrever frases como ‘Ela não vê, não sente que está a preparar o veneno que nos há-de matar a ambos, e eu bebo com delícia a taça em que ela me oferece a morte!’. Acaba por se suicidar no fim, e esse é o expoente máximo do seu romantismo – sofrer em vida, por um amor não correspondido; e sofrer com a morte.
Um romântico aspira ao infinito, quer sempre mais do que tem e pode ter; é um sonhador nato, insatisfeito com a vida que tem, vítima do destino. Eleva o amor a um patamar mais elevado; na maioria das situações, não é capaz de seguir a razão, o senso comum; antes é levado pelo instinto, pelos impulsos, e em vez de procurar um equilíbrio entre eles, segue os seus sentimentos, ainda que estes o guiem para a direcção que não é a mais correcta.
Apesar de pertencer ao passado e à história, o Romantismo nunca se esfumou completamente. Na época, opôs-se à filosofia das Luzes, em voga anteriormente, que valorizava a razão e o ser humano. E essa oposição permanece. Tem de continuar a haver uma teoria que se diferencie da aposta na racionalidade e no Homem. Tem de haver uma teoria que defenda a subjectividade, a utopia, os sentimentos, a emoção. O Romantismo ainda existe; talvez ainda mais, neste mundo, do que há duzentos anos atrás. Ainda hoje há pessoas que parecem carregar o peso do mundo às costas; e não precisam de o demonstrar através da produção artística, basta sofrerem e sentirem o mesmo que os grandes homens românticos do passado transmitiam. Talvez me considere, até, uma romântica.
Vivo constantemente de sonho em sonho, de ilusão em ilusão, tentando encontrar um propósito para esta vida melancólica, algo por que correr, ou até andar. Não acredito chegar ao ponto de Werther, até porque o conformismo dos dias de hoje não permite uma abertura em relação ao tema da morte. De uma forma moderada, considero-me uma romântica que gosta de o ser de um certo modo – aliás, que não se imagina a escrever sem essa característica particular –, mas que por outro lado gostava de encontrar um poço de felicidade na sua vida. Diz-se que é por ser do signo peixes: os peixes são assim, melancólicos e sensíveis, por natureza. Talvez seja essa a razão. Só sei que sinto o mesmo que estes homens sentiam, esta força interior que me faz seguir os instintos e preterir a racionalidade. Este “contentamento descontente” em relação à vida, este querer mais do que se tem e se pode. Prefiro viver naquele outro mundo, da fantasia, e poupar-me a algumas desilusões no mundo real. Considero-me, portanto, uma romântica incurável, embora relativamente ponderada e que pensa duas vezes antes de agir. Espero ter a prova de que o Romantismo não morreu com o tempo, mas está bem presente na sociedade moderna.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Coisas pelas quais vale a pena viver, ou talvez não

Por vezes é difícil encontrarmos um conjunto de coisas pelas quais valha realmente a pena continuar neste mundo. Porque estamos aqui, afinal de contas? Porque não temos a certeza de que deveríamos estar aqui? Porque continuamos a questionar-nos sobre como a vida seria se algo tivesse sido diferente; sobre a felicidade dos outros e a nossa miséria? Por vezes penso que devíamos parar durante um momento; não ‘parar para pensar’, antes parar mesmo, parar, fazer stop. Parar para podermos ignorar estes pensamentos; parar para parar de vez. Desligar, suspender, encerrar, apenas por alguns momentos. E nesse espaço de tempo, pequeno ou grande, talvez sentíssemos a falta que algumas coisas nos fazem; não a falta da miséria, mas da vida em si, das poucas mas ainda assim algumas coisas boas da vida. Talvez descobríssemos a tal lista de coisas pelas quais vale a pena pisar terra firme e aguentar-nos em pé, ou talvez não, mas ao menos podíamos dizer que tínhamos feito o mínimo esforço. Ora, sabemos que tal é impossível, por isso, como permaneço indubitavelmente viva, continuo ignorante no que respeita às coisas que me fazem continuar aqui. Penso que não estaria melhor doutra forma, e deixo-me ficar assim. Penso que não vale a pena dar-me ao trabalho de mudar, por isso não mudo. Mas, mais do que isso, tenho esperança na mudança, no futuro, na vida em si; e acredito que, um dia, ainda que longínquo, as coisas vão realmente mudar, e a felicidade aparecerá para me sorrir. Essa é, talvez a única coisa pela qual sinto que vale a pena viver: a possibilidade de um futuro melhor, a expectativa e a esperança de uma vida mais feliz, de um destino mais sorridente. Daqui a uns dez ou quinze anos, voltamos a falar. E esta esperança já terá voado para bem longe, decerto. Nenhuma vida é como um conto de fadas. E daí, algumas talvez o sejam, mas são tão raras que não merecem sequer ser mencionadas. Daqui a uns anos, só me resta esperar que as coisas tenham mudado, e que a lista tenha aumentado razoavelmente. Até lá, mantemos a esperança. Porque – e é preciso não esquecer – ter esperança é, exactamente, acreditar em algo que, apesar de possível, se afigura bastante improvável. E estes futuros de que falamos, afiguram-se, sem dúvida, sombrios; mas mais do que isso, incertos. E na incerteza reside a verdadeira esperança.