sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Memories

É tão bom sentirmo-nos queridos…
Por mais que o tempo passe, por mais que a memória se desvaneça, há recordações que nunca se esquecem. Há pessoas que nos marcam profundamente, quase literalmente, como se estivessem inscritas a tinta permanente nos nossos corações. É uma sensação agradável, sabermos que, provavelmente, nunca as vamos esquecer. E sabe ainda melhor saber que elas sentem o mesmo por nós.
«É tão bom voltar a ver-te!»; «Estou tão contente por teres vindo visitar-nos!»; «Volta sempre!»; «Se precisares de alguma coisa…»; «Estás gira!»; «Está tudo a correr bem?». As expressões de preocupação, de curiosidade, de satisfação, de amizade, demonstram bem o poder da nossa presença e a força das recordações. É sempre agradável ouvi-las, e sentir a alegria de marcar alguém que também deixa uma marca em nós.
Já não a via há uns bons anos. Quando transitei para o terceiro ciclo, e ela deixou de ser minha professora, chorei por ter de a deixar, entristeci-me porque a veria muito menos do que naqueles dois anos. Depois de tantas recordações, de uma amizade tão forte e invulgar… Foi difícil mas, como em tudo na vida, o tempo sarou as feridas. Mesmo continuando na escola, raramente nos víamos, e só nos lembrávamos uma da outra em ocasiões especiais. Naquele dia, porém, as recordações elevaram-se por entre os anos, os meses, os dias, as horas, os minutos e os segundos passados desde a última vez. Vê-la foi a melhor coisa que poderia ter acontecido. Conversámos sobre essas recordações, e sobre as nossas vidas. Foi bom. Adorei vê-la, e ela sentiu o mesmo. Não é fantástico?
«Eu penso muitas vezes em vocês», disse-me outra professora do segundo ciclo, antiga directora de turma. Já a outra professora me tinha dito: «A vossa turma marcou-nos. Há turmas que passam e não deixam marca, mas a vossa turma marcou mesmo». A directora de turma veio confirmar esse facto. Relembrei a sala de aula, e os momentos passados no seu interior.
Mas foi no terceiro ciclo que conservei mais amizades. Até mesmo com pessoas que pensava nem sequer se lembrarem de mim. Enganei-me, e estou contente por isso. Uma dessas professoras aconselhou-me sobre o futuro, e admirou a minha capacidade para as línguas. Diz que gostou de me ver, e que devo continuar assim. Espantei-me, mas também gostei de a ver.
O meu director de turma, como sempre, cumprimentou-me com grande alarido. Sempre jovial, simpático e despassarado, não me deu grande atenção, mas a que deu foi mais do que suficiente. Gostei de o ver, mesmo. Tenho saudades do ar aluado dele, da amizade, do sorriso idiota. Bastantes.
Outra professora, uma das melhores e mais queridas que já tive, recebeu-me também com surpresa e agrado. Gostava de poder regressar às aulas dela, mas não posso. Custa saber que tudo acabou; afinal de contas, aquela já não é a minha escola; mas só me apetece regressar lá, ter aulas de manhã à tarde, e poder ver aquelas caras amigas a toda a hora, como dantes. Não valorizamos realmente as coisas boas até as perdermos, e apercebermo-nos de que elas nos fazem mais falta do que tudo o resto.
«Não tenho ido muito ao cinema», confessa-me outro professor, um dos meus favoritos como pessoa. Simpático e brincalhão, sei que gostou de me ver, e eu senti o mesmo. Enquanto aluna e professor, raramente discutíamos a matéria da disciplina. Antes falávamos de tudo e de nada; de cinema, da vida, da escola, das pessoas. Aconteceu o mesmo naquele dia em que o fui visitar. Já tinha saudades, apesar de algumas conversas pela Internet, e foi óptimo poder conversar com ele.
«Olá!», disse-me outra professora, contente por me ver. Marcou-me, também, ao longo dos cinco anos que estive na escola, por ser uma pessoa divertida e sempre pronta a ajudar. Gostei da sala dela, do ambiente. De entre todos os professores que mais me marcaram, é a que tenho visto mais vezes, e com quem mais gosto de falar.
É disto que se trata: das pessoas, e da importância que elas têm na nossa vida, tal como a importância que nós próprios temos na vida delas. É tão bom sentirmo-nos queridos, amados, admirados por pessoas que nos fazem sentir bem, e que nunca esqueceremos. Quero voltar lá, nem que seja para recordar, mas essencialmente para criar novas memórias. Quero voltar para ficar, para conversar, para sentir, para viver. Naquele dia senti-me mais viva, mais feliz. Quando regressei a casa, não queria lavar as mãos, como se isso apagasse, de alguma forma, tudo o que tinha acontecido nessa tarde, e todas as recordações. É fantástico podermos sentir algo semelhante por pessoas com quem convivemos por tão pouco tempo. Mas temos de ter em conta que a nossa vida também não é muito longa e, no panorama geral, elas destacam-se por terem tido um papel fundamental no nosso crescimento enquanto pessoas.
Não quero esquecer. Acima de tudo, penso que é isso que sinto. Apesar da tinta permanente, e da marca profunda que deixaram e continuam a deixar no meu coração, temo que tudo se apague num abrir e fechar de olhos. Mas não acredito que isso aconteça, e tenho esperança de manter a relação que tenho com elas. Todo o tempo que nos separa dissipa-se quando nos voltamos a encontrar; e é fantástica a sensação de carinho que nos une. Adorei aquele dia, e tudo o que se desenrolou à sua volta. Obrigada.

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Em nome da possibilidade

É estranho não sabermos o que queremos da vida, ainda mais quando sabemos que temos de o saber o mais depressa possível, antes que percamos o comboio e deixemos fugir um possível futuro brilhante. Pior será se apanharmos o comboio errado, aquele que nos leva até ao futuro falhado. É por isso que a escolha é tão importante, e demora tanto tempo a ser feita. Tem de ser bem pensada, repensada, e só depois de ser deixada em banho-maria é que poderá ser confirmada. Quem sabe; talvez não o seja nunca. Mas pelo menos, a curto prazo, terá de ser aceite e levada a cabo.
Agora: como escolher? Seremos demasiado jovens para sabermos o que queremos da vida? Mas não dizemos a toda a hora que o sabemos, e que queremos tomar as rédeas da nossa vida? Talvez a escolha não seja o mais importante, mas o facto de ela vir da nossa consciência, e ser uma escolha nossa, interior. Depois, seja ela qual for, terá de ser vivida. E se não for o que prevíamos? Se não tiver nada a ver com o que sonhávamos para nós próprios?
O nosso orgulho inato não nos permite distinguir a ficção da realidade. Acabamos por criar, inadvertidamente, uma outra vida, e perdemos tempo a sonhar com situações que jamais se tornarão realidade. Quando acordarmos para o mundo real, pode ser tarde demais para voltar atrás. Não quero viver na sombra para sempre; não quero perder a minha vida com sonhos irreais. Não quero sonhar, para não ter de contrastar um mundo perfeito com aquele em que nos encontramos. É preferível desconhecê-lo. Descobri-lo parece assustador, de princípio; mas abandoná-lo, depois, consegue sê-lo ainda mais. Ao mesmo tempo, viver uma vida sem sonhos também não parece uma boa opção. Conseguiríamos viver apenas com a realidade nua e crua?
A realidade é esta: nada é perfeito, e temos de lutar pelas coisas para as conseguirmos obter. Temos de tomar partidos, fazer escolhas, magoar, sofrer, errar, e aprender com os erros. Pode não ser à primeira, nem à segunda. E quem diz que à terceira é de vez, muitas vezes, engana-se. Pode não ser à décima segunda, sequer, mas há-de ser. Havemos de conseguir concretizar alguns dos nossos sonhos; havemos de conseguir alcançar algo que se assemelhe à felicidade. É o que nos fazem acreditar, desde que somos crianças ingénuas, e que nunca deixamos de crer, por mais que cresçamos. Pelo menos é a possibilidade que nos faz continuar. Por favor, não nos tirem a possibilidade; é tudo o que temos.
Essa tal possibilidade traz-nos ainda mais indecisões, ainda mais escolhas a fazer, e ainda mais possibilidades dentro de cada aspecto. Se fizermos a escolha errada, podemos perder a escolha correcta para sempre. Ninguém disse que seria fácil, é verdade; mas também ninguém nos preparou para o caso de ser tão difícil. Temos nas nossas mãos a opção correcta, e lutamos por ela, mas isso não significa que não a deixemos fugir por entre os dedos.
Há factores que podem influenciar, ou não, as nossas escolhas. Por exemplo, no outro dia, o meu professor de Filosofia, uma pessoa aberta, correcta, e excessivamente altruísta, chega-se para mim e diz: «Um dia, vais ser uma grande jornalista.». O que nos passa pela cabeça ao ouvir estas palavras? É simples: primeiro que nada, passa um orgulho interior, sob a forma de calor, que avermelha as nossas faces, e a que chamamos “corar”. Uma satisfação causada pelo elogio; incontornável, explícita, inevitável. Mas, mais do que isso, passam sensações de indecisão, de gratificação, de esperança, de possibilidade… O que queremos fazer, na verdade?
Adiamos as decisões, para amanhã, para depois, para daqui a uns anos. Afirmamos que estamos na fase de banho-maria. Dizemos que estamos a decidir, que leva tempo, que a importância da escolha nos faz ponderá-la bem demais. Será? Ou teremos medo de errar? Mas, afinal, não é através dos erros que aprendemos a melhorar? Porque tememos assim tanto aprender?
Os dois comboios aguardam a chegada de mais passageiros. Não faço ideia de quais são os seus destinos, ou em qual devo partir, por isso caminho, à deriva, em direcção ao espaço que os separa. Nesse espaço encontra-se o mundo sonhado: não há decisões a tomar, é só o vento levar o nosso corpo para onde bem lhe apetecer – ele saberá qual é o destino correcto. Mas esse caminho não vai dar a lado nenhum, quando acordar para a realidade, e vir que ambos os comboios já partiram. A vida não é assim tão fácil. Volto a adiar a decisão, nem que seja por uns minutos apenas. Volto a pensar na possibilidade, aquela que nos faz acreditar, por mais inacreditáveis que sejam as aspirações. Um dia… Talvez… Mas nunca se sabe.
É a possibilidade que nos faz continuar, e acreditar que fazemos o que está correcto. Não sei quem sou, quanto mais no que me vou tornar. São as grandes questões da vida, e muito provavelmente é suposto ficarem para sempre sem resposta. Mas então, por que raio procuramos essas respostas ao longo de toda a nossa vida?
Porquê tanta indecisão? Será que isto acaba, alguma vez? Talvez devamos fazer um-dó-li-tá, e deixar uma lengalenga popular decidir o futuro por nós. Há quem diga que o futuro está premeditado, e que nós nada temos a dizer sobre a forma como ele se vai desenrolar; por isso, a lengalenga talvez seja uma boa solução, pelo menos para acalmar os nossos ânimos. De qualquer forma, teremos de tomar a decisão: fazê-lo ou não. É a vida que temos.
O mundo dos sonhos continua, paralelamente ao mundo real. Não escolho o caminho que ele leva. A realidade, apesar de dura, mostra-se muito mais atractiva do que a ficção. Prefiro seguir os meus instintos, sejam eles quais forem, e viver a realidade, a tal que nos faz lutar pelo que queremos. Sem lutar, não conseguimos chegar a lado nenhum. Apanho o comboio que me parece mais acertado, embora, no interior, não tenha definitivamente tomado uma decisão. Mas a possibilidade faz-me continuar e, sobretudo, acreditar. Em nome da felicidade.