sexta-feira, 1 de agosto de 2008

lixo

À porta do edifício, Júlia pousou o seu saco do lixo verde para pegar no telemóvel e atender a chamada que recebia. Florival parou também na entrada, pousando o seu saco do lixo azul de modo a conseguir ver o correio. Júlia, entretida com o telefonema, pegou no saco do lixo e saiu do edifício, não reparando que levava um saco que não era o seu. Florival virou-se para pegar no seu saco do lixo azul, mas esse já não lá estava. Perto, só outro saco, verde, provavelmente da vizinha que acabara de sair. Levou-o para a rua, mas não resistiu à tentação e teve de o abrir. Depois de vasculhar o que continha, levou-o até ao recipiente público do lixo e encontrou-a lá, a despejar o seu saco azul do lixo.
- Penso que trocámos os sacos de lixo.
- A sério? Desculpe, nem dei por isso. Peguei no primeiro que vi.
- Não faz mal.
- Já despejei o seu lixo.
- Óptimo, eu despejo o seu. Perdoe-me a intromissão, mas quando é o casamento?
- Como… como é que você sabe?
- Ah… O seu saco do lixo abriu-se… e eu, sem querer, vi o que continha: os convites, os preparativos…
- Bem, não tenho nada a esconder. É amanhã.
- Parabéns. E está pronta?
- Porque pergunta? Tive muito tempo para me preparar…
- É que… as pastilhas elásticas e os pacotes de chocolate sugerem o contrário…
- Você andou mesmo a dissecar o meu lixo…?!
- Juro que foi sem intenção... Mas diga-me, está preparada?
- Não sei. Estava, até hoje. É que… sabe… eu sou Jornalista, e queria viajar pelo mundo fora, perseguindo histórias e investigando-as. E o facto de me casar vai impedir um pouco isso, mais ainda do que uma relação já impede.
- Mas vai casar com o seu melhor amigo de sempre, não é? Haverá algo melhor do que isso, do que sentir isso por alguém, especialmente por ele?
- O meu lixo diz assim tanto da minha vida? O que é que andou a coscuvilhar mais, para saber tudo isso?
- Vi umas folhas rasgadas, no seu lixo…
- Bem… Sim, você tem razão. Vou ser a pessoa mais feliz do mundo, e não tenho nada que me queixar.
- Assim é que se fala.
- Nem sei porque lhe estou a contar tudo isto. Normalmente, a minha função é estar desse lado, a ouvir os desabafos das outras pessoas. Devo ter uma etiqueta a dizer ‘aceitam-se confissões’. Porque é que estou a desabafar consigo, na véspera do meu casamento?
- Porque eu vi o seu lixo.
- Claro, já estava esquecida. E o que viu mais?
- Jornais e revistas, edições antigas. Vejo que gosta de ler.
- Evidentemente, sou Jornalista.
- Muito prazer em conhecê-la, eu sou Advogado.
- Pensei que já tínhamos ultrapassado a fase das apresentações, visto que sabe a minha vida toda. E diga-me: fuma?
- Como sabe, se não viu o meu lixo? Ah, o cigarro que tenho na mão. Sim, é verdade. Alivia o stress.
- Talvez precise de um, não acha?
- Por causa do casamento? Não, nada mesmo. O que você precisa é de mais chocolate e de uma boa noite de sono.
- Espero que sim.
- E lembre-se… o Gonçalo é muito boa pessoa. Pelo menos parece: enfermeiro, de boas famílias, o seu melhor amigo…
- Mas…? Esqueça, já nem lhe pergunto como sabe isso tudo. Nem lhe pergunto mais nada, vizinho.
- Posso perguntar eu? Já que está numa de confissões?
- Força, mas de certeza que já sabe a resposta.
- Como se chama?
- Não descobriu isso no meu lixo?
- Não tive tempo.
- Então ficamos assim, também não sei o seu nome.
- Como queira. Tem o direito, visto que eu é que vi o seu lixo.
- Bem, tenho de ir. Já despejei o lixo.
- Eu também. Mas lembre-se, vizinha. Amanhã, case-se. E mande-me um postal da lua-de-mel em Itália. 2º direito.

Sem comentários: