domingo, 24 de agosto de 2008

Sangue do mesmo sangue

Numa longínqua província do interior, algures na Beira Baixa, no município e freguesia da xxxxx, distrito de xxxxxxx xxxxxx, existe uma pequena localidade denominada x xxxxxxxx. Coberta de verdes prados, pinheiros bravos, árvores de fruto, oliveiras, eucaliptos, vinhas e hortas, é frequentemente alvo de incêndios no Verão, devido ao intenso calor que se faz sentir, e da ocorrência de neve, por vezes, no pico do Inverno, devido à altitude e às baixas temperaturas. Vulgar aldeia do interior de Portugal, alberga uma pequena igreja pintada a branco, que se consegue observar de praticamente todo o concelho. Ruas pequenas, trilhos estreitos, poucas casas e um escasso aglomerado populacional, caracterizam a localidade. X xxxxxxxx representa o que de mais rural existe no país, com a sua paisagem calcária decorada com casas em pedra que contrastam, mais rara e recentemente, com grandes vivendas modernizadas.

Sentada numa cadeira envelhecida, olhando o vazio, com a bengala encostada à parede, uma senhora idosa repousa sob o céu azul da Serra de x xxxxxxxx. Já viu muito, já viveu muito. Conta noventa anos desde o dia em que nasceu, Guilhermina de Jesus, sob aquele mesmo tecto. Relembra, silenciosamente, os tempos felizes de juventude, a sua vida adulta, ao lado do pai dos seus filhos, a vida no campo e o passar dos anos. Desde 1918, já viveu muito.
Hoje, a paisagem à sua volta não é a mesma que sempre conheceu. A casa que habitara durante anos, foi remodelada por um dos filhos, recentemente; a pequena casa de pedra, mesmo ao lado, onde nasceram os seus filhos, foi destruída por outro filho, e no seu lugar encontra-se já uma nova vivenda. Já não tem uma habitação fixa; a idade não lhe permitia viver sozinha, num local tão remoto, apesar de o conseguir fazer; por isso os filhos decidiram partilhar a sua custódia. Fica durante um determinado tempo na casa de um filho, e depois muda-se para a casa de outro, sendo sempre bem tratada e alimentada de acordo com indicações médicas. Pode dizer-se que o seu aspecto sugere que viva até aos cem anos ou mais.

A história da sua família está marcada por diversas divergências, episódios humorísticos, discussões, segredos, confissões particulares… Por onde começar? No total, Guilhermina tem sete filhos, doze netos e onze bisnetos – uma grande família. Cada filho mais diferente do outro, cada um com um conjunto específico de características especiais, cada um uma personagem, por si só. A única coisa que partilham entre si é o local onde nasceram e, claro, os progenitores.
Manuel, Manuela, Hélio, Joana, Ivete, Zeca e Serafim são os seus nomes.

De todos, o único filho que não abandonou o local de nascimento, a Serra de x xxxxxxxx, foi Zeca, “O Coveiro”. Estranhamente, pouco se sabe sobre ele. Aparece nas festas de família, de vez em quando, acompanhado pela sua esposa Josefina; é coveiro de profissão; é baixo e rechonchudo; mas nunca se vê muito a sua figura a rondar a antiga casa da mãe ou dos restantes irmãos. Vive algures por ali perto, mas ninguém sabe muito bem onde. Os seus dois filhos – filho e filha – só se vêem nos casamentos; sabe-se que tem três netos. Merece o cognome de “O Coveiro” por todas as razões óbvias, e porque o escasso convívio com o resto da família o envolve numa auréola de obscuridade relativamente aos seus irmãos e sobrinhos.
Hélio, “O Zangado”, passa agora bastante tempo na Serra de x xxxxxxxx. Comprou a casa da mãe, remodelou-a, e espera que fique pronta depressa. Também não é muito de aparecer para ver a família, mas está bastante presente quando é necessário. Vive em Lisboa, com a esposa Maria, e talvez passe a viver na xxxxx, agora que tem uma segunda casa. ‘Adoptou’ a única filha que tem, agora casada e com duas filhas. “O Zangado” está, na maioria das vezes, com uma expressão amuada, e são raras as fotografias em que o vemos a sorrir. Encontrámos uma, há dias; surpresa geral.
Manuela, “A Lamentadora”, vive na xxxxx, no cimo da vila, perto de x xxxxxxxx. Trabalha como auxiliar numa escola, onde já trabalhou como cozinheira. Mantém uma extensa horta, na serra, com galinhas, vinhas e árvores de fruto, para além da plantação de couves, cebolas e nabos, entre outros. Tem dois filhos e uma neta. Está sempre presente nas reuniões de família, e gosta de fazer o que está correcto. É considerada “A Lamentadora”, porque passa a vida a dizer mal de si própria – tem uma baixa auto-estima – e porque se queixa constantemente de coisas que fez, que não fez, e de dores em todas as partes do corpo, ao mesmo tempo. É capaz de contar a sua vida toda, as suas preocupações, à primeira pessoa que lhe aparecer à frente, e preocupa-se demasiado com a imagem que mostra aos outros, temendo o que pensam dela.
Manuel, “O Emigrante”, viveu durante anos no Canadá, onde criou os seus dois filhos, já mais estrangeiros do que portugueses. O filho manteve-se lá a viver, mas a filha vive agora na Florida, nos EUA. Manuel reformou-se e regressou a Portugal, há uns anos, e vive em Lisboa. Comprou a casa de pedra onde nasceram, junto à casa da mãe. Mandou-a abaixo e construiu uma vivenda com um grande terraço atrás, onde pretende viver com a mulher, quando as obras acabarem. É bem-disposto, sportinguista, e fala português misturando dialectos em inglês ou francês, motivo de troça por parte da família. Em termos familiares, participa bastante, e só falha os compromissos quando há motivos religiosos pelo meio, como aniversários, Natal e Páscoa, não comemorados pela sua religião Jeová.
Joana, “A Mãe-Galinha”, vive também em Lisboa. Tem uma filha, que vive agora em sua casa, e que lhe dá muitos problemas. Joana é cozinheira num dos restaurantes do seu irmão Serafim. Sempre bem-disposta, mesmo quando a vida não lhe sorri, preocupa-se com tudo e com todos, especialmente com a família, justificando o cognome. Está sempre presente para ajudar com a mãe, e passava algum tempo em x xxxxxxxx, quando a casa ainda era de Gulhermina. Parece sempre jovem, na sua personalidade descontraída, e não gosta de conflitos. É super-protectora em relação a tudo o que lhe importa.
Serafim, “O Galã”, é casado e tem dois filhos solteirões. É proprietário de restaurantes e vive em Lisboa. Não é presença assídua em x xxxxxxxx, mas comparece nas celebrações familiares e, no geral, especialmente quando sozinho, é divertido e sorridente. Transmite charme ao conhecer alguém, ou a cumprimentar uma pessoa. Nem sempre mostrou ser agradável, mas encara a família como verdadeira família, e é divertido na presença de irmãos e sobrinhos.
Ivete, “A Cozinheira”, é a pessoa mais pacífica à face da terra, aparentemente. Tem um filho e uma filha casados, um dos quais já lhe deu um neto. Vive em Lisboa, mas visita x xxxxxxxx com frequência. É a filha que melhor trata a sua mãe guilhermina, segundo fontes. Sempre preocupada com o seu estado de saúde, tenta seguir as indicações médicas à risca, embora, como todos os outros irmãos, ceda à pressão e acabe por aldrabar um pouco a alimentação da mãe. É cozinheira e sócia de um restaurante em Lisboa, e o seu excesso de trabalho não agrada à maior parte dos familiares. Mesmo fora do horário de trabalho, cozinha para a família e dá grandes jantares e festas. Por vezes, consegue ser bastante astuta, mas no geral aparenta ser singela, e é querida com filhos e sobrinhos. Não gosta de divergências, e para ela todos devem estar bem uns com os outros, sem discussões.

Em termos de casamentos, há quem tenha tido sorte, e há quem tenha tido muito azar. Comecemos pelos bons maridos, e depois analisamos as mulheres manhosas.

Arnaldo, “O Santo”, é o marido de Manuela. Taxista de profissão, é calmo e optimista. Aceita todas as situações com um sorriso nos lábios, desde que não venham alterar a sua rotina habitual. É uma pessoa muito confortável, ou seja, gosta de manter os seus costumes. Gosta de ir regar a sua horta na serra, de criar as galinhas, e não faz mal a uma mosca. Tem uma paciência de santo, aturando todas as desavenças da sua esposa e os seus lamentos e queixas.
Serafim, “O Benfiquista”, é o marido de Ivete. Também ele é um santo, no sentido em que mantém a boa disposição apesar de todas discrepâncias da família. Benfiquista ferrenho, adora o seu periquito de cerca de catorze anos, o ‘Pinto’, homenagem a João Pinto, e é um avô babado do seu neto Daniel e do seu outro neto, o cão Altis. Até é benfiquista na forma de encarar a vida: apesar de todas as derrotas, e de todas as tragédias, é optimista e muito boa pessoa, verdadeiro e simpático. Reformado, cuida de Guilhermina quando ela está lá em casa.
Emílio, “O Despassarado”, é o marido de Joana. Não podemos dizer que teve sorte, mas não teve totalmente azar. Emílio é polícia, ou ex-polícia, seja o que for. Tem uma casa na Serra de x xxxxxxxx, ainda não acabada, e passa lá bastante tempo, mas não se dá intimamente com os cunhados, por isso não aparece muito. Quando se vê, na maior parte das vezes, está avermelhado nas faces, mais para lá do que para cá – significa que já bebeu bastante. É simpático, anda sempre na lua, e está sempre a rir-se de tudo o que acontece à sua volta.
Luísa, “A Jeová”, é a mulher de Manuel. É graças a ela que ele não é católico fervoroso como a mãe, e se tornou Jeová. Luísa está reformada, e é uma pessoa bastante importuna. Ligada às suas crenças religiosas por laços grossos e inquebráveis, passa a vida a falar das concentrações que acontecem pelo país, por vezes na sua casa, e a desrespeitar os cunhados. Manuela já não a pode ouvir, não por desrespeito religioso, mas apenas porque ela insiste em bater na mesma tecla, quando o assunto não interessa minimamente. Quando está acompanhado pela esposa, Manuel deixa de ser a pessoa divertida que é na realidade.
Olga, “A Hipocondríaca”, é a esposa de Serafim. Ninguém na família gosta muito dela, por ser enfadonha e por alterar totalmente a personalidade do marido quando está com ele, mas também ninguém consegue arranjar muitos motivos para a odiar, porque aparenta sempre ser simpática. Preocupa-se intensamente com a sogra Guilhermina, especialmente quando ela está à sua guarda, e não poupa críticas às cunhadas quando elas se desleixam nos seus cuidados. É mesquinha e super hipocondríaca, no que toca a si própria e aos outros. Não se separa dos filhos por nada deste mundo; vive perto deles, está sempre com eles. Bem tenta parecer simpática, mas todos vêm que há ali alguma falsidade, por detrás do disfarce.

A família de que falamos não é a família mais simples que existe. Pelo contrário, tem personagens totalmente complexas, difíceis de interpretar. É uma família típica, mas tem as suas características próprias. Há diversas coisas que devemos saber sobre esta família:

- Não existe forma de baixar o volume das vozes, seja num jantar ou numa conversa no terraço. Os irmãos, todos eles, falam alto, uns com os outros, com a mãe, com os sobrinhos… ainda que não seja necessário, porque ninguém tem problemas auditivos. A voz das mulheres é, obviamente, um pouco mais irritante.
- Aos domingos de manhãzinha, entre as oito e as nove horas, Manuela recebe um telefonema de Ivete, que dura cerca de duas horas, no qual as duas irmãs trocam novidades e detalhes de assuntos familiares, uma vez mais em voz muito alta.
- A velocidade a que uma notícia corre todos os seus membros é impressionante. Basta um irmão ter conhecimento de um qualquer assunto, no momento a seguir começa a espalhar a novidade, e ela chega rapidamente a todos. Funciona também como o ‘telefone estragado’. Quando parte da fonte, é viável; quando chega ao seu último destino, já foi tão distorcida que a realidade se perdeu.
- Ivete e Joana são as irmãs com mais semelhanças, de entre todos os sete. Ambas cozinheiras, nas festas de família são elas que se unem para fazer as sobremesas – com óptimo aspecto –, o cabrito ou leitão, as batatas fritas ou o arroz. Escusado será dizer que a comida é feita, sempre, a contar com mais convidados do que os presentes, e sobra sempre para se comer nos dias seguintes.
- É comum dizer-se mal das pessoas nas suas costas. Acontece com todos, sem excepção. Há sempre alguém na família que não gosta de outro alguém, e os desagrados são partilhados nas costas do alvo das críticas. Esta descrição da família é um exemplo disso mesmo. Ninguém escapa.

As divergências, os segredos e as trocas de novidades, principalmente entre irmãos, originaram histórias que valem a pena contar e perdurar ao longo dos anos.

· Quando Vitorino, filho de Manuela, esteve doente, há uns anos, com uma espécie de intoxicação alimentar, nem sequer esteve internado, apenas tomou comprimidos e recuperou uns dias depois. A notícia que, espalhada pela corrente, chegou à última pessoa, foi que ele tinha estado muito doente, praticamente à beira da morte, deitado numa cama, incapacitado, muito mal. Os telefonemas choveram, de familiares, preocupados com o seu estado de saúde. É por estas e por outras que não se pode confiar em notícias em segunda mão, especialmente nesta família.
· Certo dia, Emílio apareceu na xxxxx e foi jantar com a cunhada Manuela, o marido Arnaldo, o filho, a esposa e a filha. Tudo corria bem – percebeu-se que já tinha bebido uns copos –, até, a meio do jantar Emílio desabafar que tinha batido com o carro num poste. Ficaram todos a olhar para ele, não compreendendo o timing da revelação. Emílio explicou que não tinha tido culpa, que a curva era muito acentuada e que não conseguira desviar-se. Mais tarde, observando o local onde Emídio batera, a família de Manuela apercebeu-se de que ele só podia estar bêbedo quando bateu – seria impossível, ou praticamente improvável, embater daquela forma se estivesse sóbrio.
· À porta do Hospital, em Lisboa, a família de Manuela encontrou-se com Olga, esposa de Serafim. Esta criticou a falta de cuidados que a cunhada tinha tido com a sua sogra, e culpabilizou-a de ter posto a mãe no hospital. Manuela não gostou das críticas, e teria ripostado, não fosse a família ter atenuado a discussão e entrado no hospital para visitar a avó.
· Joana despediu-se do cargo de cozinheira que ocupava no restaurante de Serafim, por razões desconhecidas. A notícia que se espalhou foi que ele não a queria mais a trabalhar para ele, deixando-a desempregada. Ninguém sabe se foi mesmo assim que tudo aconteceu. O que é certo é que Joana se queixou aos restantes irmãos, e a imagem de Serafim ficou degradada. No entanto, meses depois, surgiu a notícia de que Joana arranjara um novo trabalho. Num outro restaurante de Serafim, à guarda do seu filho mais velho.
· A mãe de Luísa faleceu, e Ivete achou que alguém do seu lado da família deveria comparecer no velório. Pediu então a Manuela para o fazer. Manuela não podia ir, por isso pediu a Vitorino, que só a tinha visto uma ou duas vezes, para substituir a mãe. O pedido causou um pouco de espanto por toda a família, visto que não tinha cabimento.
· Ivete parece a pessoa mais inocente do mundo, mas tem os seus dotes de enganadora. Também gosta de deixar uma imagem positiva aos outros. Diz-se que, quando quer, consegue ser persuasiva e conseguir o que quer. Até agora, não há razões para suspeitar dela.
· Num magusto, há uns anos, ocorrido em Pias, as castanhas não foram apenas utilizadas para comer, mas também para mascarrar os presentes. O principal alvo foi Serafim, marido de Ivete, que acabou o serão com o rosto totalmente coberto de preto, e com o casaco de pele todo sujo. Quem começou a brincadeira foram os sobrinhos, também eles bastante mascarrados.
· Há meses atrás, ocorreu entre os irmãos a ideia de vender a casa da mãe. Guilhermina já não estava em condições de viver sozinha, muito menos naquela casa, sem condições. Decidiram então, em vez de pagar a uma pessoa para lá viver com ela, partilhar a sua guarda: um mês em casa de Ivete, outro em casa de Manuel, etc. Assim sendo, e mesmo antes da mãe falecer, reuniram-se para ver quem ficava com a casa. Segundo contam, Manuel ofereceu um determinado valor, e ninguém mais se chegou à frente. Em silêncio, todos pensaram ser inferior ao que o terreno merecia. Manuela, num acto de coragem, levou o dinheiro e ofereceu mais do dobro do que Manuel tinha dado pela casa. Luísa não gostou da atitude, especialmente porque ela tinha o dinheiro na mão. Manuela recebeu, dias depois, uma proposta de Hélio, superior à sua, que aceitou sem demoras. O seu objectivo não era ficar com a casa, mas sim valorizá-la. E conseguiu. Ficou a ganhar com isso, e ficaram todos, porque receberam a comissão que lhes era devida.
· Muitos dos filhos de Guilhermina não ficaram contentes com a decisão de distribuir os bens da mãe, porque ela ainda está viva. Muitos reclamam, ainda hoje, não receberem o dinheiro da pensão da mãe para pagar os custos dela na sua estadia nas suas casas.
Há milhares de histórias como estas que se poderiam contar. Nem todas são más – mas essas são as que mais ficam na memória.

Debaixo do céu de x xxxxxxxx, entre as casas dos filhos, os pomares e as hortas, Guilhermina repousa ainda na cadeira velha, talvez a única coisa que resta do seu passado. Ouve-se a Igreja tocar as cinco horas da tarde, o que faz a velhota sorrir. X xxxxxxxx é e será sempre a sua casa. Esteja onde estiver, será sempre ali que se sentirá bem.

Apesar de todas as discrepâncias, de todos os segredos, de todos os gostos e desgostos, família é família, sangue do mesmo sangue. Todos estão ligados pelo laço genético, pela mãe Guilhermina, pela terra que os viu nascer e crescer. Têm mais em comum do que pensam e aparentam. Apesar de tudo, em casos extremos, sabem que podem contar uns com os outros, sempre. Família é isso mesmo. E nisso, esta a família não é excepção.

NOTA: Devido à característica verídica desta família e das histórias que a compõem, os nomes verdadeiros foram substituídos por outros, de modo a preservar as identidades dos referidos e evitar conflitos, especialmente este último caso.

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

Vampiros

Falava com um amigo sobre o dia de hoje, 08/08/2008.
Filipe diz:
quando for 8008 eu digo que é especial :P
Raquel diz:
claro, chegas lá e tudo=fhd
Filipe diz:
pq duvidas? :P
Raquel diz:
és vampiro?:-O
Filipe diz:
pq não .. tenho cabelo escuro , pele muito branca
Filipe diz:
olhos verdes
Filipe diz:
posso ser
Raquel diz:
e os dentinhos afiados?
Filipe diz:
esses só na altura das mordidelas
Raquel diz:
ahahah
Raquel diz:
está certo
Raquel diz:
vou manter-me longe:D
Filipe diz:
acho que estás segura ,, é difícil morder pela net :P
Raquel diz:
sim, virtualmente não deve ser fácil, a não ser que saias disparado do ecrã do portátil, o que é pouco provável
Filipe diz:
tenta escrever uma história sobre isso :P

Raquel diz:
estás a gozar... estou mesmo a escrever a história :D
Filipe diz:
ahhahah imagino o que vai sair daí


E pronto. Aqui está o que saiu daqui:

O diálogo virtual estava a ser agradável. Falava com Filipe através da Internet, sobre acontecimentos do quotidiano. A certa altura, a conversa levou-os até àquele dia.

Ela: «Hoje é dia oito do mês oito de dois mil e oito».
.
Filipe: «Quando chegar o ano oito mil e oito eu digo que é especial»

Ficou pensativa, e escreveu, troçando:

Ela: «Por acaso és vampiro?»

De repente, a imagem dele veio-lhe ao pensamento. Cabelo escuro, olhos verdes, pele muito branca…

Filipe: «Porque não?»

Sentiu-se assustada. Seria mesmo? Interpretou aquilo como uma brincadeira dele. A sua aparência não significava nada. Para além disso, os vampiros são mitos; não existem realmente. Decidiu entrar no jogo.

Ela: «Vou manter-me longe, então… É pouco provável que me consigas morder através da Internet…»

Ele não respondeu, deixando-a intrigada. Algum tempo depois, dava um salto em frente ao computador portátil. Ocupando o ecrã, aliás, saindo literalmente do ecrã minúsculo… Filipe mostrava um daqueles seus sorrisos brilhantes. Desta vez, porém, os dentes caninos encontravam-se saídos e afiados…
Tremeu, da cabeça aos pés. As suas mais remotas profecias tinham-se concretizado.

- Está na hora do lanche… – disse Filipe, com a cabeça de fora do computador. Soltou uma gargalhada, fixando o olhar assustado da rapariga, que tinha largado o aparelho em cima da secretária, e tentava afastar-se da cadeira onde tinha estado sentada minutos antes.

- Vais mesmo… ah… morder-me?

Ela deixava correr as lágrimas que lhe caíam dos olhos, como a água que segue a corrente do rio.

- Pensava que éramos amigos… – lamentou ela, tentando apelar à amizade dele.

- Amigos, amigos… negócios à parte. – respondeu Filipe, saindo cada vez mais de dentro do computador.

Desatou a correr dali para fora. Saiu do escritório e fechou a porta à chave. Continuava a chorar compulsivamente, não querendo aceitar o que lhe estava a acontecer. Refugiou-se no quarto, fechando uma vez mais a porta à chave. Estava exaltada, e não sabia o que fazer. Não conhecia assim tão bem o mundo dos vampiros, e ignorava se conseguiam atravessar paredes. Tentou acalmar-se, mas sem sucesso. Ouviu um barulho do outro lado da porta, e estremeceu.

Acordou exaltada, com a mesma sensação que tinha antes… no pesadelo. «Que alívio!», pensou, esboçando um leve sorriso. Tinha estado a sonhar, mas nem por isso se sentia menos assustada. Ainda tremia constantemente, e o suor escoria-lhe pelo rosto, tal como as lágrimas.

Mais tarde no mesmo dia, ligou o computador e a Internet, sentada no escritório. Já se sentia mais calma, e o pesadelo estava já diluído no seu pensamento. De repente, uma mensagem apareceu-lhe no ecrã:

Filipe: «Dormiste bem?»

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Vejo o mundo a preto e branco

Vejo o mundo a preto e branco. Por vezes, não é preciso ter cor para se ver a cor. Ela está lá, implícita. Os tons escuros, mesclados com os tons claros, o preto e o branco, as sombras a dançarem, dia ou noite. A cor, quando presente, estraga a paisagem, a nossa visão das coisas. O branco das nuvens a rasgar o azul do céu… o laranja a cobrir o amarelo, ao pôr-do-sol. Não basta saber que as nuvens são mais claras do que o céu e que, ao final do dia, a claridade desvanece-se tão clandestinamente quanto apareceu? As estrelas continuam a brilhar, com ou sem cor, lá no alto, e adornam o céu de pequenos pontos esbranquiçados. A lua completa a paisagem, na sua forma arredondada, celeste. Não precisamos de lentes coloridas para pigmentarem a paisagem. Talvez isto seja o universo a falar, através da minha voz. O que é certo é que o mundo é a preto e branco, e sempre será, para aqueles que escolherem vê-lo a descoberto.

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

lixo

À porta do edifício, Júlia pousou o seu saco do lixo verde para pegar no telemóvel e atender a chamada que recebia. Florival parou também na entrada, pousando o seu saco do lixo azul de modo a conseguir ver o correio. Júlia, entretida com o telefonema, pegou no saco do lixo e saiu do edifício, não reparando que levava um saco que não era o seu. Florival virou-se para pegar no seu saco do lixo azul, mas esse já não lá estava. Perto, só outro saco, verde, provavelmente da vizinha que acabara de sair. Levou-o para a rua, mas não resistiu à tentação e teve de o abrir. Depois de vasculhar o que continha, levou-o até ao recipiente público do lixo e encontrou-a lá, a despejar o seu saco azul do lixo.
- Penso que trocámos os sacos de lixo.
- A sério? Desculpe, nem dei por isso. Peguei no primeiro que vi.
- Não faz mal.
- Já despejei o seu lixo.
- Óptimo, eu despejo o seu. Perdoe-me a intromissão, mas quando é o casamento?
- Como… como é que você sabe?
- Ah… O seu saco do lixo abriu-se… e eu, sem querer, vi o que continha: os convites, os preparativos…
- Bem, não tenho nada a esconder. É amanhã.
- Parabéns. E está pronta?
- Porque pergunta? Tive muito tempo para me preparar…
- É que… as pastilhas elásticas e os pacotes de chocolate sugerem o contrário…
- Você andou mesmo a dissecar o meu lixo…?!
- Juro que foi sem intenção... Mas diga-me, está preparada?
- Não sei. Estava, até hoje. É que… sabe… eu sou Jornalista, e queria viajar pelo mundo fora, perseguindo histórias e investigando-as. E o facto de me casar vai impedir um pouco isso, mais ainda do que uma relação já impede.
- Mas vai casar com o seu melhor amigo de sempre, não é? Haverá algo melhor do que isso, do que sentir isso por alguém, especialmente por ele?
- O meu lixo diz assim tanto da minha vida? O que é que andou a coscuvilhar mais, para saber tudo isso?
- Vi umas folhas rasgadas, no seu lixo…
- Bem… Sim, você tem razão. Vou ser a pessoa mais feliz do mundo, e não tenho nada que me queixar.
- Assim é que se fala.
- Nem sei porque lhe estou a contar tudo isto. Normalmente, a minha função é estar desse lado, a ouvir os desabafos das outras pessoas. Devo ter uma etiqueta a dizer ‘aceitam-se confissões’. Porque é que estou a desabafar consigo, na véspera do meu casamento?
- Porque eu vi o seu lixo.
- Claro, já estava esquecida. E o que viu mais?
- Jornais e revistas, edições antigas. Vejo que gosta de ler.
- Evidentemente, sou Jornalista.
- Muito prazer em conhecê-la, eu sou Advogado.
- Pensei que já tínhamos ultrapassado a fase das apresentações, visto que sabe a minha vida toda. E diga-me: fuma?
- Como sabe, se não viu o meu lixo? Ah, o cigarro que tenho na mão. Sim, é verdade. Alivia o stress.
- Talvez precise de um, não acha?
- Por causa do casamento? Não, nada mesmo. O que você precisa é de mais chocolate e de uma boa noite de sono.
- Espero que sim.
- E lembre-se… o Gonçalo é muito boa pessoa. Pelo menos parece: enfermeiro, de boas famílias, o seu melhor amigo…
- Mas…? Esqueça, já nem lhe pergunto como sabe isso tudo. Nem lhe pergunto mais nada, vizinho.
- Posso perguntar eu? Já que está numa de confissões?
- Força, mas de certeza que já sabe a resposta.
- Como se chama?
- Não descobriu isso no meu lixo?
- Não tive tempo.
- Então ficamos assim, também não sei o seu nome.
- Como queira. Tem o direito, visto que eu é que vi o seu lixo.
- Bem, tenho de ir. Já despejei o lixo.
- Eu também. Mas lembre-se, vizinha. Amanhã, case-se. E mande-me um postal da lua-de-mel em Itália. 2º direito.