segunda-feira, 14 de julho de 2008

Sinais de esperança

Por vezes, não importa se cada dia tem vinte e quatro horas, se cada hora tem sessenta minutos, se cada minuto tem sessenta segundos. O tempo é relativo. Se estivermos a passar um bom bocado, entretidos, pode voar por cima de nós, sem darmos por ele. Se estivermos nervosos, ou a tentar matar o tempo, ele pode levar dias a passar. Se tivermos esperança, por vezes, o tempo pode até parar.
Para Pedro, as cerca de duas horas e meia de viagem de avião, de Londres a Lisboa, passavam a correr. Era a força do hábito. O emprego em Inglaterra privava-o da vida que conhecera, no seu país de origem, mas permitia-lhe umas quantas viagens por mês a Portugal, para visitar a família. Viajava com alguma frequência, suficiente para estar habituado à confusão do aeroporto de Gatwick, à rotina de retirar sapatos, cintos e moedas dos bolsos, preencher papéis, fazer check in e check out, subir e descer escadas rolantes. Desta vez, regressava a Lisboa para passar a época natalícia, oito dias antes da véspera de Natal.
Depois de ultrapassar todas as etapas anteriores ao embarque, Pedro entrou finalmente no avião que o levaria até casa.
- Voo 0073 da Air Luxor para Lisboa, às treze horas e trinta e cinco minutos, embarque a partir das doze horas e cinquenta, no terminal sul, porta 15. – ouviu ainda ecoar nas paredes do aeroporto.
Seguiu através do corredor central do avião, com a pasta na mão, procurando o lugar que lhe pertencia. Avistou o banco 20 D à distância, enquanto passava pelos últimos assentos da classe executiva. Olhava o chão, não tomando atenção ao que se passava à sua volta. Estava concentrado na ideia de chegar a Lisboa, voltar a ver os pais e os irmãos, a sua casa de infância, trocar prendas e passar uns dias de férias. Os seus pensamentos foram interrompidos quando alguém que vinha na direcção contrária lhe travou a passagem, chocando com ele e caindo ao chão.
Pedro regressou à realidade. A mulher, nos seus trinta anos, estava estendida no tapete azul do avião, um pouco tonta com a queda que sofrera. Agarrava-se ao braço direito, que tinha sido o maior prejudicado pela colisão. Pedro baixou-se para a ver melhor.
- Está bem? – perguntou em inglês, ajudando-a a levantar-se do chão. – Peço imensa desculpa… Não a vi à minha frente.
A mulher assentiu com a cabeça, já de pé, ajeitando a camisa branca e a saia escura que levava vestidas.
- Estou bem, obrigada. Não se preocupe. – sorriu ela, ocupando o lugar 21 A, junto à janela, na fila de trás e no lado contrário ao banco que estava destinado a Pedro.
Ao sentar-se, reparou no que não tinha reparado antes. A mulher era de uma beleza extraordinária. Tinha os cabelos castanhos, num tom escuro, os olhos esverdeados e os lábios finos. Não usava muita maquilhagem, e o seu olhar transmitia uma espécie de esperança. Pedro virava o pescoço para trás, para a poder observar. Ela parecia não dar por isso. Levantou-se uma vez mais, como quem não quer a coisa, de modo a olhar para o seu lugar. Do alto do seu fato, preto, de algodão, recebeu o enorme sorriso que ela lhe enviou, e sorriu também, tentando não transparecer o nervosismo que sentia. Sentiu-se corar, mas arranjou coragem para a olhar uma vez mais, cruzando o seu olhar com o dela. Sentou-se, de seguida, no assento, apertando o cinto e preparando-se para levantar voo.
De repente, tudo o que tinha pensado antes, desapareceu. Não lhe vinha à memória o facto de estar a viajar para Lisboa, de estar de férias, de ir ver a família. Só aquela misteriosa mulher lhe ocupava a mente, e o fazia sorrir que nem um tolo para o adolescente com os auriculares nos ouvidos que se sentara a seu lado, ou para as assistentes de bordo que passavam por si.
Aquelas duas horas e meia de viagem foram as mais longas que alguma vez viveu. Todas as outras viagens que fizera, durante o primeiro ano de trabalhador no estrangeiro, foram esquecidas e substituídas por aquela, como se nunca tivessem existido. Nada se comparava à agitação que sentia. De vez em quando, revirava-se no banco e olhava para trás, observando-a a olhar pela janela do avião, a ler um livro cujo título não conseguia avistar, ou a descansar com a cabeça encostada no banco. Ocorreu-lhe que podia levantar-se do seu lugar e ir falar com ela, meter conversa sobre qualquer assunto. Mas faltou-lhe coragem. Depois do momento em que se tinham conhecido, o choque fatal no corredor do avião, ignorava a razão de ela lhe sorrir, sequer. Não conseguia pensar num assunto, ou numa palavra para lhe dirigir. E manteve-se por ali durante todo o voo, trocando apenas olhares comprometedores e sorrisos com aquela mulher.
Cerca das quatro horas da tarde, hora comum tanto ao local de partida como ao local de destino, o avião aterrou no aeroporto de Lisboa. Pedro engoliu em seco, pensando em todas as oportunidades que tinha tido para ir falar com ela, oportunidades essas que não tinha aproveitado. Agora, era tarde demais para lhe pedir um número de telefone, ou até um nome… A mulher levantou-se e apressou-se a pegar nas suas coisas, lançando-lhe um derradeiro olhar promissor. Pedro manteve-se sentado, com a cabeça virada para trás, a olhar uma última vez para a mulher que lhe pusera um sorriso nos lábios e o fizera corar durante toda a viagem.
Observou-a a caminhar pelo corredor, até deixar de a ver por entre a multidão que saía do avião. Subitamente, levou o seu olhar ao banco que ela tinha ocupado, o lugar 21 A, e fixou o assento. A mulher levantara-se e saíra, apressadamente, do avião, deixando para trás o cartão de embarque, meio amarfanhado, caído no banco azul, qual Cinderela que perdeu o sapatinho de cristal. Pedro foi assaltado por uma sensação forte de esperança. Para ele, aquele bilhete de avião era, verdadeiramente, um objecto especial.
Pegou rapidamente na sua pasta de mão, desapertou o cinto e caminhou até à fila de trás, sentando-se no assento B. Segurou delicadamente o cartão de embarque na mão, virou-o para cima e leu o que tinha escrito. Bandeira / Cláudia. Cláudia Bandeira era o nome daquela mulher, portuguesa. Um sorriso ainda maior do que todos os outros começou a desabrochar no rosto de Pedro. Guardou o bilhete no bolso da camisa, com cuidado, e saiu do avião com uma nova esperança entre as mãos. A partir daquele momento, era outro homem. Não ia mais desistir, não ia mais recear. O vento invernal de Lisboa, enquanto descia as escadas para o autocarro do aeroporto, trouxe-lhe a mensagem que pretendia ouvir, o consentimento do seu coração. Ia procurá-la.

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