terça-feira, 8 de julho de 2008

Joaninha... voa!

- Joaninha… voa… voa… – disse em voz alta, contrariando o silêncio.
Joana continuava estendida na relva, de barriga para cima, fixando o azul do céu. Era um lindo dia de Verão, com o calor a apertar e as flores a abrirem as suas pétalas. «Parece magia…», pensou Joana, pegando num malmequer e arrancando-o suavemente do solo. Sem levantar a cabeça do verde das ervas, levou a flor ao seu pequeno nariz e inspirou fundo, sentindo o cheiro do pólen nas suas narinas. Há algo que devemos saber acerca de Joana: ela não é uma rapariga sonhadora. Pelo contrário. Na maior parte das situações, permanecia com os pés bem assentes na terra, atenta a tudo o que a rodeava, focando-se na realidade e na vida que vivia. Não era pessoa para se encostar a uma porta e ouvir a conversa que ocorria do outro lado, por simples curiosidade de viver as vidas das outras pessoas. Acreditava, isso sim, que viver fazia bem à vida.
Rodava o malmequer por entre os dedos, pensativa. Sentiu o vestido branco, sem mangas, que lhe dava até ao joelho, a sujar-se de verde, mas não se importou. Colocou uma mão sob a cabeça, massajando os seus cabelos loiros, compridos, servindo de almofada.
- Mal-me-quer… – começou, arrancando simultaneamente uma das pequenas pétalas brancas da flor. - … bem-me-quer… muito… pouco… nada.
Fez uma pausa. Não era algo que costumasse fazer – arrancar pétalas de uma flor e responder à pergunta que fizera. Mas, naquele dia, as dúvidas eram tantas, e as respostas tão poucas… Que se deixou levar pelo subconsciente.
- Mal-me-quer… bem-me-quer… muito.
Parou, fixando a flor que tinha na mão. Levantou a cabeça do chão, sentando-se sobre a relva esverdeada. Tinha-lhe calhado ‘muito’. Não era algo em que quisesse acreditar mas, inadvertidamente, acreditou. Talvez fosse verdade. Apesar de fraca, era uma possibilidade. Apesar de mágica, talvez fosse real. E isso fê-la sorrir.
Sentiu algo a subir pelo seu dedo indicador. Um insecto, leve, avermelhado, pequeno, com algumas pintas brancas. Era uma joaninha. Não abanou o dedo, apesar de o ter pensado fazer, de modo a deixá-la voar. Gostou de a sentir ali, perto de si. Também ela se chamava Joana, e queria voar dali para fora. Queria, de uma vez por todas, sonhar, ou viver um sonho. Queria, acima e tudo, saber, obter respostas. Queria aproveitar a magia daquele dia de Verão.
- Joaninha… voa… voa… Será que ele gosta de mim? – e a joaninha voou, voou, voou…

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