terça-feira, 15 de julho de 2008

D. Felisbela e o bolo de chocolate

Era uma vez uma cozinheira, de seu nome Felisbela. Trabalhava numa residência sumptuosa, e os seus cozinhados serviam todos os presentes, desde os donos da mansão e os seus dois filhos, aos empregados da casa. Como cozinheira de longa data dos senhores, na residência ouvia-se «D. Felisbela!» para aqui, «D. Felisbela!» para ali. Era sempre ela que livrava os meninos dos castigos, quando um deles se portava mal; e era ela quem cozinhava para todos, todos os dias, a todas as horas.
D. Felisbela era uma senhora muito simpática. Gordinha, baixinha, de olhos esbugalhados, a cair para o velhinha, mas sempre com pinta de jovem, D. Felisbela era a alegria daquela mansão. De entre todos os cozinhados que fazia, o seu predilecto era o bolo de chocolate. Era a sua especialidade. Adorava encher a tigela com farinha, ovos, açúcar, juntar o leite, o chocolate em pó, o fermento… mexer tudo com a colher de pau, misturando os ingredientes, provando o seu sabor doce de vez em quando; vê-lo a cozer no forno… Mas o que mais gostava era de ver os senhores a apreciarem a sua obra de arte.
Certo dia, D. Felisbela levantou-se da cama, meio ensonada, vestiu-se com a roupa do costume, pôs o avental à cintura e foi até à cozinha para começar a trabalhar. Não estava ninguém acordado na mansão. Eram cinco horas da manhã. Tinha de acordar bem cedo para poder fazer o bolo de chocolate sem ninguém ver, usando a receita da sua avó Henriqueta, bem guardada na sua memória, para além de cozinhar todos os outros pratos para o grande jantar daquela noite. Quando a cozinheira descobriu que não tinha chocolate em pó nem em tabletes para fazer o seu famoso e delicioso bolo de chocolate, sentiu-se apoquentada. Tinha a certeza quase absoluta de que, da última vez que o cozinhara, não tinha deitado o pacote do chocolate para o lixo. «Talvez tenham sido os meninos», pensou, sorridente, atribuindo a falta de chocolate à gulosice dos mais novos. Decidiu pedir ao motorista da mansão para a levar ao supermercado, antes que fosse noite, para comprar o que lhe faltava.
- Claro, entre, D. Felisbela. – disse Rodolfo, o motorista, abrindo-lhe gentilmente a porta do carro, brindando-a com um enorme sorriso cintilante.
D. Felisbela sempre gostara de Rodolfo. Conheciam-se há uns bons anos, desde que ele tinha sido contratado pelos senhores, mas pareciam conhecer-se desde sempre. Não havia grande cumplicidade entre ambos, antes um leve nervosismo sempre que trocavam palavras, ou um simples olhar mais sincero. Mas Rodolfo gostava de ser simpático para ela, e ela apreciava a sua simpatia. Para além disso, ele era um rapaz mais novo, ainda não tinha chegado aos cinquenta, e D. Felisbela sentia-se lisonjeada por ter aquele efeito num jovem como Rodolfo.
Rodolfo deixou-a à porta do supermercado, e estacionou perto da entrada.
- Não demoro muito tempo. – avisou a cozinheira, saindo do carro. Sorriu através do vidro do carro.
Já no supermercado, D. Felisbela vasculhou todas as prateleiras onde podia estar o seu ingrediente principal. Nada. Não estava no corredor dos doces; não estava no corredor das bolachas; não estava junto à secção das festas. Como era possível não haver chocolate? Antes de entrar em desespero, sem razão, preferiu certificar-se de que estava correcta, e que não tinha passado pelo chocolate sem o ver. Dirigiu-se a uma funcionária do supermercado. A mulher era alta, magra, carrancuda, e não olhou nos olhos da cozinheira quando esta falou.
- Desculpe… Onde posso encontrar o chocolate em pó? Ou em tabletes?
A mulher olhou-a de cima a baixo, com um pouco de desdém. D. Felisbela pensou que ela devia de odiar, verdadeiramente, o seu emprego.
- Está esgotado. – disse a mulher, antipática. – Volte daqui a um mês.
- Um mês?
D. Felisbela abanou a cabeça, como se não quisesse acreditar.
- Sim. No mês que passou aumentou em 100 % o consumo de chocolate, em todo o mundo – a mulher continuava amuada, sem vontade nenhuma de comunicar com os clientes. – Ainda não houve reposição de stock. Parece que começou tudo a comer chocolate, desalmadamente.
D. Felisbela conseguiu ver um princípio de sorriso no rosto da mulher amarga, mas não ligou muito. A sua preocupação era outra, bastante mais grave, e sem solução à vista. A cozinheira suspirou, agora realmente preocupada e desesperada.
- E agora… Como vou fazer o meu bolo de chocolate… sem chocolate?
D. Felisbela era uma cozinheira afamada internacionalmente, graças ao prestígio social dos senhores da mansão em que trabalhava. A receita secreta do bolo estava fechada a sete chaves no cofre número 208 que tinha num banco suíço, longe dos olhares dos restantes cozinheiros famosos. Nunca tinha andado em escolas de culinária, e a receita do bolo de chocolate tinha-a aprendido em casa, quando era pequena, com a sua avó Henriqueta. Podia guardar a receita apenas na sua memória, mas temia esquecer-se dela, um dia, e como era solteira, receava morrer sem a passar aos seus descendentes. Tinha-a inscrito no seu testamento, também, de modo a fazê-la transitar no tempo, e não a deixar desaparecer na cova.
Nessa época, quando a avó Henriqueta ainda era viva, D. Felisbela lembrava-se que nunca faltava chocolate. Adorava ir às compras, buscar ovos, farinha e açúcar para tentar uma e outra vez a receita da avó Henriqueta. Às vezes, a avó dizia-lhe «Por que não vais buscar uma fatia de bolo?». E a D. Felisbela ia, ansiosa por sentir escorrer na língua o forte sabor a chocolate, com pigmentos adocicados, e a gema do ovo a rebentar-lhe por entre os dentes. Afinal de contas, era graças a essas fatias que comera enquanto criança que, hoje, era redondinha e cheiinha.
Mas D. Felisbela não conseguia esconder a preocupação por não haver chocolate à venda. 100 % de aumento! Crise mundial! Estava inquieta. Os senhores iam dar uma festa, naquela noite, que incluía jantar e um grandioso baile para digerir a comida. Não era uma festa qualquer. O Presidente da República ia lá estar, juntamente com outros senhores importantes, e ia provar os seus cozinhados. Para isso, os senhores da casa tinham pedido expressamente à D. Felisbela para cozinhar o seu ilustre bolo de chocolate, com todos os ingredientes que faziam dele o melhor da Europa, e ela acedera com graciosidade, ansiosa por dar a conhecer aquele maravilhoso sabor ao Presidente da República. Mas não havia chocolate… E a cozinheira não sabia como ia cozinhar sem o seu ingrediente essencial. Não podia regressar a casa, cozinhar o jantar e saltar o bolo de chocolate, inventando qualquer outra receita para sobremesa.
- Não havia? – perguntou Rodolfo, quando a viu entrar no carro com um ar desapontado, de mãos a abanar, tristonha; desesperada.
- E agora? – voltou a interrogar-se, impaciente, sem saber o que pensar. – Se não faço o bolo de chocolate, para além de o jantar ser um fracasso, os senhores e o Presidente da República vão ficar desiludidos comigo! – D. Felisbela começava a deixar cair dos olhos pequenas lágrimas translúcidas, e fungava repetidamente do nariz. – Tenho de fazer aquele bolo!
O motorista pensou durante um tempo, sem pôr o carro a trabalhar. Olhou para a cozinheira, carinhoso. Rodolfo gostava dela, e não se importava que fosse gorducha e baixinha. Era a D. Felisbela, a mulher mais simpática e querida que conhecia, e ela não merecia o que lhe estava a acontecer. Não tinha culpa que não houvesse chocolate em lado nenhum, ainda que os senhores a fossem culpar de não ter precavido a situação. Limpou-lhe as lágrimas dos olhos, sorridente, e pegou-lhe suavemente nas mãos. D. Felisbela sentiu o coração a palpitar ainda com mais força.
- D. Felisbela, eu gosto de si… – Rodolfo sorriu, uma vez mais cintilantemente.
- Eu também gosto de si, Rodolfo… – disse, esquecendo por momentos a crise do chocolate.
Permaneceram uns minutos a fixar o vazio.
- Agora… - recomeçou Rodolfo, olhando para ela - Pego em si e fugimos juntos, para bem longe… Para um lugar onde não temos de nos sujeitar a ninguém… longe da mansão, longe dos senhores…
- Rodolfo… – D. Felisbela apenas conseguiu pronunciar o nome do motorista, tentando disfarçar o espanto e o sorriso que se adivinhava no seu rosto.
- Para um lugar onde há chocolate com fartura, e onde pode fazer todos os bolos de chocolate que quiser! – interrompeu Rodolfo, continuando o seu raciocínio.
D. Felisbela sorriu de orelha a orelha, deixando secar as lágrimas. Abraçou Rodolfo, e pensou na sua avó Henriqueta. Como ficaria orgulhosa de a ver fugir para ser feliz! Imaginava-se numa qualquer ilha grega, no meio do mar, rodeada de bolos de chocolate e com a companhia do seu Rodolfo, ternura de rapaz, como num sonho que tivera durante a noite. A cozinheira Felisbela e o motorista Rodolfo partiram, assim, sem dizer nada a ninguém, deixando os donos da mansão sem motorista, sem cozinheira, sem jantar para oferecerem aos seus convidados e ao Presidente da República, e, notícia ainda mais trágica, sem o famoso bolo de chocolate da D. Felisbela, receita secreta, para saborearem à sobremesa.

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