segunda-feira, 28 de julho de 2008

intervalo da manhã

Intervalo da manhã. «Finalmente!», pensa Florival, descendo as escadas do edifício onde trabalhava. Quando chegou ao rés-do-chão, atravessou o hall de entrada e saiu pela porta da rua. Já fora do prédio, puxou do seu cigarro, pegou no isqueiro e acendeu-o, levando-o à boca de quando em vez.
Juntou-se a ele um homem alto e forte, com um aspecto rezingão. Era o Francisco Rodrigues, da contabilidade da sua firma de advogados. Conheciam-se, pelo menos dos intervalos da manhã que partilhavam a fumar na rua, desde que saíra a proibição de fumar em espaços públicos fechados. Mas o outro nunca o cumprimentava, e permanecia sempre calado. Florival achava-o um tipo estranho, sempre com a mesma rotina. Enquanto fumava cuidadosamente o seu cigarro, ajeitava a gravata, tossia em vez de expirar o fumo, coçava o nariz, olhava para o relógio, controlando as horas… às vezes até dava passos para a frente e para trás. Mas sempre sem dizer uma palavra. Florival acabou por concluir que era calado, tímido, talvez anti-social.
Os seus pensamentos voaram para a beldade que acabara de sair do edifício. Cândida Luz, arquitecta de profissão, baixinha mas com um sorriso arrebatador de corações. Ocupava o intervalo da manhã a beber a sua chávena de café, trocando olhares comprometedores com Florival, e um suave «Bom dia» sempre que o via. Em comparação com Francisco, a visão de Cândida era bem mais agradável. Como romântico incurável, e apreciando a beleza dela, Florival tentava, diariamente, arranjar coragem para meter conversa com ela, mas parecia-lhe sempre impossível. Os seus dotes de comunicador e a simpatia de que o acusavam não pareciam suficientes para o convencerem a ir falar com a jovem.
Voltou o seu olhar para Francisco, que tossia violentamente o fumo do tabaco. Nessa altura, Cândida aproximou-se dele e deu-lhe uma palmadinha nas costas, simpática, e perguntou-lhe se estava bem. A partir daí, inesperadamente, Francisco começou a falar com ela e a conversa fluiu, deixando Florival com um olhar surpreso e envergonhado. Apagou então o cigarro e voltou para dentro, aborrecido, dizendo para si próprio «Estava a ver que o cigarro nunca mais acabava…».

terça-feira, 15 de julho de 2008

D. Felisbela e o bolo de chocolate

Era uma vez uma cozinheira, de seu nome Felisbela. Trabalhava numa residência sumptuosa, e os seus cozinhados serviam todos os presentes, desde os donos da mansão e os seus dois filhos, aos empregados da casa. Como cozinheira de longa data dos senhores, na residência ouvia-se «D. Felisbela!» para aqui, «D. Felisbela!» para ali. Era sempre ela que livrava os meninos dos castigos, quando um deles se portava mal; e era ela quem cozinhava para todos, todos os dias, a todas as horas.
D. Felisbela era uma senhora muito simpática. Gordinha, baixinha, de olhos esbugalhados, a cair para o velhinha, mas sempre com pinta de jovem, D. Felisbela era a alegria daquela mansão. De entre todos os cozinhados que fazia, o seu predilecto era o bolo de chocolate. Era a sua especialidade. Adorava encher a tigela com farinha, ovos, açúcar, juntar o leite, o chocolate em pó, o fermento… mexer tudo com a colher de pau, misturando os ingredientes, provando o seu sabor doce de vez em quando; vê-lo a cozer no forno… Mas o que mais gostava era de ver os senhores a apreciarem a sua obra de arte.
Certo dia, D. Felisbela levantou-se da cama, meio ensonada, vestiu-se com a roupa do costume, pôs o avental à cintura e foi até à cozinha para começar a trabalhar. Não estava ninguém acordado na mansão. Eram cinco horas da manhã. Tinha de acordar bem cedo para poder fazer o bolo de chocolate sem ninguém ver, usando a receita da sua avó Henriqueta, bem guardada na sua memória, para além de cozinhar todos os outros pratos para o grande jantar daquela noite. Quando a cozinheira descobriu que não tinha chocolate em pó nem em tabletes para fazer o seu famoso e delicioso bolo de chocolate, sentiu-se apoquentada. Tinha a certeza quase absoluta de que, da última vez que o cozinhara, não tinha deitado o pacote do chocolate para o lixo. «Talvez tenham sido os meninos», pensou, sorridente, atribuindo a falta de chocolate à gulosice dos mais novos. Decidiu pedir ao motorista da mansão para a levar ao supermercado, antes que fosse noite, para comprar o que lhe faltava.
- Claro, entre, D. Felisbela. – disse Rodolfo, o motorista, abrindo-lhe gentilmente a porta do carro, brindando-a com um enorme sorriso cintilante.
D. Felisbela sempre gostara de Rodolfo. Conheciam-se há uns bons anos, desde que ele tinha sido contratado pelos senhores, mas pareciam conhecer-se desde sempre. Não havia grande cumplicidade entre ambos, antes um leve nervosismo sempre que trocavam palavras, ou um simples olhar mais sincero. Mas Rodolfo gostava de ser simpático para ela, e ela apreciava a sua simpatia. Para além disso, ele era um rapaz mais novo, ainda não tinha chegado aos cinquenta, e D. Felisbela sentia-se lisonjeada por ter aquele efeito num jovem como Rodolfo.
Rodolfo deixou-a à porta do supermercado, e estacionou perto da entrada.
- Não demoro muito tempo. – avisou a cozinheira, saindo do carro. Sorriu através do vidro do carro.
Já no supermercado, D. Felisbela vasculhou todas as prateleiras onde podia estar o seu ingrediente principal. Nada. Não estava no corredor dos doces; não estava no corredor das bolachas; não estava junto à secção das festas. Como era possível não haver chocolate? Antes de entrar em desespero, sem razão, preferiu certificar-se de que estava correcta, e que não tinha passado pelo chocolate sem o ver. Dirigiu-se a uma funcionária do supermercado. A mulher era alta, magra, carrancuda, e não olhou nos olhos da cozinheira quando esta falou.
- Desculpe… Onde posso encontrar o chocolate em pó? Ou em tabletes?
A mulher olhou-a de cima a baixo, com um pouco de desdém. D. Felisbela pensou que ela devia de odiar, verdadeiramente, o seu emprego.
- Está esgotado. – disse a mulher, antipática. – Volte daqui a um mês.
- Um mês?
D. Felisbela abanou a cabeça, como se não quisesse acreditar.
- Sim. No mês que passou aumentou em 100 % o consumo de chocolate, em todo o mundo – a mulher continuava amuada, sem vontade nenhuma de comunicar com os clientes. – Ainda não houve reposição de stock. Parece que começou tudo a comer chocolate, desalmadamente.
D. Felisbela conseguiu ver um princípio de sorriso no rosto da mulher amarga, mas não ligou muito. A sua preocupação era outra, bastante mais grave, e sem solução à vista. A cozinheira suspirou, agora realmente preocupada e desesperada.
- E agora… Como vou fazer o meu bolo de chocolate… sem chocolate?
D. Felisbela era uma cozinheira afamada internacionalmente, graças ao prestígio social dos senhores da mansão em que trabalhava. A receita secreta do bolo estava fechada a sete chaves no cofre número 208 que tinha num banco suíço, longe dos olhares dos restantes cozinheiros famosos. Nunca tinha andado em escolas de culinária, e a receita do bolo de chocolate tinha-a aprendido em casa, quando era pequena, com a sua avó Henriqueta. Podia guardar a receita apenas na sua memória, mas temia esquecer-se dela, um dia, e como era solteira, receava morrer sem a passar aos seus descendentes. Tinha-a inscrito no seu testamento, também, de modo a fazê-la transitar no tempo, e não a deixar desaparecer na cova.
Nessa época, quando a avó Henriqueta ainda era viva, D. Felisbela lembrava-se que nunca faltava chocolate. Adorava ir às compras, buscar ovos, farinha e açúcar para tentar uma e outra vez a receita da avó Henriqueta. Às vezes, a avó dizia-lhe «Por que não vais buscar uma fatia de bolo?». E a D. Felisbela ia, ansiosa por sentir escorrer na língua o forte sabor a chocolate, com pigmentos adocicados, e a gema do ovo a rebentar-lhe por entre os dentes. Afinal de contas, era graças a essas fatias que comera enquanto criança que, hoje, era redondinha e cheiinha.
Mas D. Felisbela não conseguia esconder a preocupação por não haver chocolate à venda. 100 % de aumento! Crise mundial! Estava inquieta. Os senhores iam dar uma festa, naquela noite, que incluía jantar e um grandioso baile para digerir a comida. Não era uma festa qualquer. O Presidente da República ia lá estar, juntamente com outros senhores importantes, e ia provar os seus cozinhados. Para isso, os senhores da casa tinham pedido expressamente à D. Felisbela para cozinhar o seu ilustre bolo de chocolate, com todos os ingredientes que faziam dele o melhor da Europa, e ela acedera com graciosidade, ansiosa por dar a conhecer aquele maravilhoso sabor ao Presidente da República. Mas não havia chocolate… E a cozinheira não sabia como ia cozinhar sem o seu ingrediente essencial. Não podia regressar a casa, cozinhar o jantar e saltar o bolo de chocolate, inventando qualquer outra receita para sobremesa.
- Não havia? – perguntou Rodolfo, quando a viu entrar no carro com um ar desapontado, de mãos a abanar, tristonha; desesperada.
- E agora? – voltou a interrogar-se, impaciente, sem saber o que pensar. – Se não faço o bolo de chocolate, para além de o jantar ser um fracasso, os senhores e o Presidente da República vão ficar desiludidos comigo! – D. Felisbela começava a deixar cair dos olhos pequenas lágrimas translúcidas, e fungava repetidamente do nariz. – Tenho de fazer aquele bolo!
O motorista pensou durante um tempo, sem pôr o carro a trabalhar. Olhou para a cozinheira, carinhoso. Rodolfo gostava dela, e não se importava que fosse gorducha e baixinha. Era a D. Felisbela, a mulher mais simpática e querida que conhecia, e ela não merecia o que lhe estava a acontecer. Não tinha culpa que não houvesse chocolate em lado nenhum, ainda que os senhores a fossem culpar de não ter precavido a situação. Limpou-lhe as lágrimas dos olhos, sorridente, e pegou-lhe suavemente nas mãos. D. Felisbela sentiu o coração a palpitar ainda com mais força.
- D. Felisbela, eu gosto de si… – Rodolfo sorriu, uma vez mais cintilantemente.
- Eu também gosto de si, Rodolfo… – disse, esquecendo por momentos a crise do chocolate.
Permaneceram uns minutos a fixar o vazio.
- Agora… - recomeçou Rodolfo, olhando para ela - Pego em si e fugimos juntos, para bem longe… Para um lugar onde não temos de nos sujeitar a ninguém… longe da mansão, longe dos senhores…
- Rodolfo… – D. Felisbela apenas conseguiu pronunciar o nome do motorista, tentando disfarçar o espanto e o sorriso que se adivinhava no seu rosto.
- Para um lugar onde há chocolate com fartura, e onde pode fazer todos os bolos de chocolate que quiser! – interrompeu Rodolfo, continuando o seu raciocínio.
D. Felisbela sorriu de orelha a orelha, deixando secar as lágrimas. Abraçou Rodolfo, e pensou na sua avó Henriqueta. Como ficaria orgulhosa de a ver fugir para ser feliz! Imaginava-se numa qualquer ilha grega, no meio do mar, rodeada de bolos de chocolate e com a companhia do seu Rodolfo, ternura de rapaz, como num sonho que tivera durante a noite. A cozinheira Felisbela e o motorista Rodolfo partiram, assim, sem dizer nada a ninguém, deixando os donos da mansão sem motorista, sem cozinheira, sem jantar para oferecerem aos seus convidados e ao Presidente da República, e, notícia ainda mais trágica, sem o famoso bolo de chocolate da D. Felisbela, receita secreta, para saborearem à sobremesa.

segunda-feira, 14 de julho de 2008

Sinais de esperança

Por vezes, não importa se cada dia tem vinte e quatro horas, se cada hora tem sessenta minutos, se cada minuto tem sessenta segundos. O tempo é relativo. Se estivermos a passar um bom bocado, entretidos, pode voar por cima de nós, sem darmos por ele. Se estivermos nervosos, ou a tentar matar o tempo, ele pode levar dias a passar. Se tivermos esperança, por vezes, o tempo pode até parar.
Para Pedro, as cerca de duas horas e meia de viagem de avião, de Londres a Lisboa, passavam a correr. Era a força do hábito. O emprego em Inglaterra privava-o da vida que conhecera, no seu país de origem, mas permitia-lhe umas quantas viagens por mês a Portugal, para visitar a família. Viajava com alguma frequência, suficiente para estar habituado à confusão do aeroporto de Gatwick, à rotina de retirar sapatos, cintos e moedas dos bolsos, preencher papéis, fazer check in e check out, subir e descer escadas rolantes. Desta vez, regressava a Lisboa para passar a época natalícia, oito dias antes da véspera de Natal.
Depois de ultrapassar todas as etapas anteriores ao embarque, Pedro entrou finalmente no avião que o levaria até casa.
- Voo 0073 da Air Luxor para Lisboa, às treze horas e trinta e cinco minutos, embarque a partir das doze horas e cinquenta, no terminal sul, porta 15. – ouviu ainda ecoar nas paredes do aeroporto.
Seguiu através do corredor central do avião, com a pasta na mão, procurando o lugar que lhe pertencia. Avistou o banco 20 D à distância, enquanto passava pelos últimos assentos da classe executiva. Olhava o chão, não tomando atenção ao que se passava à sua volta. Estava concentrado na ideia de chegar a Lisboa, voltar a ver os pais e os irmãos, a sua casa de infância, trocar prendas e passar uns dias de férias. Os seus pensamentos foram interrompidos quando alguém que vinha na direcção contrária lhe travou a passagem, chocando com ele e caindo ao chão.
Pedro regressou à realidade. A mulher, nos seus trinta anos, estava estendida no tapete azul do avião, um pouco tonta com a queda que sofrera. Agarrava-se ao braço direito, que tinha sido o maior prejudicado pela colisão. Pedro baixou-se para a ver melhor.
- Está bem? – perguntou em inglês, ajudando-a a levantar-se do chão. – Peço imensa desculpa… Não a vi à minha frente.
A mulher assentiu com a cabeça, já de pé, ajeitando a camisa branca e a saia escura que levava vestidas.
- Estou bem, obrigada. Não se preocupe. – sorriu ela, ocupando o lugar 21 A, junto à janela, na fila de trás e no lado contrário ao banco que estava destinado a Pedro.
Ao sentar-se, reparou no que não tinha reparado antes. A mulher era de uma beleza extraordinária. Tinha os cabelos castanhos, num tom escuro, os olhos esverdeados e os lábios finos. Não usava muita maquilhagem, e o seu olhar transmitia uma espécie de esperança. Pedro virava o pescoço para trás, para a poder observar. Ela parecia não dar por isso. Levantou-se uma vez mais, como quem não quer a coisa, de modo a olhar para o seu lugar. Do alto do seu fato, preto, de algodão, recebeu o enorme sorriso que ela lhe enviou, e sorriu também, tentando não transparecer o nervosismo que sentia. Sentiu-se corar, mas arranjou coragem para a olhar uma vez mais, cruzando o seu olhar com o dela. Sentou-se, de seguida, no assento, apertando o cinto e preparando-se para levantar voo.
De repente, tudo o que tinha pensado antes, desapareceu. Não lhe vinha à memória o facto de estar a viajar para Lisboa, de estar de férias, de ir ver a família. Só aquela misteriosa mulher lhe ocupava a mente, e o fazia sorrir que nem um tolo para o adolescente com os auriculares nos ouvidos que se sentara a seu lado, ou para as assistentes de bordo que passavam por si.
Aquelas duas horas e meia de viagem foram as mais longas que alguma vez viveu. Todas as outras viagens que fizera, durante o primeiro ano de trabalhador no estrangeiro, foram esquecidas e substituídas por aquela, como se nunca tivessem existido. Nada se comparava à agitação que sentia. De vez em quando, revirava-se no banco e olhava para trás, observando-a a olhar pela janela do avião, a ler um livro cujo título não conseguia avistar, ou a descansar com a cabeça encostada no banco. Ocorreu-lhe que podia levantar-se do seu lugar e ir falar com ela, meter conversa sobre qualquer assunto. Mas faltou-lhe coragem. Depois do momento em que se tinham conhecido, o choque fatal no corredor do avião, ignorava a razão de ela lhe sorrir, sequer. Não conseguia pensar num assunto, ou numa palavra para lhe dirigir. E manteve-se por ali durante todo o voo, trocando apenas olhares comprometedores e sorrisos com aquela mulher.
Cerca das quatro horas da tarde, hora comum tanto ao local de partida como ao local de destino, o avião aterrou no aeroporto de Lisboa. Pedro engoliu em seco, pensando em todas as oportunidades que tinha tido para ir falar com ela, oportunidades essas que não tinha aproveitado. Agora, era tarde demais para lhe pedir um número de telefone, ou até um nome… A mulher levantou-se e apressou-se a pegar nas suas coisas, lançando-lhe um derradeiro olhar promissor. Pedro manteve-se sentado, com a cabeça virada para trás, a olhar uma última vez para a mulher que lhe pusera um sorriso nos lábios e o fizera corar durante toda a viagem.
Observou-a a caminhar pelo corredor, até deixar de a ver por entre a multidão que saía do avião. Subitamente, levou o seu olhar ao banco que ela tinha ocupado, o lugar 21 A, e fixou o assento. A mulher levantara-se e saíra, apressadamente, do avião, deixando para trás o cartão de embarque, meio amarfanhado, caído no banco azul, qual Cinderela que perdeu o sapatinho de cristal. Pedro foi assaltado por uma sensação forte de esperança. Para ele, aquele bilhete de avião era, verdadeiramente, um objecto especial.
Pegou rapidamente na sua pasta de mão, desapertou o cinto e caminhou até à fila de trás, sentando-se no assento B. Segurou delicadamente o cartão de embarque na mão, virou-o para cima e leu o que tinha escrito. Bandeira / Cláudia. Cláudia Bandeira era o nome daquela mulher, portuguesa. Um sorriso ainda maior do que todos os outros começou a desabrochar no rosto de Pedro. Guardou o bilhete no bolso da camisa, com cuidado, e saiu do avião com uma nova esperança entre as mãos. A partir daquele momento, era outro homem. Não ia mais desistir, não ia mais recear. O vento invernal de Lisboa, enquanto descia as escadas para o autocarro do aeroporto, trouxe-lhe a mensagem que pretendia ouvir, o consentimento do seu coração. Ia procurá-la.

terça-feira, 8 de julho de 2008

Joaninha... voa!

- Joaninha… voa… voa… – disse em voz alta, contrariando o silêncio.
Joana continuava estendida na relva, de barriga para cima, fixando o azul do céu. Era um lindo dia de Verão, com o calor a apertar e as flores a abrirem as suas pétalas. «Parece magia…», pensou Joana, pegando num malmequer e arrancando-o suavemente do solo. Sem levantar a cabeça do verde das ervas, levou a flor ao seu pequeno nariz e inspirou fundo, sentindo o cheiro do pólen nas suas narinas. Há algo que devemos saber acerca de Joana: ela não é uma rapariga sonhadora. Pelo contrário. Na maior parte das situações, permanecia com os pés bem assentes na terra, atenta a tudo o que a rodeava, focando-se na realidade e na vida que vivia. Não era pessoa para se encostar a uma porta e ouvir a conversa que ocorria do outro lado, por simples curiosidade de viver as vidas das outras pessoas. Acreditava, isso sim, que viver fazia bem à vida.
Rodava o malmequer por entre os dedos, pensativa. Sentiu o vestido branco, sem mangas, que lhe dava até ao joelho, a sujar-se de verde, mas não se importou. Colocou uma mão sob a cabeça, massajando os seus cabelos loiros, compridos, servindo de almofada.
- Mal-me-quer… – começou, arrancando simultaneamente uma das pequenas pétalas brancas da flor. - … bem-me-quer… muito… pouco… nada.
Fez uma pausa. Não era algo que costumasse fazer – arrancar pétalas de uma flor e responder à pergunta que fizera. Mas, naquele dia, as dúvidas eram tantas, e as respostas tão poucas… Que se deixou levar pelo subconsciente.
- Mal-me-quer… bem-me-quer… muito.
Parou, fixando a flor que tinha na mão. Levantou a cabeça do chão, sentando-se sobre a relva esverdeada. Tinha-lhe calhado ‘muito’. Não era algo em que quisesse acreditar mas, inadvertidamente, acreditou. Talvez fosse verdade. Apesar de fraca, era uma possibilidade. Apesar de mágica, talvez fosse real. E isso fê-la sorrir.
Sentiu algo a subir pelo seu dedo indicador. Um insecto, leve, avermelhado, pequeno, com algumas pintas brancas. Era uma joaninha. Não abanou o dedo, apesar de o ter pensado fazer, de modo a deixá-la voar. Gostou de a sentir ali, perto de si. Também ela se chamava Joana, e queria voar dali para fora. Queria, de uma vez por todas, sonhar, ou viver um sonho. Queria, acima e tudo, saber, obter respostas. Queria aproveitar a magia daquele dia de Verão.
- Joaninha… voa… voa… Será que ele gosta de mim? – e a joaninha voou, voou, voou…