terça-feira, 25 de novembro de 2008

História de amor...?

Meteu-se-me na cabeça escrever uma história passada noutra época. Uma história romântica, claro, mas com muito mais do que isso... que mostrasse um rapaz e uma rapariga separados pelo destino, e a trocarem cartas para não esquecerem o seu amor. Tentei começar, mas não tem havido tempo para mais. Aqui fica o início da história, uma carta do personagem principal, Lourenço, para a sua mãe, a contar o encontro que tivera com Cecília, o amor da sua vida, naquele mesmo dia.
1946
Querida mãezinha,

Estou apaixonado. Ela chama-se Cecília, e é a mulher da minha vida.
Mergulhei os meus olhos nos seus, pela primeira vez, na manhã deste dia longo e encantador, e perdi-me no profundo azul que os distingue de todos os outros. A bondade do seu coração conquistou-me, e desde logo senti que ela era especial, que me roubara o coração apenas com o primeiro olhar.
Mãezinha, escrevo-lhe para comunicar os meus mais profundos sentimentos em relação a esta rapariga fantástica que conheci, e para procurar, de certo modo, a sua bênção. Não o faria se não pressentisse algo entre nós, uma ligação forte e evidente, pois passámos este dia maravilhoso juntos, de manhã até à noite, altura em que lhe escrevo esta carta. A minha mão ainda treme da emoção de a ter comigo, e da dor de a ter visto partir para longe, desconhecendo quando a voltarei a ver. Mas que a memória deste dia permaneça viva nos nossos corações, é o mais que posso demandar do mundo cruel em que vivemos.
Estou apaixonado. Não consigo parar de o repetir para dentro… não consigo tirar a imagem dela da cabeça. Provavelmente não conseguirei dormir esta noite, mas não importa. Vou escrever-lhe, mil e uma cartas se necessário for, para expressar o meu amor e manter vivo este sentimento que julgo nunca antes ter experimentado. Apesar de desconhecer o futuro, sinto-me feliz por tudo o que aconteceu hoje, e sou até capaz de sorrir, como observo no espelho do quarto. Cecília. Cecília.
Em breve estaremos juntos, e poder-lhe-ei contar tudo com mais pormenor. Perdoe-me, por favor, a falta de educação, mas a minha mente vagueia ainda por outras paragens. Espero sinceramente que esta carta a encontre de boa saúde. É para mim um consolo enorme sabê-la desse lado, ouvindo as minhas lamentações e alegrias, e esperando pelo meu regresso sentada no alpendre da nossa casa. Fico a aguardar notícias suas.

Com esperança e amor,
Lourenço

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Pequeno Conto de Natal

As luzes coloridas do pinheiro de Natal bruxuleavam pela sala, como pequenos pirilampos acesos à noite. As meias decorativas estavam espalhadas pelos puxadores das portas, guardando pequenos presentes no seu interior. As prendas, de todos os tamanhos e feitios, aguardavam debaixo da árvore a chegada da véspera de Natal. As restantes decorações natalícias cobriam a sala e contrastavam com os enfeites do pinheiro. A música de fundo que se ouvia era “Merry Christmas”, o que conferia ao momento o perfeito ambiente de Natal.
Sentadas no pequeno sofá da sala, aconchegadas, encontravam-se Mariana e Carolina. A primeira, que chegava já com os pequeninos pés ao chão, agarrava carinhosamente o braço da irmã mais nova, sentada com os pés no sofá, de modo a aquecerem-se ambas do forte frio invernal que se fazia sentir, mesmo dentro de casa. Enroladas numa manta comprida, que as cobria até ao pescoço, sorriam ao observar o espírito natalício que se instalara na sala de estar, e trauteavam a música que continuava a soar no ar. Conversavam baixinho, indagando sobre o conteúdo das prendas que já se encontravam debaixo do pinheiro, e tentavam conter o desejo aceso de correr para as abrir antes do tempo.
Uma senhora velhota aproximou-se do sofá, caminhando lentamente pelo chão de madeira envelhecido. Trazia outra manta comprida a cobrir o corpo, e sentou-se junto das raparigas, aconchegando-se no sofá. Olhava atentamente o televisor da sala e, ternamente agarrada ao braço de Mariana, pediu-lhe que olhasse para a televisão. A rapariga obedeceu à avó, e mal se apercebeu do que o seu olhar encontrara no pequeno aparelho, deu um leve puxão no braço de Carolina. A mais pequena olhou também para a televisão, e foi o seu sorriso que mais brilhou naquela noite fria de Inverno.
No centro daquele ambiente natalício, entre enfeites de Natal, um pinheiro iluminado, música de fundo e alguns presentes por abrir, duas crianças e a respectiva avó fixavam o televisor, onde apreciavam um filme de Natal, aquele que viam todos os anos por aquela época, e permaneceram aconchegadas no sofá a viver a sua história, sorrindo de quando em vez umas para as outras, de orelha a orelha; felizes. O frio acabou por desaparecer no calor que se fazia sentir debaixo das mantas, naquela noite calma; os rostos iluminaram-se, como sempre acontecia durante o Natal; e a avó e as duas raparigas acabaram por adormecer no sofá, abraçadas, após o final do filme, ainda com leves sorrisos nos lábios. Todas sonharam com a possibilidade de, na manhã seguinte, abrirem antecipadamente um dos presentes da árvore, e poderem desvendar o seu interior, tal não era o espírito natalício que rodeava a sala. E a neve, que caía lá fora, foi o auge do seu sonho.

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Memories

É tão bom sentirmo-nos queridos…
Por mais que o tempo passe, por mais que a memória se desvaneça, há recordações que nunca se esquecem. Há pessoas que nos marcam profundamente, quase literalmente, como se estivessem inscritas a tinta permanente nos nossos corações. É uma sensação agradável, sabermos que, provavelmente, nunca as vamos esquecer. E sabe ainda melhor saber que elas sentem o mesmo por nós.
«É tão bom voltar a ver-te!»; «Estou tão contente por teres vindo visitar-nos!»; «Volta sempre!»; «Se precisares de alguma coisa…»; «Estás gira!»; «Está tudo a correr bem?». As expressões de preocupação, de curiosidade, de satisfação, de amizade, demonstram bem o poder da nossa presença e a força das recordações. É sempre agradável ouvi-las, e sentir a alegria de marcar alguém que também deixa uma marca em nós.
Já não a via há uns bons anos. Quando transitei para o terceiro ciclo, e ela deixou de ser minha professora, chorei por ter de a deixar, entristeci-me porque a veria muito menos do que naqueles dois anos. Depois de tantas recordações, de uma amizade tão forte e invulgar… Foi difícil mas, como em tudo na vida, o tempo sarou as feridas. Mesmo continuando na escola, raramente nos víamos, e só nos lembrávamos uma da outra em ocasiões especiais. Naquele dia, porém, as recordações elevaram-se por entre os anos, os meses, os dias, as horas, os minutos e os segundos passados desde a última vez. Vê-la foi a melhor coisa que poderia ter acontecido. Conversámos sobre essas recordações, e sobre as nossas vidas. Foi bom. Adorei vê-la, e ela sentiu o mesmo. Não é fantástico?
«Eu penso muitas vezes em vocês», disse-me outra professora do segundo ciclo, antiga directora de turma. Já a outra professora me tinha dito: «A vossa turma marcou-nos. Há turmas que passam e não deixam marca, mas a vossa turma marcou mesmo». A directora de turma veio confirmar esse facto. Relembrei a sala de aula, e os momentos passados no seu interior.
Mas foi no terceiro ciclo que conservei mais amizades. Até mesmo com pessoas que pensava nem sequer se lembrarem de mim. Enganei-me, e estou contente por isso. Uma dessas professoras aconselhou-me sobre o futuro, e admirou a minha capacidade para as línguas. Diz que gostou de me ver, e que devo continuar assim. Espantei-me, mas também gostei de a ver.
O meu director de turma, como sempre, cumprimentou-me com grande alarido. Sempre jovial, simpático e despassarado, não me deu grande atenção, mas a que deu foi mais do que suficiente. Gostei de o ver, mesmo. Tenho saudades do ar aluado dele, da amizade, do sorriso idiota. Bastantes.
Outra professora, uma das melhores e mais queridas que já tive, recebeu-me também com surpresa e agrado. Gostava de poder regressar às aulas dela, mas não posso. Custa saber que tudo acabou; afinal de contas, aquela já não é a minha escola; mas só me apetece regressar lá, ter aulas de manhã à tarde, e poder ver aquelas caras amigas a toda a hora, como dantes. Não valorizamos realmente as coisas boas até as perdermos, e apercebermo-nos de que elas nos fazem mais falta do que tudo o resto.
«Não tenho ido muito ao cinema», confessa-me outro professor, um dos meus favoritos como pessoa. Simpático e brincalhão, sei que gostou de me ver, e eu senti o mesmo. Enquanto aluna e professor, raramente discutíamos a matéria da disciplina. Antes falávamos de tudo e de nada; de cinema, da vida, da escola, das pessoas. Aconteceu o mesmo naquele dia em que o fui visitar. Já tinha saudades, apesar de algumas conversas pela Internet, e foi óptimo poder conversar com ele.
«Olá!», disse-me outra professora, contente por me ver. Marcou-me, também, ao longo dos cinco anos que estive na escola, por ser uma pessoa divertida e sempre pronta a ajudar. Gostei da sala dela, do ambiente. De entre todos os professores que mais me marcaram, é a que tenho visto mais vezes, e com quem mais gosto de falar.
É disto que se trata: das pessoas, e da importância que elas têm na nossa vida, tal como a importância que nós próprios temos na vida delas. É tão bom sentirmo-nos queridos, amados, admirados por pessoas que nos fazem sentir bem, e que nunca esqueceremos. Quero voltar lá, nem que seja para recordar, mas essencialmente para criar novas memórias. Quero voltar para ficar, para conversar, para sentir, para viver. Naquele dia senti-me mais viva, mais feliz. Quando regressei a casa, não queria lavar as mãos, como se isso apagasse, de alguma forma, tudo o que tinha acontecido nessa tarde, e todas as recordações. É fantástico podermos sentir algo semelhante por pessoas com quem convivemos por tão pouco tempo. Mas temos de ter em conta que a nossa vida também não é muito longa e, no panorama geral, elas destacam-se por terem tido um papel fundamental no nosso crescimento enquanto pessoas.
Não quero esquecer. Acima de tudo, penso que é isso que sinto. Apesar da tinta permanente, e da marca profunda que deixaram e continuam a deixar no meu coração, temo que tudo se apague num abrir e fechar de olhos. Mas não acredito que isso aconteça, e tenho esperança de manter a relação que tenho com elas. Todo o tempo que nos separa dissipa-se quando nos voltamos a encontrar; e é fantástica a sensação de carinho que nos une. Adorei aquele dia, e tudo o que se desenrolou à sua volta. Obrigada.

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Em nome da possibilidade

É estranho não sabermos o que queremos da vida, ainda mais quando sabemos que temos de o saber o mais depressa possível, antes que percamos o comboio e deixemos fugir um possível futuro brilhante. Pior será se apanharmos o comboio errado, aquele que nos leva até ao futuro falhado. É por isso que a escolha é tão importante, e demora tanto tempo a ser feita. Tem de ser bem pensada, repensada, e só depois de ser deixada em banho-maria é que poderá ser confirmada. Quem sabe; talvez não o seja nunca. Mas pelo menos, a curto prazo, terá de ser aceite e levada a cabo.
Agora: como escolher? Seremos demasiado jovens para sabermos o que queremos da vida? Mas não dizemos a toda a hora que o sabemos, e que queremos tomar as rédeas da nossa vida? Talvez a escolha não seja o mais importante, mas o facto de ela vir da nossa consciência, e ser uma escolha nossa, interior. Depois, seja ela qual for, terá de ser vivida. E se não for o que prevíamos? Se não tiver nada a ver com o que sonhávamos para nós próprios?
O nosso orgulho inato não nos permite distinguir a ficção da realidade. Acabamos por criar, inadvertidamente, uma outra vida, e perdemos tempo a sonhar com situações que jamais se tornarão realidade. Quando acordarmos para o mundo real, pode ser tarde demais para voltar atrás. Não quero viver na sombra para sempre; não quero perder a minha vida com sonhos irreais. Não quero sonhar, para não ter de contrastar um mundo perfeito com aquele em que nos encontramos. É preferível desconhecê-lo. Descobri-lo parece assustador, de princípio; mas abandoná-lo, depois, consegue sê-lo ainda mais. Ao mesmo tempo, viver uma vida sem sonhos também não parece uma boa opção. Conseguiríamos viver apenas com a realidade nua e crua?
A realidade é esta: nada é perfeito, e temos de lutar pelas coisas para as conseguirmos obter. Temos de tomar partidos, fazer escolhas, magoar, sofrer, errar, e aprender com os erros. Pode não ser à primeira, nem à segunda. E quem diz que à terceira é de vez, muitas vezes, engana-se. Pode não ser à décima segunda, sequer, mas há-de ser. Havemos de conseguir concretizar alguns dos nossos sonhos; havemos de conseguir alcançar algo que se assemelhe à felicidade. É o que nos fazem acreditar, desde que somos crianças ingénuas, e que nunca deixamos de crer, por mais que cresçamos. Pelo menos é a possibilidade que nos faz continuar. Por favor, não nos tirem a possibilidade; é tudo o que temos.
Essa tal possibilidade traz-nos ainda mais indecisões, ainda mais escolhas a fazer, e ainda mais possibilidades dentro de cada aspecto. Se fizermos a escolha errada, podemos perder a escolha correcta para sempre. Ninguém disse que seria fácil, é verdade; mas também ninguém nos preparou para o caso de ser tão difícil. Temos nas nossas mãos a opção correcta, e lutamos por ela, mas isso não significa que não a deixemos fugir por entre os dedos.
Há factores que podem influenciar, ou não, as nossas escolhas. Por exemplo, no outro dia, o meu professor de Filosofia, uma pessoa aberta, correcta, e excessivamente altruísta, chega-se para mim e diz: «Um dia, vais ser uma grande jornalista.». O que nos passa pela cabeça ao ouvir estas palavras? É simples: primeiro que nada, passa um orgulho interior, sob a forma de calor, que avermelha as nossas faces, e a que chamamos “corar”. Uma satisfação causada pelo elogio; incontornável, explícita, inevitável. Mas, mais do que isso, passam sensações de indecisão, de gratificação, de esperança, de possibilidade… O que queremos fazer, na verdade?
Adiamos as decisões, para amanhã, para depois, para daqui a uns anos. Afirmamos que estamos na fase de banho-maria. Dizemos que estamos a decidir, que leva tempo, que a importância da escolha nos faz ponderá-la bem demais. Será? Ou teremos medo de errar? Mas, afinal, não é através dos erros que aprendemos a melhorar? Porque tememos assim tanto aprender?
Os dois comboios aguardam a chegada de mais passageiros. Não faço ideia de quais são os seus destinos, ou em qual devo partir, por isso caminho, à deriva, em direcção ao espaço que os separa. Nesse espaço encontra-se o mundo sonhado: não há decisões a tomar, é só o vento levar o nosso corpo para onde bem lhe apetecer – ele saberá qual é o destino correcto. Mas esse caminho não vai dar a lado nenhum, quando acordar para a realidade, e vir que ambos os comboios já partiram. A vida não é assim tão fácil. Volto a adiar a decisão, nem que seja por uns minutos apenas. Volto a pensar na possibilidade, aquela que nos faz acreditar, por mais inacreditáveis que sejam as aspirações. Um dia… Talvez… Mas nunca se sabe.
É a possibilidade que nos faz continuar, e acreditar que fazemos o que está correcto. Não sei quem sou, quanto mais no que me vou tornar. São as grandes questões da vida, e muito provavelmente é suposto ficarem para sempre sem resposta. Mas então, por que raio procuramos essas respostas ao longo de toda a nossa vida?
Porquê tanta indecisão? Será que isto acaba, alguma vez? Talvez devamos fazer um-dó-li-tá, e deixar uma lengalenga popular decidir o futuro por nós. Há quem diga que o futuro está premeditado, e que nós nada temos a dizer sobre a forma como ele se vai desenrolar; por isso, a lengalenga talvez seja uma boa solução, pelo menos para acalmar os nossos ânimos. De qualquer forma, teremos de tomar a decisão: fazê-lo ou não. É a vida que temos.
O mundo dos sonhos continua, paralelamente ao mundo real. Não escolho o caminho que ele leva. A realidade, apesar de dura, mostra-se muito mais atractiva do que a ficção. Prefiro seguir os meus instintos, sejam eles quais forem, e viver a realidade, a tal que nos faz lutar pelo que queremos. Sem lutar, não conseguimos chegar a lado nenhum. Apanho o comboio que me parece mais acertado, embora, no interior, não tenha definitivamente tomado uma decisão. Mas a possibilidade faz-me continuar e, sobretudo, acreditar. Em nome da felicidade.

domingo, 24 de agosto de 2008

Sangue do mesmo sangue

Numa longínqua província do interior, algures na Beira Baixa, no município e freguesia da xxxxx, distrito de xxxxxxx xxxxxx, existe uma pequena localidade denominada x xxxxxxxx. Coberta de verdes prados, pinheiros bravos, árvores de fruto, oliveiras, eucaliptos, vinhas e hortas, é frequentemente alvo de incêndios no Verão, devido ao intenso calor que se faz sentir, e da ocorrência de neve, por vezes, no pico do Inverno, devido à altitude e às baixas temperaturas. Vulgar aldeia do interior de Portugal, alberga uma pequena igreja pintada a branco, que se consegue observar de praticamente todo o concelho. Ruas pequenas, trilhos estreitos, poucas casas e um escasso aglomerado populacional, caracterizam a localidade. X xxxxxxxx representa o que de mais rural existe no país, com a sua paisagem calcária decorada com casas em pedra que contrastam, mais rara e recentemente, com grandes vivendas modernizadas.

Sentada numa cadeira envelhecida, olhando o vazio, com a bengala encostada à parede, uma senhora idosa repousa sob o céu azul da Serra de x xxxxxxxx. Já viu muito, já viveu muito. Conta noventa anos desde o dia em que nasceu, Guilhermina de Jesus, sob aquele mesmo tecto. Relembra, silenciosamente, os tempos felizes de juventude, a sua vida adulta, ao lado do pai dos seus filhos, a vida no campo e o passar dos anos. Desde 1918, já viveu muito.
Hoje, a paisagem à sua volta não é a mesma que sempre conheceu. A casa que habitara durante anos, foi remodelada por um dos filhos, recentemente; a pequena casa de pedra, mesmo ao lado, onde nasceram os seus filhos, foi destruída por outro filho, e no seu lugar encontra-se já uma nova vivenda. Já não tem uma habitação fixa; a idade não lhe permitia viver sozinha, num local tão remoto, apesar de o conseguir fazer; por isso os filhos decidiram partilhar a sua custódia. Fica durante um determinado tempo na casa de um filho, e depois muda-se para a casa de outro, sendo sempre bem tratada e alimentada de acordo com indicações médicas. Pode dizer-se que o seu aspecto sugere que viva até aos cem anos ou mais.

A história da sua família está marcada por diversas divergências, episódios humorísticos, discussões, segredos, confissões particulares… Por onde começar? No total, Guilhermina tem sete filhos, doze netos e onze bisnetos – uma grande família. Cada filho mais diferente do outro, cada um com um conjunto específico de características especiais, cada um uma personagem, por si só. A única coisa que partilham entre si é o local onde nasceram e, claro, os progenitores.
Manuel, Manuela, Hélio, Joana, Ivete, Zeca e Serafim são os seus nomes.

De todos, o único filho que não abandonou o local de nascimento, a Serra de x xxxxxxxx, foi Zeca, “O Coveiro”. Estranhamente, pouco se sabe sobre ele. Aparece nas festas de família, de vez em quando, acompanhado pela sua esposa Josefina; é coveiro de profissão; é baixo e rechonchudo; mas nunca se vê muito a sua figura a rondar a antiga casa da mãe ou dos restantes irmãos. Vive algures por ali perto, mas ninguém sabe muito bem onde. Os seus dois filhos – filho e filha – só se vêem nos casamentos; sabe-se que tem três netos. Merece o cognome de “O Coveiro” por todas as razões óbvias, e porque o escasso convívio com o resto da família o envolve numa auréola de obscuridade relativamente aos seus irmãos e sobrinhos.
Hélio, “O Zangado”, passa agora bastante tempo na Serra de x xxxxxxxx. Comprou a casa da mãe, remodelou-a, e espera que fique pronta depressa. Também não é muito de aparecer para ver a família, mas está bastante presente quando é necessário. Vive em Lisboa, com a esposa Maria, e talvez passe a viver na xxxxx, agora que tem uma segunda casa. ‘Adoptou’ a única filha que tem, agora casada e com duas filhas. “O Zangado” está, na maioria das vezes, com uma expressão amuada, e são raras as fotografias em que o vemos a sorrir. Encontrámos uma, há dias; surpresa geral.
Manuela, “A Lamentadora”, vive na xxxxx, no cimo da vila, perto de x xxxxxxxx. Trabalha como auxiliar numa escola, onde já trabalhou como cozinheira. Mantém uma extensa horta, na serra, com galinhas, vinhas e árvores de fruto, para além da plantação de couves, cebolas e nabos, entre outros. Tem dois filhos e uma neta. Está sempre presente nas reuniões de família, e gosta de fazer o que está correcto. É considerada “A Lamentadora”, porque passa a vida a dizer mal de si própria – tem uma baixa auto-estima – e porque se queixa constantemente de coisas que fez, que não fez, e de dores em todas as partes do corpo, ao mesmo tempo. É capaz de contar a sua vida toda, as suas preocupações, à primeira pessoa que lhe aparecer à frente, e preocupa-se demasiado com a imagem que mostra aos outros, temendo o que pensam dela.
Manuel, “O Emigrante”, viveu durante anos no Canadá, onde criou os seus dois filhos, já mais estrangeiros do que portugueses. O filho manteve-se lá a viver, mas a filha vive agora na Florida, nos EUA. Manuel reformou-se e regressou a Portugal, há uns anos, e vive em Lisboa. Comprou a casa de pedra onde nasceram, junto à casa da mãe. Mandou-a abaixo e construiu uma vivenda com um grande terraço atrás, onde pretende viver com a mulher, quando as obras acabarem. É bem-disposto, sportinguista, e fala português misturando dialectos em inglês ou francês, motivo de troça por parte da família. Em termos familiares, participa bastante, e só falha os compromissos quando há motivos religiosos pelo meio, como aniversários, Natal e Páscoa, não comemorados pela sua religião Jeová.
Joana, “A Mãe-Galinha”, vive também em Lisboa. Tem uma filha, que vive agora em sua casa, e que lhe dá muitos problemas. Joana é cozinheira num dos restaurantes do seu irmão Serafim. Sempre bem-disposta, mesmo quando a vida não lhe sorri, preocupa-se com tudo e com todos, especialmente com a família, justificando o cognome. Está sempre presente para ajudar com a mãe, e passava algum tempo em x xxxxxxxx, quando a casa ainda era de Gulhermina. Parece sempre jovem, na sua personalidade descontraída, e não gosta de conflitos. É super-protectora em relação a tudo o que lhe importa.
Serafim, “O Galã”, é casado e tem dois filhos solteirões. É proprietário de restaurantes e vive em Lisboa. Não é presença assídua em x xxxxxxxx, mas comparece nas celebrações familiares e, no geral, especialmente quando sozinho, é divertido e sorridente. Transmite charme ao conhecer alguém, ou a cumprimentar uma pessoa. Nem sempre mostrou ser agradável, mas encara a família como verdadeira família, e é divertido na presença de irmãos e sobrinhos.
Ivete, “A Cozinheira”, é a pessoa mais pacífica à face da terra, aparentemente. Tem um filho e uma filha casados, um dos quais já lhe deu um neto. Vive em Lisboa, mas visita x xxxxxxxx com frequência. É a filha que melhor trata a sua mãe guilhermina, segundo fontes. Sempre preocupada com o seu estado de saúde, tenta seguir as indicações médicas à risca, embora, como todos os outros irmãos, ceda à pressão e acabe por aldrabar um pouco a alimentação da mãe. É cozinheira e sócia de um restaurante em Lisboa, e o seu excesso de trabalho não agrada à maior parte dos familiares. Mesmo fora do horário de trabalho, cozinha para a família e dá grandes jantares e festas. Por vezes, consegue ser bastante astuta, mas no geral aparenta ser singela, e é querida com filhos e sobrinhos. Não gosta de divergências, e para ela todos devem estar bem uns com os outros, sem discussões.

Em termos de casamentos, há quem tenha tido sorte, e há quem tenha tido muito azar. Comecemos pelos bons maridos, e depois analisamos as mulheres manhosas.

Arnaldo, “O Santo”, é o marido de Manuela. Taxista de profissão, é calmo e optimista. Aceita todas as situações com um sorriso nos lábios, desde que não venham alterar a sua rotina habitual. É uma pessoa muito confortável, ou seja, gosta de manter os seus costumes. Gosta de ir regar a sua horta na serra, de criar as galinhas, e não faz mal a uma mosca. Tem uma paciência de santo, aturando todas as desavenças da sua esposa e os seus lamentos e queixas.
Serafim, “O Benfiquista”, é o marido de Ivete. Também ele é um santo, no sentido em que mantém a boa disposição apesar de todas discrepâncias da família. Benfiquista ferrenho, adora o seu periquito de cerca de catorze anos, o ‘Pinto’, homenagem a João Pinto, e é um avô babado do seu neto Daniel e do seu outro neto, o cão Altis. Até é benfiquista na forma de encarar a vida: apesar de todas as derrotas, e de todas as tragédias, é optimista e muito boa pessoa, verdadeiro e simpático. Reformado, cuida de Guilhermina quando ela está lá em casa.
Emílio, “O Despassarado”, é o marido de Joana. Não podemos dizer que teve sorte, mas não teve totalmente azar. Emílio é polícia, ou ex-polícia, seja o que for. Tem uma casa na Serra de x xxxxxxxx, ainda não acabada, e passa lá bastante tempo, mas não se dá intimamente com os cunhados, por isso não aparece muito. Quando se vê, na maior parte das vezes, está avermelhado nas faces, mais para lá do que para cá – significa que já bebeu bastante. É simpático, anda sempre na lua, e está sempre a rir-se de tudo o que acontece à sua volta.
Luísa, “A Jeová”, é a mulher de Manuel. É graças a ela que ele não é católico fervoroso como a mãe, e se tornou Jeová. Luísa está reformada, e é uma pessoa bastante importuna. Ligada às suas crenças religiosas por laços grossos e inquebráveis, passa a vida a falar das concentrações que acontecem pelo país, por vezes na sua casa, e a desrespeitar os cunhados. Manuela já não a pode ouvir, não por desrespeito religioso, mas apenas porque ela insiste em bater na mesma tecla, quando o assunto não interessa minimamente. Quando está acompanhado pela esposa, Manuel deixa de ser a pessoa divertida que é na realidade.
Olga, “A Hipocondríaca”, é a esposa de Serafim. Ninguém na família gosta muito dela, por ser enfadonha e por alterar totalmente a personalidade do marido quando está com ele, mas também ninguém consegue arranjar muitos motivos para a odiar, porque aparenta sempre ser simpática. Preocupa-se intensamente com a sogra Guilhermina, especialmente quando ela está à sua guarda, e não poupa críticas às cunhadas quando elas se desleixam nos seus cuidados. É mesquinha e super hipocondríaca, no que toca a si própria e aos outros. Não se separa dos filhos por nada deste mundo; vive perto deles, está sempre com eles. Bem tenta parecer simpática, mas todos vêm que há ali alguma falsidade, por detrás do disfarce.

A família de que falamos não é a família mais simples que existe. Pelo contrário, tem personagens totalmente complexas, difíceis de interpretar. É uma família típica, mas tem as suas características próprias. Há diversas coisas que devemos saber sobre esta família:

- Não existe forma de baixar o volume das vozes, seja num jantar ou numa conversa no terraço. Os irmãos, todos eles, falam alto, uns com os outros, com a mãe, com os sobrinhos… ainda que não seja necessário, porque ninguém tem problemas auditivos. A voz das mulheres é, obviamente, um pouco mais irritante.
- Aos domingos de manhãzinha, entre as oito e as nove horas, Manuela recebe um telefonema de Ivete, que dura cerca de duas horas, no qual as duas irmãs trocam novidades e detalhes de assuntos familiares, uma vez mais em voz muito alta.
- A velocidade a que uma notícia corre todos os seus membros é impressionante. Basta um irmão ter conhecimento de um qualquer assunto, no momento a seguir começa a espalhar a novidade, e ela chega rapidamente a todos. Funciona também como o ‘telefone estragado’. Quando parte da fonte, é viável; quando chega ao seu último destino, já foi tão distorcida que a realidade se perdeu.
- Ivete e Joana são as irmãs com mais semelhanças, de entre todos os sete. Ambas cozinheiras, nas festas de família são elas que se unem para fazer as sobremesas – com óptimo aspecto –, o cabrito ou leitão, as batatas fritas ou o arroz. Escusado será dizer que a comida é feita, sempre, a contar com mais convidados do que os presentes, e sobra sempre para se comer nos dias seguintes.
- É comum dizer-se mal das pessoas nas suas costas. Acontece com todos, sem excepção. Há sempre alguém na família que não gosta de outro alguém, e os desagrados são partilhados nas costas do alvo das críticas. Esta descrição da família é um exemplo disso mesmo. Ninguém escapa.

As divergências, os segredos e as trocas de novidades, principalmente entre irmãos, originaram histórias que valem a pena contar e perdurar ao longo dos anos.

· Quando Vitorino, filho de Manuela, esteve doente, há uns anos, com uma espécie de intoxicação alimentar, nem sequer esteve internado, apenas tomou comprimidos e recuperou uns dias depois. A notícia que, espalhada pela corrente, chegou à última pessoa, foi que ele tinha estado muito doente, praticamente à beira da morte, deitado numa cama, incapacitado, muito mal. Os telefonemas choveram, de familiares, preocupados com o seu estado de saúde. É por estas e por outras que não se pode confiar em notícias em segunda mão, especialmente nesta família.
· Certo dia, Emílio apareceu na xxxxx e foi jantar com a cunhada Manuela, o marido Arnaldo, o filho, a esposa e a filha. Tudo corria bem – percebeu-se que já tinha bebido uns copos –, até, a meio do jantar Emílio desabafar que tinha batido com o carro num poste. Ficaram todos a olhar para ele, não compreendendo o timing da revelação. Emílio explicou que não tinha tido culpa, que a curva era muito acentuada e que não conseguira desviar-se. Mais tarde, observando o local onde Emídio batera, a família de Manuela apercebeu-se de que ele só podia estar bêbedo quando bateu – seria impossível, ou praticamente improvável, embater daquela forma se estivesse sóbrio.
· À porta do Hospital, em Lisboa, a família de Manuela encontrou-se com Olga, esposa de Serafim. Esta criticou a falta de cuidados que a cunhada tinha tido com a sua sogra, e culpabilizou-a de ter posto a mãe no hospital. Manuela não gostou das críticas, e teria ripostado, não fosse a família ter atenuado a discussão e entrado no hospital para visitar a avó.
· Joana despediu-se do cargo de cozinheira que ocupava no restaurante de Serafim, por razões desconhecidas. A notícia que se espalhou foi que ele não a queria mais a trabalhar para ele, deixando-a desempregada. Ninguém sabe se foi mesmo assim que tudo aconteceu. O que é certo é que Joana se queixou aos restantes irmãos, e a imagem de Serafim ficou degradada. No entanto, meses depois, surgiu a notícia de que Joana arranjara um novo trabalho. Num outro restaurante de Serafim, à guarda do seu filho mais velho.
· A mãe de Luísa faleceu, e Ivete achou que alguém do seu lado da família deveria comparecer no velório. Pediu então a Manuela para o fazer. Manuela não podia ir, por isso pediu a Vitorino, que só a tinha visto uma ou duas vezes, para substituir a mãe. O pedido causou um pouco de espanto por toda a família, visto que não tinha cabimento.
· Ivete parece a pessoa mais inocente do mundo, mas tem os seus dotes de enganadora. Também gosta de deixar uma imagem positiva aos outros. Diz-se que, quando quer, consegue ser persuasiva e conseguir o que quer. Até agora, não há razões para suspeitar dela.
· Num magusto, há uns anos, ocorrido em Pias, as castanhas não foram apenas utilizadas para comer, mas também para mascarrar os presentes. O principal alvo foi Serafim, marido de Ivete, que acabou o serão com o rosto totalmente coberto de preto, e com o casaco de pele todo sujo. Quem começou a brincadeira foram os sobrinhos, também eles bastante mascarrados.
· Há meses atrás, ocorreu entre os irmãos a ideia de vender a casa da mãe. Guilhermina já não estava em condições de viver sozinha, muito menos naquela casa, sem condições. Decidiram então, em vez de pagar a uma pessoa para lá viver com ela, partilhar a sua guarda: um mês em casa de Ivete, outro em casa de Manuel, etc. Assim sendo, e mesmo antes da mãe falecer, reuniram-se para ver quem ficava com a casa. Segundo contam, Manuel ofereceu um determinado valor, e ninguém mais se chegou à frente. Em silêncio, todos pensaram ser inferior ao que o terreno merecia. Manuela, num acto de coragem, levou o dinheiro e ofereceu mais do dobro do que Manuel tinha dado pela casa. Luísa não gostou da atitude, especialmente porque ela tinha o dinheiro na mão. Manuela recebeu, dias depois, uma proposta de Hélio, superior à sua, que aceitou sem demoras. O seu objectivo não era ficar com a casa, mas sim valorizá-la. E conseguiu. Ficou a ganhar com isso, e ficaram todos, porque receberam a comissão que lhes era devida.
· Muitos dos filhos de Guilhermina não ficaram contentes com a decisão de distribuir os bens da mãe, porque ela ainda está viva. Muitos reclamam, ainda hoje, não receberem o dinheiro da pensão da mãe para pagar os custos dela na sua estadia nas suas casas.
Há milhares de histórias como estas que se poderiam contar. Nem todas são más – mas essas são as que mais ficam na memória.

Debaixo do céu de x xxxxxxxx, entre as casas dos filhos, os pomares e as hortas, Guilhermina repousa ainda na cadeira velha, talvez a única coisa que resta do seu passado. Ouve-se a Igreja tocar as cinco horas da tarde, o que faz a velhota sorrir. X xxxxxxxx é e será sempre a sua casa. Esteja onde estiver, será sempre ali que se sentirá bem.

Apesar de todas as discrepâncias, de todos os segredos, de todos os gostos e desgostos, família é família, sangue do mesmo sangue. Todos estão ligados pelo laço genético, pela mãe Guilhermina, pela terra que os viu nascer e crescer. Têm mais em comum do que pensam e aparentam. Apesar de tudo, em casos extremos, sabem que podem contar uns com os outros, sempre. Família é isso mesmo. E nisso, esta a família não é excepção.

NOTA: Devido à característica verídica desta família e das histórias que a compõem, os nomes verdadeiros foram substituídos por outros, de modo a preservar as identidades dos referidos e evitar conflitos, especialmente este último caso.

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

Vampiros

Falava com um amigo sobre o dia de hoje, 08/08/2008.
Filipe diz:
quando for 8008 eu digo que é especial :P
Raquel diz:
claro, chegas lá e tudo=fhd
Filipe diz:
pq duvidas? :P
Raquel diz:
és vampiro?:-O
Filipe diz:
pq não .. tenho cabelo escuro , pele muito branca
Filipe diz:
olhos verdes
Filipe diz:
posso ser
Raquel diz:
e os dentinhos afiados?
Filipe diz:
esses só na altura das mordidelas
Raquel diz:
ahahah
Raquel diz:
está certo
Raquel diz:
vou manter-me longe:D
Filipe diz:
acho que estás segura ,, é difícil morder pela net :P
Raquel diz:
sim, virtualmente não deve ser fácil, a não ser que saias disparado do ecrã do portátil, o que é pouco provável
Filipe diz:
tenta escrever uma história sobre isso :P

Raquel diz:
estás a gozar... estou mesmo a escrever a história :D
Filipe diz:
ahhahah imagino o que vai sair daí


E pronto. Aqui está o que saiu daqui:

O diálogo virtual estava a ser agradável. Falava com Filipe através da Internet, sobre acontecimentos do quotidiano. A certa altura, a conversa levou-os até àquele dia.

Ela: «Hoje é dia oito do mês oito de dois mil e oito».
.
Filipe: «Quando chegar o ano oito mil e oito eu digo que é especial»

Ficou pensativa, e escreveu, troçando:

Ela: «Por acaso és vampiro?»

De repente, a imagem dele veio-lhe ao pensamento. Cabelo escuro, olhos verdes, pele muito branca…

Filipe: «Porque não?»

Sentiu-se assustada. Seria mesmo? Interpretou aquilo como uma brincadeira dele. A sua aparência não significava nada. Para além disso, os vampiros são mitos; não existem realmente. Decidiu entrar no jogo.

Ela: «Vou manter-me longe, então… É pouco provável que me consigas morder através da Internet…»

Ele não respondeu, deixando-a intrigada. Algum tempo depois, dava um salto em frente ao computador portátil. Ocupando o ecrã, aliás, saindo literalmente do ecrã minúsculo… Filipe mostrava um daqueles seus sorrisos brilhantes. Desta vez, porém, os dentes caninos encontravam-se saídos e afiados…
Tremeu, da cabeça aos pés. As suas mais remotas profecias tinham-se concretizado.

- Está na hora do lanche… – disse Filipe, com a cabeça de fora do computador. Soltou uma gargalhada, fixando o olhar assustado da rapariga, que tinha largado o aparelho em cima da secretária, e tentava afastar-se da cadeira onde tinha estado sentada minutos antes.

- Vais mesmo… ah… morder-me?

Ela deixava correr as lágrimas que lhe caíam dos olhos, como a água que segue a corrente do rio.

- Pensava que éramos amigos… – lamentou ela, tentando apelar à amizade dele.

- Amigos, amigos… negócios à parte. – respondeu Filipe, saindo cada vez mais de dentro do computador.

Desatou a correr dali para fora. Saiu do escritório e fechou a porta à chave. Continuava a chorar compulsivamente, não querendo aceitar o que lhe estava a acontecer. Refugiou-se no quarto, fechando uma vez mais a porta à chave. Estava exaltada, e não sabia o que fazer. Não conhecia assim tão bem o mundo dos vampiros, e ignorava se conseguiam atravessar paredes. Tentou acalmar-se, mas sem sucesso. Ouviu um barulho do outro lado da porta, e estremeceu.

Acordou exaltada, com a mesma sensação que tinha antes… no pesadelo. «Que alívio!», pensou, esboçando um leve sorriso. Tinha estado a sonhar, mas nem por isso se sentia menos assustada. Ainda tremia constantemente, e o suor escoria-lhe pelo rosto, tal como as lágrimas.

Mais tarde no mesmo dia, ligou o computador e a Internet, sentada no escritório. Já se sentia mais calma, e o pesadelo estava já diluído no seu pensamento. De repente, uma mensagem apareceu-lhe no ecrã:

Filipe: «Dormiste bem?»

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Vejo o mundo a preto e branco

Vejo o mundo a preto e branco. Por vezes, não é preciso ter cor para se ver a cor. Ela está lá, implícita. Os tons escuros, mesclados com os tons claros, o preto e o branco, as sombras a dançarem, dia ou noite. A cor, quando presente, estraga a paisagem, a nossa visão das coisas. O branco das nuvens a rasgar o azul do céu… o laranja a cobrir o amarelo, ao pôr-do-sol. Não basta saber que as nuvens são mais claras do que o céu e que, ao final do dia, a claridade desvanece-se tão clandestinamente quanto apareceu? As estrelas continuam a brilhar, com ou sem cor, lá no alto, e adornam o céu de pequenos pontos esbranquiçados. A lua completa a paisagem, na sua forma arredondada, celeste. Não precisamos de lentes coloridas para pigmentarem a paisagem. Talvez isto seja o universo a falar, através da minha voz. O que é certo é que o mundo é a preto e branco, e sempre será, para aqueles que escolherem vê-lo a descoberto.

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

lixo

À porta do edifício, Júlia pousou o seu saco do lixo verde para pegar no telemóvel e atender a chamada que recebia. Florival parou também na entrada, pousando o seu saco do lixo azul de modo a conseguir ver o correio. Júlia, entretida com o telefonema, pegou no saco do lixo e saiu do edifício, não reparando que levava um saco que não era o seu. Florival virou-se para pegar no seu saco do lixo azul, mas esse já não lá estava. Perto, só outro saco, verde, provavelmente da vizinha que acabara de sair. Levou-o para a rua, mas não resistiu à tentação e teve de o abrir. Depois de vasculhar o que continha, levou-o até ao recipiente público do lixo e encontrou-a lá, a despejar o seu saco azul do lixo.
- Penso que trocámos os sacos de lixo.
- A sério? Desculpe, nem dei por isso. Peguei no primeiro que vi.
- Não faz mal.
- Já despejei o seu lixo.
- Óptimo, eu despejo o seu. Perdoe-me a intromissão, mas quando é o casamento?
- Como… como é que você sabe?
- Ah… O seu saco do lixo abriu-se… e eu, sem querer, vi o que continha: os convites, os preparativos…
- Bem, não tenho nada a esconder. É amanhã.
- Parabéns. E está pronta?
- Porque pergunta? Tive muito tempo para me preparar…
- É que… as pastilhas elásticas e os pacotes de chocolate sugerem o contrário…
- Você andou mesmo a dissecar o meu lixo…?!
- Juro que foi sem intenção... Mas diga-me, está preparada?
- Não sei. Estava, até hoje. É que… sabe… eu sou Jornalista, e queria viajar pelo mundo fora, perseguindo histórias e investigando-as. E o facto de me casar vai impedir um pouco isso, mais ainda do que uma relação já impede.
- Mas vai casar com o seu melhor amigo de sempre, não é? Haverá algo melhor do que isso, do que sentir isso por alguém, especialmente por ele?
- O meu lixo diz assim tanto da minha vida? O que é que andou a coscuvilhar mais, para saber tudo isso?
- Vi umas folhas rasgadas, no seu lixo…
- Bem… Sim, você tem razão. Vou ser a pessoa mais feliz do mundo, e não tenho nada que me queixar.
- Assim é que se fala.
- Nem sei porque lhe estou a contar tudo isto. Normalmente, a minha função é estar desse lado, a ouvir os desabafos das outras pessoas. Devo ter uma etiqueta a dizer ‘aceitam-se confissões’. Porque é que estou a desabafar consigo, na véspera do meu casamento?
- Porque eu vi o seu lixo.
- Claro, já estava esquecida. E o que viu mais?
- Jornais e revistas, edições antigas. Vejo que gosta de ler.
- Evidentemente, sou Jornalista.
- Muito prazer em conhecê-la, eu sou Advogado.
- Pensei que já tínhamos ultrapassado a fase das apresentações, visto que sabe a minha vida toda. E diga-me: fuma?
- Como sabe, se não viu o meu lixo? Ah, o cigarro que tenho na mão. Sim, é verdade. Alivia o stress.
- Talvez precise de um, não acha?
- Por causa do casamento? Não, nada mesmo. O que você precisa é de mais chocolate e de uma boa noite de sono.
- Espero que sim.
- E lembre-se… o Gonçalo é muito boa pessoa. Pelo menos parece: enfermeiro, de boas famílias, o seu melhor amigo…
- Mas…? Esqueça, já nem lhe pergunto como sabe isso tudo. Nem lhe pergunto mais nada, vizinho.
- Posso perguntar eu? Já que está numa de confissões?
- Força, mas de certeza que já sabe a resposta.
- Como se chama?
- Não descobriu isso no meu lixo?
- Não tive tempo.
- Então ficamos assim, também não sei o seu nome.
- Como queira. Tem o direito, visto que eu é que vi o seu lixo.
- Bem, tenho de ir. Já despejei o lixo.
- Eu também. Mas lembre-se, vizinha. Amanhã, case-se. E mande-me um postal da lua-de-mel em Itália. 2º direito.

segunda-feira, 28 de julho de 2008

intervalo da manhã

Intervalo da manhã. «Finalmente!», pensa Florival, descendo as escadas do edifício onde trabalhava. Quando chegou ao rés-do-chão, atravessou o hall de entrada e saiu pela porta da rua. Já fora do prédio, puxou do seu cigarro, pegou no isqueiro e acendeu-o, levando-o à boca de quando em vez.
Juntou-se a ele um homem alto e forte, com um aspecto rezingão. Era o Francisco Rodrigues, da contabilidade da sua firma de advogados. Conheciam-se, pelo menos dos intervalos da manhã que partilhavam a fumar na rua, desde que saíra a proibição de fumar em espaços públicos fechados. Mas o outro nunca o cumprimentava, e permanecia sempre calado. Florival achava-o um tipo estranho, sempre com a mesma rotina. Enquanto fumava cuidadosamente o seu cigarro, ajeitava a gravata, tossia em vez de expirar o fumo, coçava o nariz, olhava para o relógio, controlando as horas… às vezes até dava passos para a frente e para trás. Mas sempre sem dizer uma palavra. Florival acabou por concluir que era calado, tímido, talvez anti-social.
Os seus pensamentos voaram para a beldade que acabara de sair do edifício. Cândida Luz, arquitecta de profissão, baixinha mas com um sorriso arrebatador de corações. Ocupava o intervalo da manhã a beber a sua chávena de café, trocando olhares comprometedores com Florival, e um suave «Bom dia» sempre que o via. Em comparação com Francisco, a visão de Cândida era bem mais agradável. Como romântico incurável, e apreciando a beleza dela, Florival tentava, diariamente, arranjar coragem para meter conversa com ela, mas parecia-lhe sempre impossível. Os seus dotes de comunicador e a simpatia de que o acusavam não pareciam suficientes para o convencerem a ir falar com a jovem.
Voltou o seu olhar para Francisco, que tossia violentamente o fumo do tabaco. Nessa altura, Cândida aproximou-se dele e deu-lhe uma palmadinha nas costas, simpática, e perguntou-lhe se estava bem. A partir daí, inesperadamente, Francisco começou a falar com ela e a conversa fluiu, deixando Florival com um olhar surpreso e envergonhado. Apagou então o cigarro e voltou para dentro, aborrecido, dizendo para si próprio «Estava a ver que o cigarro nunca mais acabava…».

terça-feira, 15 de julho de 2008

D. Felisbela e o bolo de chocolate

Era uma vez uma cozinheira, de seu nome Felisbela. Trabalhava numa residência sumptuosa, e os seus cozinhados serviam todos os presentes, desde os donos da mansão e os seus dois filhos, aos empregados da casa. Como cozinheira de longa data dos senhores, na residência ouvia-se «D. Felisbela!» para aqui, «D. Felisbela!» para ali. Era sempre ela que livrava os meninos dos castigos, quando um deles se portava mal; e era ela quem cozinhava para todos, todos os dias, a todas as horas.
D. Felisbela era uma senhora muito simpática. Gordinha, baixinha, de olhos esbugalhados, a cair para o velhinha, mas sempre com pinta de jovem, D. Felisbela era a alegria daquela mansão. De entre todos os cozinhados que fazia, o seu predilecto era o bolo de chocolate. Era a sua especialidade. Adorava encher a tigela com farinha, ovos, açúcar, juntar o leite, o chocolate em pó, o fermento… mexer tudo com a colher de pau, misturando os ingredientes, provando o seu sabor doce de vez em quando; vê-lo a cozer no forno… Mas o que mais gostava era de ver os senhores a apreciarem a sua obra de arte.
Certo dia, D. Felisbela levantou-se da cama, meio ensonada, vestiu-se com a roupa do costume, pôs o avental à cintura e foi até à cozinha para começar a trabalhar. Não estava ninguém acordado na mansão. Eram cinco horas da manhã. Tinha de acordar bem cedo para poder fazer o bolo de chocolate sem ninguém ver, usando a receita da sua avó Henriqueta, bem guardada na sua memória, para além de cozinhar todos os outros pratos para o grande jantar daquela noite. Quando a cozinheira descobriu que não tinha chocolate em pó nem em tabletes para fazer o seu famoso e delicioso bolo de chocolate, sentiu-se apoquentada. Tinha a certeza quase absoluta de que, da última vez que o cozinhara, não tinha deitado o pacote do chocolate para o lixo. «Talvez tenham sido os meninos», pensou, sorridente, atribuindo a falta de chocolate à gulosice dos mais novos. Decidiu pedir ao motorista da mansão para a levar ao supermercado, antes que fosse noite, para comprar o que lhe faltava.
- Claro, entre, D. Felisbela. – disse Rodolfo, o motorista, abrindo-lhe gentilmente a porta do carro, brindando-a com um enorme sorriso cintilante.
D. Felisbela sempre gostara de Rodolfo. Conheciam-se há uns bons anos, desde que ele tinha sido contratado pelos senhores, mas pareciam conhecer-se desde sempre. Não havia grande cumplicidade entre ambos, antes um leve nervosismo sempre que trocavam palavras, ou um simples olhar mais sincero. Mas Rodolfo gostava de ser simpático para ela, e ela apreciava a sua simpatia. Para além disso, ele era um rapaz mais novo, ainda não tinha chegado aos cinquenta, e D. Felisbela sentia-se lisonjeada por ter aquele efeito num jovem como Rodolfo.
Rodolfo deixou-a à porta do supermercado, e estacionou perto da entrada.
- Não demoro muito tempo. – avisou a cozinheira, saindo do carro. Sorriu através do vidro do carro.
Já no supermercado, D. Felisbela vasculhou todas as prateleiras onde podia estar o seu ingrediente principal. Nada. Não estava no corredor dos doces; não estava no corredor das bolachas; não estava junto à secção das festas. Como era possível não haver chocolate? Antes de entrar em desespero, sem razão, preferiu certificar-se de que estava correcta, e que não tinha passado pelo chocolate sem o ver. Dirigiu-se a uma funcionária do supermercado. A mulher era alta, magra, carrancuda, e não olhou nos olhos da cozinheira quando esta falou.
- Desculpe… Onde posso encontrar o chocolate em pó? Ou em tabletes?
A mulher olhou-a de cima a baixo, com um pouco de desdém. D. Felisbela pensou que ela devia de odiar, verdadeiramente, o seu emprego.
- Está esgotado. – disse a mulher, antipática. – Volte daqui a um mês.
- Um mês?
D. Felisbela abanou a cabeça, como se não quisesse acreditar.
- Sim. No mês que passou aumentou em 100 % o consumo de chocolate, em todo o mundo – a mulher continuava amuada, sem vontade nenhuma de comunicar com os clientes. – Ainda não houve reposição de stock. Parece que começou tudo a comer chocolate, desalmadamente.
D. Felisbela conseguiu ver um princípio de sorriso no rosto da mulher amarga, mas não ligou muito. A sua preocupação era outra, bastante mais grave, e sem solução à vista. A cozinheira suspirou, agora realmente preocupada e desesperada.
- E agora… Como vou fazer o meu bolo de chocolate… sem chocolate?
D. Felisbela era uma cozinheira afamada internacionalmente, graças ao prestígio social dos senhores da mansão em que trabalhava. A receita secreta do bolo estava fechada a sete chaves no cofre número 208 que tinha num banco suíço, longe dos olhares dos restantes cozinheiros famosos. Nunca tinha andado em escolas de culinária, e a receita do bolo de chocolate tinha-a aprendido em casa, quando era pequena, com a sua avó Henriqueta. Podia guardar a receita apenas na sua memória, mas temia esquecer-se dela, um dia, e como era solteira, receava morrer sem a passar aos seus descendentes. Tinha-a inscrito no seu testamento, também, de modo a fazê-la transitar no tempo, e não a deixar desaparecer na cova.
Nessa época, quando a avó Henriqueta ainda era viva, D. Felisbela lembrava-se que nunca faltava chocolate. Adorava ir às compras, buscar ovos, farinha e açúcar para tentar uma e outra vez a receita da avó Henriqueta. Às vezes, a avó dizia-lhe «Por que não vais buscar uma fatia de bolo?». E a D. Felisbela ia, ansiosa por sentir escorrer na língua o forte sabor a chocolate, com pigmentos adocicados, e a gema do ovo a rebentar-lhe por entre os dentes. Afinal de contas, era graças a essas fatias que comera enquanto criança que, hoje, era redondinha e cheiinha.
Mas D. Felisbela não conseguia esconder a preocupação por não haver chocolate à venda. 100 % de aumento! Crise mundial! Estava inquieta. Os senhores iam dar uma festa, naquela noite, que incluía jantar e um grandioso baile para digerir a comida. Não era uma festa qualquer. O Presidente da República ia lá estar, juntamente com outros senhores importantes, e ia provar os seus cozinhados. Para isso, os senhores da casa tinham pedido expressamente à D. Felisbela para cozinhar o seu ilustre bolo de chocolate, com todos os ingredientes que faziam dele o melhor da Europa, e ela acedera com graciosidade, ansiosa por dar a conhecer aquele maravilhoso sabor ao Presidente da República. Mas não havia chocolate… E a cozinheira não sabia como ia cozinhar sem o seu ingrediente essencial. Não podia regressar a casa, cozinhar o jantar e saltar o bolo de chocolate, inventando qualquer outra receita para sobremesa.
- Não havia? – perguntou Rodolfo, quando a viu entrar no carro com um ar desapontado, de mãos a abanar, tristonha; desesperada.
- E agora? – voltou a interrogar-se, impaciente, sem saber o que pensar. – Se não faço o bolo de chocolate, para além de o jantar ser um fracasso, os senhores e o Presidente da República vão ficar desiludidos comigo! – D. Felisbela começava a deixar cair dos olhos pequenas lágrimas translúcidas, e fungava repetidamente do nariz. – Tenho de fazer aquele bolo!
O motorista pensou durante um tempo, sem pôr o carro a trabalhar. Olhou para a cozinheira, carinhoso. Rodolfo gostava dela, e não se importava que fosse gorducha e baixinha. Era a D. Felisbela, a mulher mais simpática e querida que conhecia, e ela não merecia o que lhe estava a acontecer. Não tinha culpa que não houvesse chocolate em lado nenhum, ainda que os senhores a fossem culpar de não ter precavido a situação. Limpou-lhe as lágrimas dos olhos, sorridente, e pegou-lhe suavemente nas mãos. D. Felisbela sentiu o coração a palpitar ainda com mais força.
- D. Felisbela, eu gosto de si… – Rodolfo sorriu, uma vez mais cintilantemente.
- Eu também gosto de si, Rodolfo… – disse, esquecendo por momentos a crise do chocolate.
Permaneceram uns minutos a fixar o vazio.
- Agora… - recomeçou Rodolfo, olhando para ela - Pego em si e fugimos juntos, para bem longe… Para um lugar onde não temos de nos sujeitar a ninguém… longe da mansão, longe dos senhores…
- Rodolfo… – D. Felisbela apenas conseguiu pronunciar o nome do motorista, tentando disfarçar o espanto e o sorriso que se adivinhava no seu rosto.
- Para um lugar onde há chocolate com fartura, e onde pode fazer todos os bolos de chocolate que quiser! – interrompeu Rodolfo, continuando o seu raciocínio.
D. Felisbela sorriu de orelha a orelha, deixando secar as lágrimas. Abraçou Rodolfo, e pensou na sua avó Henriqueta. Como ficaria orgulhosa de a ver fugir para ser feliz! Imaginava-se numa qualquer ilha grega, no meio do mar, rodeada de bolos de chocolate e com a companhia do seu Rodolfo, ternura de rapaz, como num sonho que tivera durante a noite. A cozinheira Felisbela e o motorista Rodolfo partiram, assim, sem dizer nada a ninguém, deixando os donos da mansão sem motorista, sem cozinheira, sem jantar para oferecerem aos seus convidados e ao Presidente da República, e, notícia ainda mais trágica, sem o famoso bolo de chocolate da D. Felisbela, receita secreta, para saborearem à sobremesa.

segunda-feira, 14 de julho de 2008

Sinais de esperança

Por vezes, não importa se cada dia tem vinte e quatro horas, se cada hora tem sessenta minutos, se cada minuto tem sessenta segundos. O tempo é relativo. Se estivermos a passar um bom bocado, entretidos, pode voar por cima de nós, sem darmos por ele. Se estivermos nervosos, ou a tentar matar o tempo, ele pode levar dias a passar. Se tivermos esperança, por vezes, o tempo pode até parar.
Para Pedro, as cerca de duas horas e meia de viagem de avião, de Londres a Lisboa, passavam a correr. Era a força do hábito. O emprego em Inglaterra privava-o da vida que conhecera, no seu país de origem, mas permitia-lhe umas quantas viagens por mês a Portugal, para visitar a família. Viajava com alguma frequência, suficiente para estar habituado à confusão do aeroporto de Gatwick, à rotina de retirar sapatos, cintos e moedas dos bolsos, preencher papéis, fazer check in e check out, subir e descer escadas rolantes. Desta vez, regressava a Lisboa para passar a época natalícia, oito dias antes da véspera de Natal.
Depois de ultrapassar todas as etapas anteriores ao embarque, Pedro entrou finalmente no avião que o levaria até casa.
- Voo 0073 da Air Luxor para Lisboa, às treze horas e trinta e cinco minutos, embarque a partir das doze horas e cinquenta, no terminal sul, porta 15. – ouviu ainda ecoar nas paredes do aeroporto.
Seguiu através do corredor central do avião, com a pasta na mão, procurando o lugar que lhe pertencia. Avistou o banco 20 D à distância, enquanto passava pelos últimos assentos da classe executiva. Olhava o chão, não tomando atenção ao que se passava à sua volta. Estava concentrado na ideia de chegar a Lisboa, voltar a ver os pais e os irmãos, a sua casa de infância, trocar prendas e passar uns dias de férias. Os seus pensamentos foram interrompidos quando alguém que vinha na direcção contrária lhe travou a passagem, chocando com ele e caindo ao chão.
Pedro regressou à realidade. A mulher, nos seus trinta anos, estava estendida no tapete azul do avião, um pouco tonta com a queda que sofrera. Agarrava-se ao braço direito, que tinha sido o maior prejudicado pela colisão. Pedro baixou-se para a ver melhor.
- Está bem? – perguntou em inglês, ajudando-a a levantar-se do chão. – Peço imensa desculpa… Não a vi à minha frente.
A mulher assentiu com a cabeça, já de pé, ajeitando a camisa branca e a saia escura que levava vestidas.
- Estou bem, obrigada. Não se preocupe. – sorriu ela, ocupando o lugar 21 A, junto à janela, na fila de trás e no lado contrário ao banco que estava destinado a Pedro.
Ao sentar-se, reparou no que não tinha reparado antes. A mulher era de uma beleza extraordinária. Tinha os cabelos castanhos, num tom escuro, os olhos esverdeados e os lábios finos. Não usava muita maquilhagem, e o seu olhar transmitia uma espécie de esperança. Pedro virava o pescoço para trás, para a poder observar. Ela parecia não dar por isso. Levantou-se uma vez mais, como quem não quer a coisa, de modo a olhar para o seu lugar. Do alto do seu fato, preto, de algodão, recebeu o enorme sorriso que ela lhe enviou, e sorriu também, tentando não transparecer o nervosismo que sentia. Sentiu-se corar, mas arranjou coragem para a olhar uma vez mais, cruzando o seu olhar com o dela. Sentou-se, de seguida, no assento, apertando o cinto e preparando-se para levantar voo.
De repente, tudo o que tinha pensado antes, desapareceu. Não lhe vinha à memória o facto de estar a viajar para Lisboa, de estar de férias, de ir ver a família. Só aquela misteriosa mulher lhe ocupava a mente, e o fazia sorrir que nem um tolo para o adolescente com os auriculares nos ouvidos que se sentara a seu lado, ou para as assistentes de bordo que passavam por si.
Aquelas duas horas e meia de viagem foram as mais longas que alguma vez viveu. Todas as outras viagens que fizera, durante o primeiro ano de trabalhador no estrangeiro, foram esquecidas e substituídas por aquela, como se nunca tivessem existido. Nada se comparava à agitação que sentia. De vez em quando, revirava-se no banco e olhava para trás, observando-a a olhar pela janela do avião, a ler um livro cujo título não conseguia avistar, ou a descansar com a cabeça encostada no banco. Ocorreu-lhe que podia levantar-se do seu lugar e ir falar com ela, meter conversa sobre qualquer assunto. Mas faltou-lhe coragem. Depois do momento em que se tinham conhecido, o choque fatal no corredor do avião, ignorava a razão de ela lhe sorrir, sequer. Não conseguia pensar num assunto, ou numa palavra para lhe dirigir. E manteve-se por ali durante todo o voo, trocando apenas olhares comprometedores e sorrisos com aquela mulher.
Cerca das quatro horas da tarde, hora comum tanto ao local de partida como ao local de destino, o avião aterrou no aeroporto de Lisboa. Pedro engoliu em seco, pensando em todas as oportunidades que tinha tido para ir falar com ela, oportunidades essas que não tinha aproveitado. Agora, era tarde demais para lhe pedir um número de telefone, ou até um nome… A mulher levantou-se e apressou-se a pegar nas suas coisas, lançando-lhe um derradeiro olhar promissor. Pedro manteve-se sentado, com a cabeça virada para trás, a olhar uma última vez para a mulher que lhe pusera um sorriso nos lábios e o fizera corar durante toda a viagem.
Observou-a a caminhar pelo corredor, até deixar de a ver por entre a multidão que saía do avião. Subitamente, levou o seu olhar ao banco que ela tinha ocupado, o lugar 21 A, e fixou o assento. A mulher levantara-se e saíra, apressadamente, do avião, deixando para trás o cartão de embarque, meio amarfanhado, caído no banco azul, qual Cinderela que perdeu o sapatinho de cristal. Pedro foi assaltado por uma sensação forte de esperança. Para ele, aquele bilhete de avião era, verdadeiramente, um objecto especial.
Pegou rapidamente na sua pasta de mão, desapertou o cinto e caminhou até à fila de trás, sentando-se no assento B. Segurou delicadamente o cartão de embarque na mão, virou-o para cima e leu o que tinha escrito. Bandeira / Cláudia. Cláudia Bandeira era o nome daquela mulher, portuguesa. Um sorriso ainda maior do que todos os outros começou a desabrochar no rosto de Pedro. Guardou o bilhete no bolso da camisa, com cuidado, e saiu do avião com uma nova esperança entre as mãos. A partir daquele momento, era outro homem. Não ia mais desistir, não ia mais recear. O vento invernal de Lisboa, enquanto descia as escadas para o autocarro do aeroporto, trouxe-lhe a mensagem que pretendia ouvir, o consentimento do seu coração. Ia procurá-la.

terça-feira, 8 de julho de 2008

Joaninha... voa!

- Joaninha… voa… voa… – disse em voz alta, contrariando o silêncio.
Joana continuava estendida na relva, de barriga para cima, fixando o azul do céu. Era um lindo dia de Verão, com o calor a apertar e as flores a abrirem as suas pétalas. «Parece magia…», pensou Joana, pegando num malmequer e arrancando-o suavemente do solo. Sem levantar a cabeça do verde das ervas, levou a flor ao seu pequeno nariz e inspirou fundo, sentindo o cheiro do pólen nas suas narinas. Há algo que devemos saber acerca de Joana: ela não é uma rapariga sonhadora. Pelo contrário. Na maior parte das situações, permanecia com os pés bem assentes na terra, atenta a tudo o que a rodeava, focando-se na realidade e na vida que vivia. Não era pessoa para se encostar a uma porta e ouvir a conversa que ocorria do outro lado, por simples curiosidade de viver as vidas das outras pessoas. Acreditava, isso sim, que viver fazia bem à vida.
Rodava o malmequer por entre os dedos, pensativa. Sentiu o vestido branco, sem mangas, que lhe dava até ao joelho, a sujar-se de verde, mas não se importou. Colocou uma mão sob a cabeça, massajando os seus cabelos loiros, compridos, servindo de almofada.
- Mal-me-quer… – começou, arrancando simultaneamente uma das pequenas pétalas brancas da flor. - … bem-me-quer… muito… pouco… nada.
Fez uma pausa. Não era algo que costumasse fazer – arrancar pétalas de uma flor e responder à pergunta que fizera. Mas, naquele dia, as dúvidas eram tantas, e as respostas tão poucas… Que se deixou levar pelo subconsciente.
- Mal-me-quer… bem-me-quer… muito.
Parou, fixando a flor que tinha na mão. Levantou a cabeça do chão, sentando-se sobre a relva esverdeada. Tinha-lhe calhado ‘muito’. Não era algo em que quisesse acreditar mas, inadvertidamente, acreditou. Talvez fosse verdade. Apesar de fraca, era uma possibilidade. Apesar de mágica, talvez fosse real. E isso fê-la sorrir.
Sentiu algo a subir pelo seu dedo indicador. Um insecto, leve, avermelhado, pequeno, com algumas pintas brancas. Era uma joaninha. Não abanou o dedo, apesar de o ter pensado fazer, de modo a deixá-la voar. Gostou de a sentir ali, perto de si. Também ela se chamava Joana, e queria voar dali para fora. Queria, de uma vez por todas, sonhar, ou viver um sonho. Queria, acima e tudo, saber, obter respostas. Queria aproveitar a magia daquele dia de Verão.
- Joaninha… voa… voa… Será que ele gosta de mim? – e a joaninha voou, voou, voou…

domingo, 11 de maio de 2008

Sentimentos

Tudo depende das interpretações que fazemos das palavras. O que significa, literalmente, agarrar? Puxar contra si; abraçar; pegar; nada indica um comportamento mais íntimo do que um simples cumprimento entre conhecidos, ou uma habitual carícia entre amigos. Mas foi a forma como ela o disse: “Vi-os agarrados”. Foi isso que me chocou profundamente a alma. “Eu não te quis dizer, hoje de manhã, mas vi-os agarrados”. Demonstrou alguma preocupação, algum receio nas palavras que usou, mas não quis desenvolver o relato. E deixou-me ali, perdida em pensamentos, vagueando pelo sentido ambíguo das palavras, que se fazem notar em situações incertas como esta.
Olhava para o relógio, escrevia desenfreadamente, tentava concentrar-me no que estava a fazer. Mas não o conseguia. A imagem dele “agarrado” a ela percorria-me a memória. Juntos, talvez beijando-se… não sabia o que pensar do que tinha ouvido, mas não consegui arranjar coragem para saber mais pormenores. Receava descobrir algo que não queria, que me magoaria ainda mais, e decidi então permanecer na ignorância. Mas como podia uma coisa tão vaga, tão platónica, tão superficial, fútil e mesquinha, abalar desta maneira o coração de uma pessoa?
Como pode uma pessoa admirar outra sem a conhecer; sem nunca ter falado com ela, sem nada saber acerca dela a não ser a sua aparente beleza e simpatia? A verdade é que a observação não é suficiente; temos de testar as hipóteses levantadas pela observação, de modo a progredirmos até ao verdadeiro conhecimento. Mas o que importava isso quando o vi pela primeira vez…? Aqueles olhos azuis, brilhantes, profundos, no quais apetecia mergulhar os meus a cada olhar que trocávamos… olhar esse intenso, que me comovia quando tinha os seus olhos pousados nos meus… Aquele sorriso, simples, feliz, que nunca desaparecia do seu rosto… Aquela confiança, com a qual trocava olhares e sorrisos com tudo e todos, inclusive comigo, quando o destino o ditava ou eu o provocava… O que importava o facto de eu não o conhecer, se ele me parecia tão familiar, tão próximo, tão conhecido?!
Não deixa de ser uma coisa fútil, mesquinha e superficial, para quem a vê de fora. Mas para quem a sente, parece ser mais profunda do que muitas outras. Talvez seja, simplesmente, uma forma de imaginarmos a pessoa que queremos conhecer no corpo de outra que existe, fisicamente, mas que não conhecemos no seu âmago. Talvez. Prefiro pensar que não estou assim tão desesperada por encontrar alguém, apenas encontrei alguém a quem posso delegar algumas qualidades e defeitos que penso serem verdadeiras, ainda que não o sejam. Mas quem merece que algo semelhante lhe seja feito? É como retirar a sua personalidade, o seu íntimo, a sua alma, e atribuir-lhe outras características. O pior é que nos afeiçoamos demasiado à pessoa que criamos. Não, não digo que possamos chamar a isso amor, ou algo parecido. Não. Mas porque é que a vida é tão complicada?
Se não o conheço, porque me importo tanto de saber que ele estava “agarrado” a ela? Seja isso o que for…? Magoou-me; não ele, mas a minha alma, por não saber comportar-se; por não saber parar quando deve, amainar quando é preciso fazê-lo. Ele é o menos culpado de todos. Está, simplesmente, a viver a sua vida, a tentar ser feliz… como posso culpá-lo por isso? Não é o que todos queremos? Consigo, até, sentir algum contentamento ao ouvir isso, por ele, por estar feliz, ainda que eu não o esteja, e esteja até, a sofrer com isso. Consigo esboçar um leve sorriso, por vê-lo feliz, por vê-lo a viver, e não “agarrado” a uma ilusão, a uma paixão – se é que se pode chamar isso – platónica por alguém que não conhece, e a quem apenas dirigiu a palavra uma vez, em circunstâncias geradas pelo destino. Mas não é todo o amor um pouco platónico?
O que me preocupa é estar magoada, sentir-me abalada pela novidade. “Eu não te quis dizer, hoje de manhã, mas vi-os agarrados”. Ele, agarrado a outra… Ele, que eu tomava como meu… Ele, que eu acreditava não merecer ninguém para além de mim própria… Ele, que parece, ao mesmo tempo, tão frágil, tão verdadeiro… Mais uma vez, não o posso culpar. Mas as lágrimas vêm-me aos olhos; imprudentes, insaciáveis, inconcebíveis… De quem é a culpa? Sinto que tenho de culpar alguém pelo meu sofrimento, mas se não ele, quem?
Pego na bússola que tenho comigo. Estou em direcção ao Norte, mas desde quando é que isso me orienta? Continuo sem saber para onde ir, de onde venho ou onde estou. Sinto que não pertenço a lugar nenhum. Procuro seguir o meu coração, como tenho feito até aqui. Mas apercebo-me que, no final de contas, ainda não saí do ponto de partida. O coração não me leva a lado nenhum. Só me traz confusão, inconsistência, fraqueza… e com ele embarco em utopias que me magoam mais do que a própria realidade. Culpo a razão, enfim, por me fazer tão consciente de que estou errada quanto a tudo, e a alma por me mascarar a realidade com certezas belas. No fundo, a culpa é sempre minha. E isso, por mais estranho que pareça, não me conforma. Talvez deva culpá-la a ela, a outra… ou serei eu a outra? Mas bem, talvez deva culpá-la a ela, por me tirar a esperança, o fulgor de cada sorriso, de cada olhar… ou agradecer-lhe por me ter retirado da ilusão; se é que o conseguiu?
A vida é demasiado complicada para ser entendida. É mesmo melhor permanecermos na ignorância. Aconteça o que acontecer, eu sou eu, e isso é capaz de me conformar…