sexta-feira, 23 de novembro de 2007

...

- Adoro-te… – sussurrou ela, ao meu ouvido, apertando ainda mais o abraço que me dava. – Só queria que soubesses isso…
Senti a sua mágoa, nas lágrimas com que molhava o meu rosto, já encharcado pelo meu próprio choro. Soluçava e parecia não querer largar-me. Naquele momento, como poderia? Depois de tudo o que tinha acontecido entre nós?
- Vou gostar sempre de ti… – disse-lhe. – … Independentemente da distância.
Tentei esboçar um sorriso, separando-me suavemente dela. Ela correspondeu.
- Eu sei que sim… – sorriu também, beijando-me profundamente.
As suas lágrimas voltaram a cair, compulsivamente. Puxei-a contra mim e recolhi-a no meu ombro, tentando atenuar a sua dor. Embora soubesse que isso era impossível. Nem com a minha própria dor conseguia lidar…
- Nunca te vou esquecer…
Não sei ao certo quem o disse, se eu, se ela, se ambos… mas era a verdade, de qualquer uma das formas. A memória da nossa história estava demasiado presente e guardada nos nossos corações, para acontecer o contrário. Mas será que tudo pode acabar assim? Duas pessoas que se amam, afastarem-se por força do destino, e seguirem as suas vidas, longe uma da outra?
- Adeus… – disse ela, apertando com força a minha mão, para a largar de seguida.
Só aí tomei verdadeiramente consciência do que estava a acontecer. Esta seria a última vez que a ia ver, em toda a minha vida. Não conseguia parar de a observar, e de rever nela todos os momentos, todos os abraços, todos os beijos, todos os sorrisos, todos os passeios… Não conseguia dizer-lhe adeus, por mais forte que tentasse ser e parecer por fora. Amava-a demasiado para me despedir.
Foi quando ela se virou para se ir embora que o meu coração começou a bater mais depressa. Não, não vás… porque eu não consigo viver sem ti… Por favor, fica comigo… Mas ela afastava-se cada vez mais, a cada segundo que passava. E eu ali, imóvel, a vê-la partir. Até que não aguentei mais, e comecei a correr na sua direcção. Assim que ouviu os meus passos apressados, ela virou-se e voltou a mostrar o rosto molhado, esboçando uma leve satisfação por dar de caras comigo, e, ao mesmo tempo, um leve receio por não querer também dizer-me adeus. Não parei de correr até me encontrar mesmo em frente dela, e colar os meus lábios aos seus.
O momento acabou quando ela parou de me beijar, baixando os olhos. Voltou a virar-se para partir, e percebi que desta era de vez. A última imagem que guardo dela são aqueles olhos azuis cheios de tristeza, sabendo que nada lhe podia dizer para os voltar a ver sorrir. Vi-a desaparecer no crepúsculo da noite, primeiro o rosto, depois os cabelos loiros, por fim o resto do corpo; sem olhar uma única vez para trás.
Não conseguia parar de pensar que, apesar de tudo, ela parecia mais resistente do que eu. Nunca pensei que me fosse apaixonar assim, e viver uma história como aquela. Mas o que interessava isso agora? Ali estava eu, a olhar a penumbra, completamente desfeito, sem saber em que acreditar. Deixei-me cair e sentei-me no passeio gelado, levando as mãos à cara, que, uma vez mais, estava encharcada. Fiquei assim durante horas, não sei quantas, ao certo. Até levantar a cabeça e limpar o rosto, agora já mais seco.
Caminhei até à praia, não sei se tentando esquecer o sucedido, se tentando relembrar o passado. Precisava do ar fresco no rosto, e da areia nos pés nus, embora o frio apertasse e só me apetecesse estar na cama. A vida não é justa… Quando tudo está a correr bem, acontece algo que vem estragar tudo. Como se não merecêssemos ser felizes. Porque é que não pude ser feliz com ela? Porque é que ela tinha de partir, e eu tinha de ficar, e tudo o que partilhámos tinha de se desvanecer num breve livro de recordações?
Pensei no seguir em frente, que supostamente se seguiria à amargura da despedida. Mas não consegui idealizar como iria viver dali para a frente, sem ela. A única que eu queria ter a meu lado, e a única que não podia. Nunca mais. Como poderia superar isso?
- Um dia, vais encontrar alguém e ser feliz… – dissera-me ela, numa das últimas conversas que tivéramos.
- Alguém como tu? – perguntara eu, não imaginando outra possibilidade.
- Alguém que te faça sentir como eu faço…
Sorri ao recordar essa conversa. Ela fez-me sentir, que, apesar do fim da nossa relação, teríamos sempre a memória do que acontecera entre nós… um primeiro amor, uma primeira história, que serviria de exemplo para as seguintes…
Como se sentiria ela neste momento? Será que estava como eu? Ainda a chorar? Ainda triste por tudo ter acabado assim, sem mais nem menos? Quem me dera poder saber. Quem me dera que nada disto tivesse acontecido. Não a relação. Não, isso não. Isso foi a melhor coisa que alguma vez me aconteceu. Mas a despedida tinha sido a pior coisa que podia ter vivido…
Baixei o olhar para os pés destapados. Apesar da esperança de conseguir ser feliz, um dia, tudo me parecia injusto. Amá-la-ia para sempre… mesmo que nunca a voltasse a ver. Como iria sobreviver sem ela?




Vi-a ao longe, enquanto esperava pelo sinal verde na passadeira. Será que era mesmo ela? Não podia ser… Passados tantos anos, será que a podia reconhecer? Os carros pararam, e eu avancei pela estrada. Senti o coração a acelerar, mas não quis acreditar que pudesse ser verdade.
Ainda nessa manhã acordara sobressaltado. Estranho sonho, o que tivera. Não sabia sobre o que tinha sido, mas senti que mexeu comigo, cá dentro. Acordei durante a noite, exaltado, com a cara lavada em lágrimas… E com uma estranha sensação de perda, no coração. Desde essa hora da madrugada que estava acordado, sem conseguir voltar a pregar olho. Mas levantei-me e lavei a cara para me sentir melhor.
Só agora percebia que sonho tinha tido. O que me tinha feito acordar tão agitado. E lembrei-me. Foi ela. Foi aquela despedida derradeira que mudou a minha vida. Aquele dia melancólico e fatal em que a perdi. Para sempre.
Agora, a atravessar a passadeira, a minha ansiedade cresceu, e senti-me fraco. Tinha seguido em frente. Tinha vivido a minha vida, ultrapassando a memória de todos os momentos que tinha passado com ela. E agora ali estava; sim, era ela. Embora já uma mulher, aqueles olhos azuis, que sempre me tinham fascinado, eram inconfundíveis. Ela estava ali, incompreensivelmente, e eu não sabia o que fazer.
Pensei em continuar a andar, sem lhe dizer nada. Ela não tinha reparado em mim, quando atravessara a passadeira e me aproximara do passeio. Estava encostada a um poste, pensativa, a olhar para dentro da mala. Talvez fosse melhor, tanto para mim como para ela, seguir em frente sem lhe falar. Tinham passado muitos anos… quantos, ao certo? Cerca de dez… Ambos tínhamos começado de novo… para quê voltar ao passado?
Mas ao vê-la ali, com uma madeixa de cabelo loiro à frente do rosto, cabisbaixa, tal como a deixara há dez anos… simplesmente não consegui. Senti-me a contemplá-la não só com felicidade de a rever, nem só com receio de voltar atrás no tempo… Mas também com afecto. Será que ainda amava? Seria possível, tanto tempo depois? Mas… e se ela me tivesse esquecido?
- Ana?
Apesar de ter ganho coragem para a chamar, agora estava receoso quanto à resposta que receberia. Sentia-me tão… susceptível. Depois do que já tinha passado para a esquecer… para conseguir seguir em frente… ela aparecia-me tão inesperada e subitamente como tinha desaparecido. Quando a vi levantar os olhos para me olhar, e comecei a ver um sorriso no seu rosto, para além de saber que ela se lembrava de mim, soube que a amava. E talvez, só talvez, ela também me amasse.
- João? És mesmo tu?
Também eu comecei a sorrir descontroladamente. De repente, senti-me tão feliz por a ver! Acenei com a cabeça, e comecei a aproximar-me cada vez mais dela. Ela começou a fazer o mesmo, até que ambos começámos a fazê-lo mais e mais depressa … Abracei-a com toda a força que tinha, voltando a sentir o seu perfume.
Ficámos assim durante algum tempo, até que eu me afastei para a ver melhor.
- Estou contente por te voltar a ver… – disse-lhe, notando alguma timidez na sua expressão.
- Eu também… – respondeu, voltando a sorrir.
Nenhum de nós sabia o que dizer. Tinham passado dez anos… não um, não dois. Dez. Tínhamos mudado muito, e era como se já não nos conhecêssemos. Ainda assim, eu sabia que, pelo menos para mim, esses anos não tinham significado nada. Apenas os passados com ela tinham contado.
- Estás bem?
Era ela quem perguntava. Vi no seu olhar que também estava pensativa, e que não me esperava ver.
- Vou sobrevivendo. E tu?
- Também estou bem.
Sorrimos de novo. Só me apetecia voltar atrás no tempo, e não a deixar partir. Não queria saber o que tinha feito nestes últimos anos, nem como seguira em frente depois daquele dia. Só queria saber uma coisa: seria tarde demais para recomeçar?
- Queres ir dar uma volta? – disse-lhe, sentindo uma réstia de esperança.
Ela hesitou, mas decidiu aceitar. Durante uns minutos, caminhámos lado a lado, como velhos amigos que não se viam há um tempo. Calculei que ela tivesse seguido com a sua vida, casado com um bom homem, e vivesse feliz algures num sítio belo, tal como antes tínhamos imaginado viver. Sentia-me feliz por a saber feliz, mas queria ser feliz com ela, também.
Baixei o olhar, sem saber o que lhe dizer. O silêncio começava a tornar-se desconfortável, mas, ao mesmo tempo, necessário. Até que, algum tempo depois, ela pegou suavemente na minha mão, apertando-a. Olhei para ela, e vi uma lágrima no seu rosto. Estava a recordar. Lembrara-se daquele dia, e estava agora a sofrer de novo. Sorriu-me, e agarrou-se ao meu braço. Eu abracei-a também. O desejo de a beijar cresceu, mas decidi esperar por um sinal dela. Por enquanto, aquilo que tínhamos chegava. Era suficiente para mim. Talvez um dia evoluísse para algo mais. Talvez desse para começarmos de novo. E talvez tudo pudesse voltar ao que era dantes…