segunda-feira, 19 de março de 2007

uma vida num olhar...

Era uma velha, muito velha. Revelava-se uma figura algo distante, longínqua. Isso talvez se devesse ao facto de estar a olhar fixamente para a televisão, fazendo dela o seu ponto de distracção. Ou talvez se devesse à sua expressão desgastada, pelo tempo ou pela vida passada.
Tinha o cabelo curto, grisalho e áspero, mas, ao mesmo tempo, notava-se um toque brilhante. Era algo ondulado, embora desse para perceber que naquele dia se esquecera de pôr os rolos. Ou talvez os caracóis já tivessem desaparecido, com a idade. Os seus olhos eram azuis, mas o brilho alterava conforme a luz que vinha da televisão. Quanto mais clara fosse a luz que ela transmitia, mais claros ficavam os olhos da mulher, e se eles estivessem escuros era porque a luz era fraca. Começavam por ser de um azul-turquesa muito claro, de seguida ficavam mais escuros, até parecerem o azul do céu à noite. A verdadeira cor azul dos seus olhos era posta à prova, e quase ficava irreconhecível.
A sua expressão era suave; cansada, mas, inesperadamente, alegre.
Também o brilho do seu rosto de alterava. A luz tornava as suas rugas da cara e da testa mais visíveis e evidentes. Notavam-se olheiras debaixo dos olhos da mulher, como se fossem dois papos definitivos. Talvez fossem. Ou talvez figurassem apenas no seu rosto por falta de sono. Talvez ela tivesse ficado horas a olhar incessantemente para a televisão, na noite anterior, como o estava a fazer naquela noite. Parecia completamente fixada no televisor que se encontrava á sua frente. E parecia nunca vir a abandonar o olhar de o que quer que fosse que estava a ver.
Tinha um nariz pequeno e achatado, como se não tivesse crescido mais desde os seus anos de juventude. A boca também era pequena, e os seus lábios eram de uma cor rosada. Pareciam ter sido pintados, mas há já algum tempo. Era como se os tivesse pintado de manhã, e o batom tivesse desaparecido com o tempo. Mas a sua vivacidade já tinha desaparecido, juntamente com a sua juventude. Já não tinha aquela expressão viva como quando era jovem, provavelmente, mas não era assim tão velha como podia parecer a primeira vista. As rugas davam-lhe um ar cansado, mas prudente e severo.
Vestia uma camisola de lã bastante quente e usada, de gola alta, de uma cor esverdeada. Não era corpulenta, mas não se podia dizer que era magra. Aquecia as mãos no colo, por baixo de uma manta, esfregando-as constantemente, mas sem nunca olhar para elas. Usava uma saia comprida, de um tecido quente, que lhe cobria as pernas até por baixo do joelho. A saia era castanha clara, e tinha desenhadas algumas imagens como plantas verdes e flores de diversas cores. Vestia umas collants acastanhadas por baixo da saia, e tinha calçados uns chinelos cor-de-rosa, com uma florzinha avermelhada no topo. A sua aparente falta de gosto na escolha da vestimenta devia-se, provavelmente, ao facto de estar em casa e de não ter ido à rua durante o dia. Ou então era daquelas pessoas que mudam de roupa quando chegam a casa, para se sentirem mais confortáveis. Ams o mais provável era tratar-se da primeira hipótese.
Estava sentada e recostada no sofá da sala, a repousar. A seu lado jazia uma caixa de chocolates, aberta e provocante. Dos vinte lugares que existiam na caixa, para os chocolates, só dez ainda permaneciam ocupados. De vez em quando, a velha lá tirava a mão esquerda do colo e pegava em mais um chocolate, levando-o à boca e saboreando-o. Mas nem sequer o olhava. Já o fazia com tanta naturalidade que não precisava de ver. E com a tamanha concentração com que olhava para a televisão, era provável que nem sequer se apercebesse de que estava a comer chocolates. E, de repente, os dez chocolatinhos eram reduzidos. E o número de lugares vazios aumentava.
Nove.
Continuava a olhar fixamente para o televisor da sala, como se dele dependesse a sua própria existência. E, de vez em quando, lá se alterava o brilho dos seus olhos e do seu rosto, com a luminosidade do programa que estava a ver. Estranhamente, não mudava de canal. Nem sequer pegava no comando que se encontrava exactamente ao seu lado direito, no sofá, e lhe tocava para ver outro programa. Era sempre o mesmo. Há horas. E parecia não se cansar nem um bocadinho.
Não tinha grande reacção ao que via na televisão. Por vezes, sorria, ao ver uma coisa engraçada, ou fazia uma cara descontente que dava a entender ter visto algo desgostoso. Mas nada de mais. Nem uma gargalhada nem nada parecido. Talvez fosse o sono. Ou talvez se tivesse tornado insensível, com o tempo. A verdade é que parecia não dar importância a mais nada a não ser àquele pequeno televisor que tinha à sua frente. E, ao fixá-lo, tudo o resto deixava de existir. Por vezes, até mesmo os chocolates eram esquecidos.
Levou a mão à cara, coçando-a com alguma força, como também já o tinha feito algumas vezes. Ao aperceber-se de que tinha sido uma mosca a causar-lhe a comichão, afastou-a com a mão e ela desapareceu pela porta da sala. Voltou a agarrar a mão no colo para a aquecer, e recomeçou a esfregar as mãos uma contra a outra. Também já se tinha habituado às moscas que voavam sobre a sala. Eram pelo menos três, sempre a sobrevoar a velha e o prato de comida que estava pousado na mesa da sala. Apesar de já estar limpo, o prato ainda continha vestígios de comida, e as moscas gostavam disso. A mulher olhava para o prato com um olhar maçador, como se não lhe apetecesse mesmo nada pegar nele e levá-lo para a cozinha. Seria sono? Ou apenas preguiça? Certo era que ela não se queria levantar. E permaneceu ali, sentada no sofá da sala, como já o fazia há umas horas. E voltou a olhar incansavelmente para a televisão.
Parecia não existir mais ninguém naquela casa. O silêncio reinava, como se não existisse ar, sequer. Só o leve zumbido das moscas atrapalhava o silêncio que se fazia sentir na sala, de vem em quando. Mas a velha já nem lhes ligava. Por vezes, ainda se dava ao trabalho de as enxotar, e de retirar as suas desgastadas mãos do colo para as mandar embora. Mas a maior parte das vezes já não se importava. E, ainda por mais, estava tão embrenhada no que estava a ver na televisão que nada mais parecia interessá-la.
Suave e lentamente, a velha voltou a retirar as mãos do se regaço e a expô-las ao ar frio que estava na sala. Parecia só haver uma coisa que voltava a convencê-la a agir dessa maneira: a caixa de chocolates aberta ao seu lado, que, de novo, foi tentadora. Com a mão direita, que parecia tremer (de frio ou apenas da sua velhice), pegou num daqueles pequenos chocolatinhos, devagar como um passo de caracol, e meteu-o na boca cuidadosamente. Aí, deixou-o derreter até desaparecer, finalmente. E voltou a olhar para o televisor, como se nada fosse. Mas a caixa de chocolates ficara com mais um lugar livre.
Oito.
Parecia comer os chocolates com uma naturalidade que só agora começava a mostrar. De vem em quando, virava a sua cara arredondada e rechonchuda para a caixinha ao seu lado, e observava aqueles chocolates de que tanto parecia gostar. Mas não os tirava. Nesse aspecto, parecia saber controlar-se. Olhava para as suas mãos, tapadas com a pequena manta, e parecia dizer a si própria que o frio não desaparecia. Ainda tentou aquecê-las com a boca, expirando ar quente, para ver se elas lhe obedeciam e levavam o frio embora. Depois, levou-as, de novo, ao colo, talvez por ter conseguido aquecê-las. Ou talvez por ter desistido de o tentar fazer. O que é certo, é que parou de expirar ar quente, da boca para as suas mãos rugosas, e voltou a ficar paralisada a olhar para a televisão. Como se ela fosse a coisa mais importante do mundo.
Já muito passava da hora do jantar, mas a velha continuava sem se importar com o prato sujo de comida em cima da mesa da sala. Em vez disso, voltou a esfregar as mãos no colo, enquanto se recostava melhor no sofá de cor beije. Era um dos poucos momentos que gastava sem olhar para o pequeno televisor que tanto a fascinava. Podia ser o televisor ou, simplesmente, o que ele mostrava, mas das duas uma: ou o programa que a velha estava a ver era, realmente, longo, e estava a dar há horas; ou então o canal que ela estava a ver exibia todos os seus programas preferidos, e não só ela não precisava de mudar de canal, como era completa e totalmente apaixonada por eles.
Depois de se encostar no sofá, a velha de cabelo grisalho e áspero voltou a dar uma olhadela na caixinha de chocolates de vinte lugares, como que a dizer: «daqui a um bocadinho eu como outro, mas agora ainda não. Tenho que me controlar». E não comeu. Levou o olhar da caixa e voltou a pousá-lo na televisão.
As suas pernas tremiam um pouco, da sua remota idade ou do frio que se fazia sentir. A saia tapava-lhe as pernas, e só uma fracção estava exposta ao ar. Aí, viam-se algumas varizes e cansaço; uma vida cheia de dias trabalhosos e fatigantes. Também o seu rosto quase maltratado e desgastado mostrava alguma amargura, pela própria vida ou apenas por ter chegado àquela idade onde já não apetecia viver mais. As suas rugas não pareciam ser recentes; talvez a velhice lhe tivesse chegado cedo, ou a angústia da vida a tivesse feito envelhecer mais depressa. Mas a sua expressão, apesar de suave, mostrava algo inexplicável. Talvez fosse nos seus olhos, ou na sua cara de quem tinha poucos amigos. Mas, fosse o que fosse que a perturbava, ou perturbara, em tempos, parecia ainda não ter desaparecido da sua memória. E o mistério permanecia no seu olhar.
Parecia embrenhada nos seus pensamentos; já não parecia abrangida pelo que estava a dar na televisão. Era como se se tivesse apagado do mundo exterior, apenas por alguns minutos. Continuava a fixar o televisor, mas já não com a atenção com que começara. Quando, finalmente, deu por isso, abanou a cabeça e olhou para a frente. E recomeçou a não dar importância a mais nada senão ao programa.
A certa altura, a velha começou a fazer uma cara estranha, de quem já está farto do que está a fazer. Mas, em vez de se levantar e de ir fazer outra coisa, pegou silenciosamente no comando que estava pousado no sofá, ao seu lado direito, com a sua mão enrugada, e levou-o lentamente até ao colo. Também a sua mão tremia, mas o mais provável era ser por causa do frio, e da diferença de temperatura entre o calor da saia e o ambiente. Mal voltou a pegar nele, posicionou-o na direcção da televisão, e, finalmente, fez o que já se esperava há muito tempo: carregou no botão que tinha o número um e mudou de canal. Pareceu mais feliz ao ver que estava a dar um programa que a aprazia, mas nada de sorrisos, ou de gargalhadas a mostrar os dentes. O seu ar sério e um pouco amargurado mantinha-se, sempre à frente de qualquer outra emoção mais forte. Então, pousou o comando no seu lugar inicial, que até já tinha marcada a sua silhueta. Ou talvez fosse só imaginação.
O seu cabelo grisalho estava penteado como se a mulher velha tivesse vindo de um cabeleireiro. Não tinha cabelos em pé, nem aqueles cabelos mais curtos que toda a gente tem a estragar a sua figura. As ondas do seu cabelo davam-lhe um ar mais jovial, apesar de parecerem não ter levado rolos. Os poucos vestígios de cor forte mostravam que o seu cabelo fora castanho-escuro, em tempos. Agora só lhe restavam mesmo vestígios.
Foi nessa altura que a velha olhou de relance para a caiza de chocolates, como que a verificar a sua presença. Ou tinha medo que eles desaparecessem, ou já não se lembrava que os tinha ao lado. Naquela idade, a memória já não devia ser a melhor, e talvez ela comesse demasiado queijo. A julgar pela quantidade de chocolates que faltavam na caixa, e pelo facto de parecer não existir mais ninguém naquela casa, a velha parecia ser uma mulher bastante gulosa. Mas, naquela altura, já devia de estar confusa. Não sabia se se devia controlar, ou se devia tirar outro chocolate para o comer. Olhou para a caixa pelo canto do olho, uma vez mais, e pareceu não querer resistir. Fixou-a durante uns momentos, talvez a ponderar a sua decisão. Mas não deixou escapar a oportunidade, e libertou, de novo, a mão do colo, para se apoderar de outro chocolatinho.
Sete.
Pegou no chocolate em forma de coração e levou-o à boca, cuidadosamente, sendo um caso de vida ou de morte deixá-lo cair. Apesar de pequeno, o chocolate deixou-se morder pelo estreito maxilar da sua predadora. Os seus pequenos dentes trincaram o pedaço de chocolate e levaram-no até aos molares, que, por sua vez, o esmagaram lentamente. A outra metade do chocolate foi colocada na boca da velha, de seguida, pelos seus rugosos e dormentes dedos, que depressa voltaram ao colo. O sabor do chocolate deve de a ter deliciado, porque os seus olhos se fecharam enquanto o engolia, mostrando que o seu sabor não podia ser melhor. Quando, finalmente, ele desceu pelo esófago, a velha abriu os olhos e voltou à rotina. Mas decerto o sabor do chocolate não desapareceu logo. E o mais provável era ficar na boca até lhe apetecer comer outro.
Passados alguns minutos de ter voltado a olhar para a televisão, os olhos da mulher começaram a fechar-se. Ela apercebeu-se de que não era só o sono a apoderar-se de si. Começou a fechar os olhos, distraídamente e despropositadamente, de vez em quando, mas depressa voltava a abri-los. Por vezes, franzia-os um pouco e parecia estar cansada de o fazer. Talvez se tivesse apercebido de que precisava dos seus óculos. Até era estranho que ainda não os tivesse posto. Mas só agora mostrava estar a ver desconfortavelmente sem eles. Então, sem demoras, desviou o seu misterioso olhar para a caixa avermelhada dos óculos, que estava à sua esquerda, e pegou-lhe com um grande esforço por parte da mão trémula, já quase aquecida, que teve de sair do seu esconderijo térmico. Ao abrir a caixa, já no colo, retirou do seu interior uns óculos antigos, como os que as pessoas da sua idade costumam usar. Grandes lentes, grossas e com o aspecto de terem imensa graduação. Mas, se só agora os punha, talvez fosse porque não precisava assim tanto de os usar.
Ao por os óculos na cara, a sua imagem alterou-se, e a sua expressão tornou-se ainda mais severa. Os seus olhos tornaram-se duas grandes bolas azuis, que quase pareciam de vidro, com a graduação dos óculos a dar-lhes um aspecto mais vivo. O reflexo já não se fazia nos seus olhos, mas sim nas lentes que agora os protegiam. As imagens da televisão reflectiam-se nos olhos, e o seu conteúdo era agora mais visível. Os olhos da velha ficavam escondidos por detrás daquela nuvem de imagens que parecia ter-se instalado no seu olhar. Mas ela percebeu que tinha razão, e que era exactamente dos óculos que precisava. Agora, já não precisava de franzir o sobrolho nem fechar os olhos por estar a ver mal
Ao fechar a caixa dos óculos, e ao colocá-la no seu sítio inicial, outro pormenor da sua vida passada foi desvendado: na sua mão esquerda, no dedo a seguir ao dedo mindinho, encontrava-se um anel, liso e prateado. Era curto e não muito grosso. Definitivamente, era um aliança. Depois de pousar a caixa, a velha retirou a outra mão do esconderijo e tocou no anel. Começou a rodá-lo apaixonadamente, com uma segurança que levava a pensar que já o tinha feito muitas vezes. Olhou-a durante muito tempo, esquecendo a televisão e concentrando-se naquele movimento. Mas, o mais curioso, era que não olhava em volta para ver onde estava o marido. Não o procurou, nem o chamou, nem sequer lhe telefonou. O que ia naquela cabeça era um mistério maior do que todos os que pudessem aparecer pelo caminho. Onde estaria o seu marido? Estaria longe? Ou estaria, simplesmente, no outro lado da casa? A tristeza no seu olhar fazia pensar o pior. E a paixão com que rodava o anel dava a entender uma verdade quase óbvia: talvez ela fosse viúva. Talvez há muito tempo, ou talvez recentemente. Mas isso explicava, em parte, a amargura na sua expressão, e a tristeza que tinha já assombrado a sala, apenas com o seu olhar.
Apercebendo-se da sua própria hesitação, a velha levantou o seu triste e aparente magoado olhar, para voltar a colocá-lo na televisão. Então, o seu rosto de amargura ficou descoberto, e, com a luz da televisão, descobriu-se uma lágrima a cair do seu olho esquerdo. Caiu lentamente, pela sua face abaixo. Mas, depois dessa, muitas outras se seguiram. A velha não as limpou, muito pelo contrário. Deixou-as correr, como que tentando esconder as suas emoções mais profundas. Olhou para a televisão e continuou a observá-la, ultrapassando o momento que tinha passado.
Passados algum tempo, as espessas e tristes lágrimas acabaram por secar, como se tivesse passado uma leve brisa e as tivesse levado para bem longe. Nessa altura, a velha já estava, novamente, fixada na televisão. A sua expressão magoada desapareceu, e deu lugar a uma emoção que não se explicava através do seu olhar. Era algo mais profundo, algo que estava no seu interior. E que não deixava transparecer cá para fora. Dava a entender que, se houvesse uma máquina para ler os pensamentos, os seus não iriam ser desvendados, de tão esquecidos ou de tão bem guardados que estavam. Nesse aspecto, a velha conseguia enganar toda a gente que a olhava. Mas o seu olhar, à primeira vista, levantava logo afirmações da sua vida passada. E a amargura existente não desaparecia.
Tentando abafar todas aquelas sensações, a velha deitou outro olhar provocante à caixa dos chocolates. Deve de ter pensado que a sua gula já estava no auge, porque fez uma expressão estranha face à tentação. Mas não conseguiu resistir. Levou a mão ao chocolatinho que estava no canto da caixa, pegou nele e levou-o à boca. Nem se deu ao trabalho de o morder. Atirou-o suavemente para a língua e deixou-o a desfazer, para o seu sabor permanecer durante mais tempo. A caixa ficara com menos um chocolate. E já não restavam muitos mais.
Seis.
Com os olhos fixos no televisor, a mulher continuou a olhá-lo com outro tipo de atenção. Agora, concentrara-se ainda mais naquela pequena caixa, e tinha voltado à expressão suave e alegre inicial. Podia ser do programa que estava a ver, mas, provavelmente, era para esquecer o que a aliança lhe lembrara, e para deixar o passado bem lá no fundo do poço. As suas enrugadas e trémulas mãos continuavam a mexer-se debaixo da manta, tentando aquecer-se e livrar-se daquele frio interminável. A princípio, parecia duvidar de que fosse possível mudar a sua temperatura, mas, naquele momento, parou de as esfregar e manteve-as no quente. As suas curtas e corpulentas pernas não paravam de tremer, embora já não fosse tão constantemente. O reflexo das imagens da televisão continuava a fazer-se sentir nas grossas lentes dos óculos, e a diferença de cores mostrava-se significativa. O ambiente silencioso mantinha-se na sala, fazendo com que parecesse ainda mais sombria. Tudo estava na mesma. A televisão parecia o seu mundo, e o que a rodeava não era mais do que uma telenovela demasiado parada.
Foi quando a velha deu uma gargalhada que as suas emoções vieram ao de cima. Pela primeira vez em toda a noite, mostrava uma alegria que quase se podia chamar de felicidade. Sinceramente, foi a única vez que isso aconteceu. De princípio, parecia uma pessoa reservada e só. E quando chorou ao olhar para a sua aliança, o seu olhar ainda se tornou mais sombrio. Mas, curiosamente, agora parecia ser uma pessoa que se dava mais às emoções, e que acreditava que viver os sonhos era mais importante que viver a realidade. Naquela idade, talvez fosse. No fundo, com aquele incessante olhar pousado sobre a televisão, e depois de uma análise mais ou menos prolongada sobre o seu rosto amargurado, a sua expressão só podia significar que a vida das presonagens nas novelas, e que a vida que as pessoas viviam nos programas que estava a ver, eram mais importantes do que a vida desinteressante e triste que ela prórpria levava. Talvez isso fosse verdade. Mas aquela gargalhada surpreenderia qualquer pessoa que tivesse observado a velha durante as últimas horas. Porque estaria uma velha, só e estranhamente desinteressada na vida, a ver televisão como se o mundo fosse acabar amanhã? A sua vida permanecia, ainda, um mistério no seu olhar.
O facto de deixar transparecer alguns dos seus sentimentos, e de guardar tão graciosamente outros, provocava-lhe uma estranha expressão difícil de interpretar. Ainda por mais, parecia estar a ficar cansada da sua incansável observação da televisão. As suas rugosas pálpebras tendiam a fechar, e a velha mulher estava como que a tentar aguentar a pressão para as manter abertas. A sua vida passada, através da observação do seu corpo, desvendava tempos difíceis. A velha parecia ter carregado o peso do mundo, em tempos, e talvez agora ainda o fizesse. Não era uma pessoa transparente; como já se vira, não mostrava as suas emoções à primeira pessoa que lhe aparecia à frente. Até à própria televisão parecia querer mostrar um sorriso, embora forçado, para disfarçar o seu descontentamento. Mas a televisão já a devia conhecer melhor do que ninguém, devido ao exagerado tempo que a velha passada à sua frente. Não lhe devia fazer muito bem, na sua idade já avançada, mas ela não parecia querer desistir. Não agora, que, apesar de parecer estar a ficar com sono, se estava a divertir tanto com o programa que observava. A gargalhada e os constantes sorrisos inocentes que mostrava à televisão eram prova disso mesmo.
Depois de outro longo sorriso, a velha deve de ter pensado, de novo, na caixinha dos chocolates que se encontrava ao seu lado. Com um breve olhar, comeu um chocolate só com os olhos, e mostrou a sua vontade de colocar outro na boca para saborear. Sem rodeios, tirou a sua mão já aquecida do esconderijo, e levou o quinto chocolate da noite à boca.
Restavam cinco.
Felizmente ou infelizmente para a velha, o sono deve de ter sido mais rápido a apoderar-se de si do que a vontade de continuar de olhos abertos a ver televisão. As pálpebras começaram a fechar, os ombros deixaram-se cair e o seu rosto perdeu toda a expressão que carregava. O azul dos seus olhos foi desaparecendo, gradualmente, e a vida que antes se vira no seu olhar parecia agora um simples pensamento desfocado pelo tempo. O sono apoderou-se de si, e a velha não resistiu ao cansaço. Os seus olhos largaram a televisão e a sua mente apagou-se. E a velha, muito velha, adormeceu em frente ao televisor da sala.

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