segunda-feira, 19 de março de 2007

Ser Pedro e Inês

Não tinha sono. Não tinha fome. Não tinha vontade de viver mais. Sentia-me perdida, sem nenhum lugar para me esconder daquela vida miserável. Já tinha sido feliz, isso era certo. Mas de que me serviria uma vida feliz se, dali para a frente, depois de tudo ter acabado, não me apetecesse mais nada senão morrer?
Foi aí que me lembrei. Diziam que era a mais bela história de amor, e eu sempre concordara. Até mesmo mais bonita do que a minha própria história. Mas era uma tragédia, e embora mostrasse a força do amor, não tinha um final feliz. Tal como a minha. A morte leva-nos as pessoas mais queridas, sem aviso ou sinal. E a dor é o mais difícil de ultrapassar.
Ao lembrar-me da lenda, tentei pôr-me no lugar de Pedro, talvez para perceber como seguiu com a sua vida. Mas, tal como só me conseguia lembrar da pessoa que amava, só consegui imaginar o dia da morte daquela jovem rapariga. E, ao criar um universo daquele dia, a dor e as lágrimas voltaram.
Estava na Quinta das Lágrimas, em Coimbra. Vi a fonte dos Amores, as águas do Mondego a percorrerem o seu caminho, e as árvores a participarem no sussurrar do vento, numa melodia agradável. Era assim que imaginara a vida harmoniosa e apaixonada dela. E, ao olhar para a fonte, vi-a. Bela, com um sorriso de paixão contagiante, e uma felicidade invejável. Era muito branca, e o seu vestido era comprido e elegante. Com ela, encontravam-se os filhos que tinha de Pedro, que exibiam sorrisos de alegria. Sim, ela era Inês. A bela e malograda Inês de Castro.
A harmonia daquele dia de Sol, e a felicidade que Inês e os filhos irradiavam, nada faziam imaginar a tragédia que se seguiria. E era esse o momento que temia. Mas era também por sua causa que estava ali, a viver aquele dia, como se da morte do meu marido se tratasse. Ainda tentei acordar do sonho, carregar no botão «stop» ou parar o tempo. Mas sabia que não podia. Não agora, que sabia que tinha de ver aquilo. E vi, apagando tudo à minha volta com uma borracha invisível, e esquecendo o presente que tanto me abalava.
Os carrascos levaram Inês para junto do Rei, e, com os seus olhos molhados e a sua expressão inocente, quase o conseguiu convencer a poupar-lhe a vida. Mas a determinação falou mais alto, e nada nem ninguém conseguiu evitar a tragédia. No momento em que a espada atravessou o corpo de Inês, ouviu-se um último grito a vir da sua voz. Um grito que ecoou pelas paredes do mundo, e que pareceu desvanecer-se no ar, tão subitamente como quando aparecera. Inês gritara bem alto o nome de Pedro.
Depois do momento trágico, vi o céu a encobrir-se e o silêncio da Natureza a ganhar forma. O tempo parou como e o próprio mundo estivesse a acabar. E vi, pela última vez, o rosto de Inês, que mostrava uma amargura só comparável às lágrimas que eu própria estava a chorar. A sua expressão não significava medo de morrer, mas sim preocupação por Pedro e pelos filhos. E percebi, então, que isso é que é amar.
Não é ser feliz, não é estar bem, não é ser amado. O amor significa amar alguém mais do que nos amamos a nós próprios, e colocar a sua felicidade acima de tudo na vida. Nada é mais importante do que ver essa pessoa sorrir, mesmo que seja por um momento apenas. E só quando regressei à realidade é que percebi que o que tinha vivido era real.
A dor passará, um dia, e a alegria de ter amado alguém voltará. Mas, mais importante do que isso, o amor nunca vai passar, e nunca será esquecido. Mais do que a tragédia, o amor engloba a felicidade de uma história romântica, como a própria vida de Pedro e Inês. Nem que seja por um dia, vale a pena viver a sua história. Porque o amor é o melhor sentimento que podemos experimentar.
Foi aí que decidi limpar as lágrimas e seguir em frente. Esquecer o passado de nada serve, mas recordar os bons momentos faz com que nos sintamos sempre completos.
Olhei-me ao espelho, e, em vem de descobrir um rosto amargurado, vi uma lágrima ao canto do olho, e um nariz avermelhado. Mas, mais importante ainda, descobri um sorriso. Leve, mas ainda assim um sorriso. E sorri ainda mais ao perceber que nunca iria deixar de o amar.

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