segunda-feira, 12 de março de 2007

a minha história...

Por vezes a vida é muito injusta. E eu, Susana, posso prová-lo.
Quando era pequena não era, decididamente, feliz. A minha mãe e o meu pai não se importavam comigo. Adoravam a minha irmã, e era ela a menina da família. Mas nunca me preocupei muito com isso. À noite, no meu quarto, sonhava com a minha felicidade dali a alguns anos. Quando completei dez anos, recebi apenas uma prenda, do meu tio. Era um relógio de pulso muito velho e quase sem trabalhar. Refugiei-me no meu quarto, e olhei pela janela. Uma pomba pousou no parapeito mas depressa voou para bem longe, para o mar. Foi nessa noite que prometi a mim mesma que, um dia, iria tão longe como aquela pomba. Iria sair daquela casa que só me trazia infelicidade. Não podia viver só dos sonhos. Tinha que viver a realidade.
Cresci, e logo que pude deixei a minha casa. Tirei o Curso de Direito e comecei a estagiar. Não me sentia feliz, mas já era um bom princípio.
Certo dia, apressada para uma reunião matinal com o meu chefe da Ordem, fui a alta velocidade para o trabalho. Foi nesse dia que a minha vida mudou. Ia na estrada, e não vi um homem que estava a atravessar a rua na passadeira e atropelei-o. Saí do carro e fui a correr ter com ele. Era um jovem, talvez da minha idade. Estava coberto de sangue na perna esquerda e na cabeça. Chamei de imediato o 112. Esperei, com o homem nos braços, inconsciente e cheio de sangue. A reunião não era uma prioridade naquele momento.
Fui até ao hospital e fiquei à espera de notícias. Pouco tempo depois, o médico veio ter comigo e informou-me que o rapaz tinha o osso da perna esquerda deslocado, e que esta ia ficar engessada por algum tempo. Disse-me também que ele tinha sofrido um traumatismo craniano, e que tinha perdido a memória. Só sabiam que se chamava Rui porque trazia a carteira no bolso do casaco.
Telefonei ao meu chefe e expliquei-lhe a situação. Logo que pude entrei no quarto onde o rapaz se encontrava, sem saber o que dizer. Ele estava acordado e perguntou-me logo quem eu era.
- Lamento imenso… – disse eu – Eu tinha pressa e não o vi…
- Então foi você que me atropelou…
- Pois… fui eu mesmo…
- Não comece a chorar… eu sei que não teve culpa… sente-se aqui ao meu lado e conte-me tal e qual como aconteceu.
Eu contei-lhe tudo. O Rui mostrou-se simpático comigo, nunca me quis culpar de nada. Logo a seguir a enfermeira chamou-me. Era o irmão dele ao telefone. Queria falar comigo. Ao princípio tive medo, mas o Pedro foi super querido. Disse que ia buscar o irmão no dia a seguir, e que queria conhecer-me pessoalmente. Fui para casa e no dia a seguir voltei ao hospital.
O Pedro chegou minutos depois de mim. Eu continuava a sentir-me culpada, mas sabia que o pior já tinha passado.
Esperámos e começámos a conversar. Foi aí que eu me senti pior. Ele contou-me que o Rui tinha uma doença muito rara que quase ninguém conseguia detectar. Só um profissional estrangeiro é que lhes tinha dito que essa doença era mortal. Eu fiquei em estado de choque, e senti-me de novo culpada. O Pedro explicou-me que ele a tinha desde adolescente, mas que ela podia decidir piorar a qualquer momento. Um acidente decerto não alteraria em nada o seu estado.
Ele entrou no quarto do Rui e contou-lhe isso tudo. Eu esperei impacientemente. Quando os dois voltaram para a sala de espera vinham a chorar. Aí percebi que a vida de infelicidades que eu dizia ter nada se comparava à vida daqueles dois jovens. Decidi ir para o trabalho e esquecer que os tinha conhecido. Não queria arranjar mais problemas do que os que já tinha. Mas ouvi alguém chamar-me:
- Susana, espere… – enquanto o Rui se despedia dos médicos, o Pedro chamou-me e eu voltei-me – Não se vá já embora…
Parecia que precisava de ajuda.
- Eu sei que não conhece bem o meu irmão, mas queria pedir-lhe um favor… – estava nervoso.
- Diga… eu não tenho pressa… – embora quisesse esquecer aquilo tudo rapidamente.
- O Rui é um rapaz muito sensível, vive com a nossa mãe em Lisboa e raramente se diverte porque ela quase não o deixa sair de casa. Não tem verdadeiros amigos há muitos anos e precisa de alguém que goste dele (além da família) e que o faça ter de novo razões para sorrir. Eu vivo no Porto e já pedi isto a milhares de pessoas mas nenhuma delas aceitou o desafio. Achei que talvez você quisesse ajudar…
Garanto que não estava à espera, mas tive muita pena do Pedro. Ele só queria que o irmão fosse feliz, como eu quisera ser desde criança. E, pela primeira vez, percebi que não custa nada ajudar.
- Pode contar comigo – foi a minha resposta.
Continuei a trabalhar, e nas férias de Verão fui buscar o Rui a casa. Perguntei-lhe onde é que ele queria ir. Respondeu-me que queria conhecer Portugal, visto não se lembrar de antes ter conhecido aquele país. No primeiro dia levei-o a subir o Cristo Rei e o padrão dos Descobrimentos, a visitar o Mosteiro dos Jerónimos e a passear por Lisboa. No segundo fomos aos palácios de Sintra e comemos queijadas. O Rui já se começava a lembrar de algumas coisas, e já não precisava de andar de muletas porque a sua perna estava muito melhor. Apesar de tudo, ele parecia-me feliz. E eu também me sentia bem quando estava com ele. Conheci sítios que nem eu fazia ideia de como eram bonitos.
Nas semanas a seguir iniciámos uma viagem ao Porto. Fomos de carro. Lá, ficámos em casa do Pedro. Num desses dias ele disse-me:
- Obrigado pelo que estás a fazer. Ele parece-me estar muito feliz.
Visitámos a cidade e decidimos voltar para Lisboa. O primeiro sítio onde parámos foi Aveiro, um dos lugares mais bonitos do país, na minha opinião. Acho que o Rui também gostou muito. Depois de almoçarmos num restaurante ele pediu-me para namorar com ele. Ao princípio fiquei agradada com a situação, mas a seguir aceitei sem pensar no meu futuro. A minha vida era infeliz e horrível, e decerto que o Rui não queria saber como é que ela era. Mas na altura não pensei nisso. Nesse momento sentia-me bem, e era isso que importava.
Continuámos a nossa viagem de regresso, contentes e muito mais cultos.
Quando as férias de Verão acabaram eu voltei a trabalhar, e o Rui também. Ele era Jornalista e trabalhava numa revista. Como ainda não podia guiar eu ia buscá-lo todos os dias ao trabalho e levava-o a casa. Até a mãe dele estava mais feliz. Tudo parecia estar a correr muito bem.
Nas férias de Natal eu e o Rui também estivemos juntos. Fomos até ao Algarve e divertimo-nos imenso. O Rui já tinha recuperado da perna. Certa noite, o Rui chamou-me e disse-me:
- Susy, quero que me faças um último favor: sabes que vais viver muito mais tempo do que eu. O teu destino é diferente do meu. E sabes que a tua vida vai ter de continuar sem mim. Por isso promete-me que, antes de me esqueceres por completo, vais escrever a nossa história e contá-la a milhares de pessoas. Falas na tua infância, na minha doença, … e não te preocupes porque podes continuar essa história mesmo que a minha já tenha acabado. Prometes-me isso? É o máximo que podes fazer por mim.
Eu fiquei muito triste porque parecia que ele sabia que o seu tempo estava a acabar, o que podia não ser verdade. Mas prometi-lhe que escreveria a história da nossa vida.
Passei o Natal em casa da mãe do Rui e do Pedro, também com eles os dois. Éramos uma família feliz, no verdadeiro sentido da palavra.
Mas esta história começou com «Por vezes a vida é muito injusta…», certo? E é quando tudo nos corre bem que surgem as situações mais complicadas e de tristeza.
Em meados de Março, o meu trabalho estava a correr muito bem. Deram-me um caso importantíssimo em que eu não podia falhar.
Numa sexta-feira ao fim da tarde eu estava numa das sessões no tribunal. Depois de falar ouvi o meu telemóvel tocar. Era o Pedro. Tive que atender mesmo ali.
- Susy… não sei como te dizer isto…ah…o Rui estava a sentir-se mal…. com febre e dores… e a minha mãe chamou o 112… ele já vai a caminho do hospital… se puderes ir ter a casa da minha mãe…
Oh não. Oh não mesmo. Eu não estava nada à espera, mas nem pensei antes de agir. Levantei-me e saí da sala sem dar explicações a ninguém. Tinha assuntos mais importantes para tratar sem ser os problemas do suposto culpado.
Fui até à casa da mãe deles e o Pedro também estava lá. Tinha ido a Lisboa em trabalho, soube da notícia e chamou-me. Fomos os três para o hospital.
Chegámos ao mesmo tempo da ambulância, porque sabíamos de um atalho mais rápido. Fui a correr e vi o Rui numa maca. Consegui falar com ele, mas ele é que quis falar:
- Susy… obrigado por tudo… adoro-te e ao Pedro também…nunca vos vou esquecer… escreve a nossa história e sê feliz…
E foi só. Eu não consegui dizer nada. Limitei-me a ouvir e a repetir ao Pedro e à mãe o que ele tinha dito. Esperámos muito tempo pela médica:
- Lamento imenso. – disse – O coração dele não aguentou a doença. Aconteceu mais cedo do que previsto, mas não pudemos fazer nada.
Nós chorámos e não tínhamos conforto possível. Abracei o Pedro porque não aguentava a pressão. Nenhum de nós estava à espera que aquilo acontecesse tão depressa, nem mesmo o Rui. Ainda hoje, quando conto isto, caem-me lágrimas dos olhos. Foi um momento marcante na minha vida. Não o podia esquecer.
O Rui fez parte da minha vida e ainda hoje faz. Tal como lhe prometi, aqui está a nossa história que ele tanto queria que eu escrevesse. Ele já desapareceu há dois anos, mas só hoje é que eu tive coragem de a contar, com a ajuda do Pedro.
Vivo com ele há um ano, e casámos há quatro meses. Tentámos reconstruir a nossa vida esquecendo que nos tínhamos conhecido, mas não conseguimos. Acabámos por o fazer juntos. Eu fui expulsa da Ordem dos Advogados por ter abandonado o Tribunal naquele dia, mas passados seis meses aceitaram-me de novo.
Agora vivo no Porto com o meu marido, o Pedro, com quem sou muito feliz.
Naquela noite, quando fiz dez anos, vi aquela pomba voar para bem longe. Prometi que iria fazer o mesmo. Até agora não tinha conseguido, mas acho que , finalmente, cheguei ao auge da minha vida. Nunca fui tão feliz. Do passado guardo apenas boas recordações. Do presente, direi daqui a alguns anos. Mas também devem ser muito boas.

1 comentário:

Teka disse...

Estou sem palavras.....
FANTÁSTICO....