sexta-feira, 16 de março de 2007

Memória de uma tragédia

Eram oito horas e meia quando Pedro Sousa chegou ao 78º piso da Torre Sul do World Trade Center. Tinha subido no elevador e chegara rapidamente ao seu posto de trabalho, o First Commercial Bank. À primeira vista, como Pedro achara quando ali fora pela primeira vez, ambas as Torres Gémeas pareciam muito grandes. Uma vez lá dentro, quaquer pessoa ficava fascinada com os seus 110 pisos, mas as muitas empresas que lá existiam não eram tantas como isso. Era agradável trabalhar lá, pensava, principalmente num piso tão alto como o 78º. Quando acabara o curso de contabilidade em Lisboa, Portugal, nunca imaginara sequer ir viver para os Estados Unidos da América, muito menos trabalhar num dos mais altos e famosos edifícios do mundo. Por isso, sentia-se feliz por estar ali.
Naquele dia, onze de Setembro de 2001, tudo parecia estar na mesma. Tal como nos outros dias, as mais de cem pessoas que trabalhavam naquele piso estavam empenhadas em fazer concorrência umas às outras. O First Commercial Bank tinha um adversário, por alguns considerado inimigo, exactamente no mesmo piso, na mesma Torre: o Thompson Financial Baseline. Pedro considerava-o um adversário à maneira, e, por isso mesmo, um possível inimigo. Ainda por cima, a pessoa que mais detestava encontrava-se entre os trabalhadores desse banco, algures naquele 78º piso. João Fernandes, também português, era conhecido de Pedro desde que ambos tinham começado a trabalhar na Torre Sul. Desde essa altura, e desde que ambos tinham conseguido um cargo importante nas suas empresas, tratavam-se como verdadeiros inimigos. Mal se falavam, e, quando o faziam, não poupavam críticas. Detestavam-se mutuamente e isso notava-se, talvez porque eram ambos portugueses e ocupavam o mesmo cargo nas suas empresas.
Pedro não costumava chegar tão cedo ao trabalho. Normalmente, começava a trabalhar depois das nove, porque o trânsito era sempre infernal. Porém, naquele dia, levantara-se mais cedo e fora até à Torre Sul, conseguindo chegar antes das nove horas. Assim talvez pudesse adiantar trabalho de manhã, e sair mais cedo à tarde.
- Good morning. – cumprimentou uma colega.
Pedro tinha-se detido ao lado do elevador, abrangido por todos aqueles pensamentos. Mas depressa tomou consciência de que tinha que ir trabalhar.
- Good morning. – respondeu, caminhando até ao seu gabinete.
No caminho, cumprimentou vários colegas até entrar, finalmente, no seu escritório sem tecto. Abriu a porta, olhando uma vez mais para a placa que estava lá colada, da qual se orgulhava:

PEDRO SOUSA
FINANCIAL DIRECTOR

Os americanos não tinham aceite muito bem o seu nome português. Diziam que era de difícil pronúncia, mas tinham acabado por se adaptar a ele. Pedro estudara inglês antes de ir viver para os Estados Unidos. Sabia o essencial, mas queria aperfeiçoar o sotaque americano. Vivia lá desde há um ano, e acabara por se habituar a falar inglês todos os dias. Já era parte da sua rotina.
Sentado na cadeira, Pedro olhou pela janela. O que mais o fascinava em trabalhar ali era, exactamente, a vista que tinha do seu escritório. Conseguia ver o Empire State Building, a Estátua da Liberdade, e muitos outros edifícios que ainda não tivera tempo de conhecer. Comprara um apartamento, quando chegara à América, mas até agora ainda só o usara para comer e dormir. O trabalho ocupava-lhe muito tempo da sua vida, e ainda não conhecia quase nada de Nova Iorque. Talvez fosse por isso que gostasse tanto de olhar pela janela. Via as ruas de Nova Iorque, sempre com uma multidão imensa de gente; o trânsito maçador e os carros parados; e observava todo aquele ambiente que tanto o cativava. Tinha nascido em Lisboa, Portugal, e talvez fosse o amor ao ambiente cosmopolita daquela pequena cidade que o atraía em Nova Iorque. Mas Lisboa em nada mais se comparava à grandeza daquela maravilhosa cidade, considerada uma das maiores e mais bonitas de todo o mundo.
Durante um quarto de hora, Pedro adiantou algum trabalho, concluindo que sair mais cedo era agora mais fácil. Vendo uns papéis importantes em cima da sua secretária, levantou-se da cadeira e levou-os até um colega, para ele os ver. Ao sair do seu gabinete, reparou na quantidade de gente que tinha chegado depois dele. O piso estava completamente cheio, e, só de imaginar os outros 109 cheios, sentia arrepios por saber que estava tanta gente dentro daquele edifício. E que a Torre Norte estava igualmente cheia.
Pedro conhecia muitas pessoas que lá trabalhavam, mas só de vista. Ao longe, observou o seu adversário mais directo, João Fernandes, que estava dentro do seu gabinete sem tecto. Mas logo deixou de o oservar, e prestou atenção ao trabalho que o seu colega estava a verificar. Tudo parecia normal, até que se ouviu um barulho estranho, parecido com o som de uma explosão. Ao olhar para a rua, Pedro viu que um avião acabara de embater contra a Torre Norte, provocando um suspiro de medo entre os seus colegas de piso. Aproximou-se da janela, vendo que todo o horror lhe estava a passar à frente. Ainda passou as mãos pelos olhos, para ver se aquilo não era só um sonho mau, mas depressa percebeu que aquele dia, aparentemente normal, se estava a transformar num pesadelo real. Algumas pessoas desceram as escadas do seu edifício e fugiram para a rua, com medo que algo acontecesse. Mas Pedro deixou-se ficar, tal como muitas outrs pessoas. Ficou a olhar, horrorizado, para a Torre Norte, sem saber o que fazer. Algumas pessoas tinham começado a saltar dos seus pisos para o chão, apercebendo-se de que nada mais podiam fazer para se salvar. Era uma situação muito estranha, pensava Pedro, questionando-se como é que um avião se desviava tanto do seu percurso e caíra exactamente naquela Torre. Mas o horror que ele e os colegas de piso estavam a ver, não se comparava a nada que já tivesse visto. Ficou pasmado a olhar para a Torre, horrorizado pelas imagens que lhe passavam pelo rosto. Nem sequer lhe ocorreu fugir, mas não sabia o que fazer. Aquilo era, simplesmente, horrível.
Apesar de estar muito ao longe, devido à grande área do piso, Pedro conseguia ver que João estava a falar ao telemóvel. Apesar de não se dar com ele, Pedro observava-o e ouvia muitas conversas. Sabia que João estava a falar com a mulher, Margarida, com quem falava sempre às nove horas de cada dia. Tinha a certeza de que ele mantinha uma relação bastante forte com ela, apesar de viverem em dois continente separados. Ela vivia em Portugal, mas ia lá visitá-lo muitas vezes. Pedro só a tinha visto uma vez, mas sabia que João não gostava de viver longe. Apesar de o odiar, nunca se esquecera que, um dia, João o ajudara como nunca ninguém tinha feito. Quando Pedro tinha ficado preso no elevador da Torre, um dia de manhã, pensava que ia morrer. Sempre tivera um pouco de claustrofobia, e entrou conpletamnete em pânico quando viu que estava parado uns andares abaixo do seu. Ao ouvir uma voz vinda de cima, reconheceu-a de imediato. Era João, que dizia que o ia ajudar a sair dali. Pedro nunca descobrira se ele sabia que era o seu maior inimigo que estava preso, antes de o ajudar, mas calculara que sim. Mal ele carregou no botão, o elevador subiu e Pedro pôde, finalmente respirar fundo, agradecendo-lhe. Apesar de odiar, não lhe queria mal, e sabia que, pessoalmente, ele não era má pessoa.
Decerto estavam a falar sobre a Torre Norte. Margarida devia estar alarmada, mas João não era pessoa para desistir. Pedro sabia que ele ia ficar no edifício, e que não tinha medo de nada. Nesse aspecto, eram muito parecidos. Voltou-se, de novo, para outra Torre, vendo que o fumo e o fogo que dela saíam estavam a dificultar o trabalho dos bombeiros que já tinham chegado ao local. Estava com medo, mas não esperava, decerto, o que estava prestes a acontecer. Não teve tempo para pensar em mais nada, porque começou a ouvir os gritos de ansiedade das muitas pessoas que tinham ficado no seu piso. Virou-se para o outro lado da sala, e, ao olhar para a janela, viu exactamente o que receava, em silêncio, ver.
Quando tomou consciência do que estava a acontecer, só lhe ocorreu refugiar-se num sítio seguro. Quando o segundo avião embateu na Torre Sul, Pedro estava ainda em pé, fugindo apressadamente para debaixo de uma mesa. Ao ouvir o estrondo, teve a sensação de surdez, mas depressa percebeu que estava bem. A mesa que o protegia partiu-se, e Pedro sentiu um pedaço do tecto a cair-lhe sobre a perna. Ainda tentou tirar a perna da zona de impacto, mas já não foi a tempo. Quase não a sentia, e receou que estivesse partida. Com os braços, conseguiu tirá-la de debaixo dos destroços e levantou-se, tentando andar. Era um homem forte, e sabia que ia conseguir avançar. À sua volta, via uma quantidade inimaginável de destroços, e o horror tomou, uma vez mais, conta da sua mente. Havia pessoas entre os destroços. Muitas pessoas. Pouca gente estava em pé, e os que estavam apressaram-se a fugir pelas escadas da Torre. Mas Pedro não conseguia pensar em nada naquele momento. Tudo à sua volta parecia uma morgue, o que nunca imaginara presenciar. Estava a tentar movimentar a perna quando, aos seus pés, viu o corpo do colega que estava a verificar o trabalho que lhe dera. Ainda se baixou, tentando ver a pulsação, mas viu que o colega já estava morto. Levantando-se, e olhou para si mesmo. Tinha a camisa rasgada, as calças sujas e a cara ferida, sentindo-se totalmente perdido. Os escritórios sem tecto estavam, na sua maioria destruídos, e o silêncio tomava conta daquela morgue terrível. Olhou para o tecto e viu um bocado do avião, ainda seguro pelo que restava do chão do piso 79. Continuavam a descer pelas escadas muitas pessoas, vindas do andar de cima, apesar de tudo parecer perdido. A claustrofobia estava, de novo, a apoderar-se de si, e Pedro sentia-se preso num cubo de gelo, totalmente inquebrável.
Ao ouvir um som estranho, Pedro virou-se. Parecia alguém a chorar, mas, ao mesmo tempo, parecia que o som vinha de longe. Foi aí que Pedro se lembrou de João. Correu como pôde para o último sítio que se lembrava de o ter visto, mas deteve-se quando o viu no chão. Ainda estava vivo, e segurava o telemóvel na mão. Dele, ouvia-se uma voz feminina, de total desespero.
- João… – tremia Margarida, a sua mulher, ao telefone. – Por favor… dá-me um sinal… diz-me que estás vivo…
Pedro baixou-se e tentou ajoelhar-se, ignorando as dores que tomavam, agora, conta de si, e o fumo que abrangia o ambiente. Pegou no pilar que tinha atingido João, e que o impedia de se movimentar. Era pesado, mas Pedro conseguiu empurrá-lo para longe. Tirou a camisa e rasgou-a, tentando, com um pedaço de tecido, estancar a hemorragia que João tinha no braço que segurava o telemóvel. João mal conseguia respirar, mas estava consciente do acto de Pedro.
- Obrigado… – sussurrou, em esforço, pousando o telemóvel no chão.
- Estava a dever-te uma… – Pedro ameaçou sorrir, mas não tinha a mínima intenção de o fazer.
Ao ver um dossier no chão, um pouco sujo e estragado, Pedro pegou nele e levantou a cabeça de João, pousando-a em cima dele. Tentou pegar em João, mas ele tinha demasiadas dores. Seria impossível descer as escadas com ele. Margarida tinha-se calado, mas ouvia-se um leve choro do outro lado da linha. Pedro lamentou não poder fazer nada para salvar João. Sabia que ele não ia sair dali vivo, e queria ficar com ele nos seus últimos minutos. Era o mínimo que podia fazer.
- Desculpa… – pediu João, esforçando-se por se fazer ouvir. – Por tudo o que te fiz…
- Eu também te peço desculpa… – disse Pedro, deixando cair uma lágrima do olho.
- És um bom homem. – continuou, sabendo que não lhe restava muito tempo de vida. – Faz-me um favor…
O único favor que Pedro lhe queria fazer, naquele momento, era tirá-lo dali vivo, mas sabia que era preciso um milagre para ele sobreviver.
Ouviu um barulho do outro lado da sala. Um dos seus colegas no banco levantara-se do chão, e corria para as escadas.
- Let’s run… – disse-lhe, tentando incentivá-lo a fugir. Mas Pedro não podia ir. Não agora. Virou-se, de novo para João.
- Diz à Margarida que eu a amo… – falou, por fim. – E foge.
Foram as suas últimas palavras. Pedro ainda lhe pegou na cabeça, tentando ajudá-lo a levantar-se, mas não conseguiu. Começou a chorar, e abraçou-o como nunca imaginou fazer. Tal como sempre acreditara, João era boa pessoa. Era pena que só o tivesse percebido quando estava a morrer. Sentia-se um verdadeiro idiota por isso. Não conseguiu conter as lágrimas, e chorou tudo o que tinha para chorar.
- Come on… – chamou-o o colega, que esperava impacientemente no cimo das escadas.
Ao ver o telemóvel do amigo no chão, Pedro pegou nele e levantou-se, olhando uma vez mais para o corpo. Lamentava ter chegado tão tarde. carregou no botão vermelho do telefone, desligando a chamada. Não tinha coragem para falar, naquele momento. Olhou uma última vez à sua volta, vendo o horror que o rodeava. Era uma tragédia impossível de esquecer. Continuava a saltar gente da Torre Norte, e ouviam-se agora gritos de socorro vindos da rua e da Torre Sul. Pedro só queria conseguir salvar todas aquelas pessoas, mas sabia que não podia controlar o tempo. Tinha que fugir dali imediatamente, porque o fumo já lhe estava a dificultar a respiração.
Caminhou até às escadas, empoleirando-se no colega para andar. A única escada aberta era a Stairway A, que estava completamente livre. Desceram as escadas, ambos horrorizados com o terror daquela pacata manhã. Pedro olhou para o relógio. Eram nove horas e vinte. Os bombeiros deviam estar a chegar, mas só iam encontrar destroços. Pedro sabia que todo o prédio estava condenado.
Quando chegaram à rua, depois de descerem 77 pisos, puderam, finalmente, respirar fundo. Pedro sentiu-se, de novo, livre do cubo de gelo, como se alguém o tivesse quebrado. Foi logo assistido pelos médicos no local, apercebendo-se que a perna não estava partida, mas apenas ferida. Tinha que ir para o hospital, mas depressa ficaria bom. Enquanto os bombeiros subiam as escadas para os pisos afectados, foi dada a indicação de que as pessoas tinham que se afastar ainda mais do edifício. O fumo já cobria o ar, e ninguém desejava mais vítimas daquele terrível imprevisto. Ao longe, a vista era desoladora. Quando, momentos antes, Pedro olhara pela janela, nunca lhe passara pela cabeça detestar, momentaneamente, viver ali e, sobretudo, ter chegado mais cedo. Por esta hora, devia estar a chegar à Torre Sul para começar a trabalhar, e não a sair dela por um inexplicável suposto acidente. E dava tudo para não ter assistido à morte do amigo, embora ele só se tivesse tornado seu amigo naquela ocasião. Mas é para isso que eles servem.
Pedro foi levado para o hospital mais próximo, que estava um verdadeiro caos. Trataram-lhe rapidamente da perna, e só precisava de descansar durante uns tempos. Levantando-se da cama, Pedro olhou para o telemóvel que tinha em cima da mesa-de-cabeceira. Não, ainda não estava preparado. Olhou pela janela do hospital, que estava fechada devido ao fumo que ainda estava no ar. Por volta das dez horas e cinco, Pedro viu outro horror. A Torre Sul, onde trabalhava há um ano, e o monumento que mais o fascinava em Nova Iorque, estava agora a cair sobre si mesmo. Era a destruição total. De cima a baixo, tudo desapareceu numa questão de minutos. Pedro voltou para a cama e tentou adormecer, ainda lutando para abandonar todas as imagens daquela manhã. Mas não conseguia. Ligou a televisão do seu quarto com o comando à distância. Era impossível esquecer o que tinha acontecido. Todos os canais davam a mesma notícia. «Acidente no World Trade Center faz milhares de vítimas mortais. Dois aviões embateram violentamente nas duas Torres Gémeas, e a Torre Sul acabou de desaparecer em Nova Iorque.».
Era uma autêntica tragédia. Pedro nunca tinha visto nada assim. Ao ver imagens das pessoas a saírem da Torre Norte, a única que continuava em pé, Pedro não conseguiu conter as lágrimas, e baixou a cabeça num momento de dor e desespero. Tinha perdido amigos, naquele acidente. E, acima de tudo, tinha perdido a vontade de viver.
- Esteve lá? – perguntou, em inglês, o homem que se encontrava na cama ao lado. – Na Torre?
Pedro levantou a cabeça e olhou-o nos olhos. O homem estava bastante ferido, tinha um braço partido e mal conseguia falar.
- Sim. Na Torre Sul. – respondeu.
- Eu estava na Torre Norte, no piso que o avião atingiu. Só tive tempo para correr para as escadas, mas fui apanhado por uma «chuva de destroços». O meu melhor amigo estava lá.
- Lamento.
Ao ver que o homem estava bastante triste, Pedro quis dizer-lhe que sabia o que isso era, mas não teve coragem. Limitou-se a mudar de canal para ver se havia mais informações. Só mais tarde é que viu o desaparecer da Torre Norte, em directo, na televisão, porque preferiu não ir à janela ver. Ainda nas notícias, disseram que outro avião atingiu o Pentágono, mas que não tinha sido nada de grave, e que um outro avião tinha sido desviado para outro sítio, mas que se despenhara num bosque. Nas horas a seguir, adiantaram que um grupo terrorista, a Al-Quaeda, tinha anunciado que tinham sido eles a desviar os quatro aviões, com o propósito de atingir monumentos com muita gente nos Estados Unidos, através de bombistas suicidas. Pedro nem queria acreditar. Não era o único a querer vingar-se, mas aqueles homens eram uns autênticos génios, para conseguirem desviar quatro aviões quase simultaneamente. E Pedro preferia que não fossem. Desligou a televisão e adormeceu, tal não era o cansaço daquela manhã.
Uma semana depois, quando pôde, finalmente, sair do hospital, Pedro foi à procura de algumas pessoas que trabalhavam no Thompson Financial Baseline, para saber informações de João. Tinha decidido duas coisas: primeiro, não ia telefonar a Margarida, porque preferia falar-lhe pessoalmente; e segundo, ia regressar a Portugal. Foi o que os seus superiores lhe aconselharam, e Pedro sabia que era o melhor para ele. Um amigo de João, que não fora trabalhar a onze de Setembro, ficou surpreso por ver Pedro. Porque é que ele havia de querer saber a morada da mulher de João, se eles se odiavam? Mas fez-lhe a vontade e voltou à sua vida.
Passados alguns dias, Pedro apanhou o avião para Lisboa, sempre com receio de ver repetida a história daquele dia. Agora, andar de avião parecia mais perigoso e assustador. Já tinha a morada de Margarida, e achava que estava pronto para a enfrentar. Só não sabia o que lhe dizer.
Chegou a Portugal, apanhou um táxi para casa e arrumou as suas coisas. Tinha saudades de estar ali, embora estivesse habituado ao ambiente cosmopolita que tanto o fascinava em Nova Iorque. Pegou no telemóvel de João, vestiu uma camisa e umas calças, e saiu para a rua. Ali, o ar parecia mais ouro do que o que tinha respirado nos últimos dias. Sentia-se em casa, e sabia que era ali que devia ficar.
Quando chegou à morada que tinha escrita no papel, Pedro respirou fundo. Sabia que não ia ser fácil, mas estava disposto a arriscar. Pelo menos, por João. Prometera-lhe fazer um favor, e estava ali para cumprir a sua promessa. Bateu à porta e esperou. Quando Margarida Fernandes abriu, estava mal vestida e com olheiras. Tinha estado a chorar e sentia-se perdida. Tinha perdido a pessoa que mais amava, e estava sozinha a chorar a sua morte.
- Posso ajudá-lo? – perguntou, limpando as lágrimas.
- Chamo-me Pedro Sousa, e conheci o seu marido.
Margarida quis mandá-lo embora, mas sabia que precisava de um ombro amigo. Deixou-o entrar e ambos se sentaram no sofá.
- Talvez fosse o seu maior inimigo – continuou Pedro –, mas fui eu que estive com ele nos seus últimos minutos.
- Ninguém esteve com ele quando morreu. – disse, sarcasticamente. – Eu estava ao telefone com ele.
- Eu sei. – fez uma pausa. – Fui eu que lhe desliguei a chamada, quando vi que já não podia fazer nada por ele.
Margarida lembrou-se. Não tinha sido ela a desligar a chamada, e João já estava morto. Tinha sido aquele homem que ouvira as últimas palavras do seu marido.
- Se odiava o meu marido, o que é que está aqui a fazer? Porque é que esteve com ele quando ele morreu?
Pedro tirou o telemóvel de João do bolso, e entregou-lho.
- O João pediu-me para lhe dizer que a amava. E eu vim cumprir a minha promessa.
Pedro tinha vontade de chorar, mas quis conter-se.
- Ele era um bom homem. – continuou.
Margarida guardou o telemóvel, aumentando as lágrimas que lhe caíam do rosto.
- Por favor, vá-se embora. – disse, pondo-se em pé. – Não aguento mais esta pressão. Saia e nunca mais volte.
Ela virou-se e começou a chorar compulsivamente, pousando o telemóvel e agarrando-se à cara. Pedro quis obedecer, mas antes tinha que lhe dizer o que lhe ia na alma.
- Lamento a morte do João, e, sobretudo, lamento só o ter conhecido bem naquele dia. Mas acredite, quem me dera ter ficado lá na vez dele. Dava tudo para não estar a falar consigo, e para não ter estado na Torre. Quem me dera não a ver a sofrer, nem a si nem ao João, naquele dia. Acho que foi por ele que lhe desliguei a chamada, porque já não vos conseguia ver sofrer mais. Ele amava-a mesmo, e decerto lamenta não estar aqui, agora.
Margarida ouviu as palavras sentidas de Pedro, mas continuou virada de costas, a chorar. Só quando o ouviu abrir a porta, e depois fechá-la, é que percebeu que precisava de alguém para a ajudar a ultrapassar aquilo. Pedro, apesar de não gostar de João, não o abandonara, e cumprira a sua promessa. Também ele era um bom homem. E sentia-se disposto a voltar atrás no tempo, para morrer na vez dele. Só aí percebeu que tinha cometido um grande erro em tê-lo mandado embora.
Pedro saiu, feliz por ter dito o que pensava. Agora, não tinha mais nada a dizer. Sentia-se fraco, ainda mais do que antes, mas não podia fazer nada. Tinha que seguir em frente. Tinha feito o que devia.
Atrás de si, começou a ouvir alguém correr. Quando se virou, viu Margarida a dirigir-se a si, num passo apressado. Só teve tempo de a receber nos braços e de chorar com ela. Ficaram ali, abraçados, durante imenso tempo, mas isso não importava. Ambos partilhavam a dor de perder alguém, e sabiam que precisavam de a partilhar um com o outro. Nenhum deles ia esquecer aquela tragédia, mas as lágrimas, com o tempo, iam acabar por limpar a dor, embora a memória das vítimas ficasse, para sempre, nos corações do mundo.


Em memória de todas as vítimas da tragédia de 11 de Setembro de 2001

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