segunda-feira, 19 de março de 2007

utopias e pores-do-sol à beira-mar

Estava um dia de sol. O calor não apertava, mas a tarde estava agradável. Sentada na areia, observava a praia e a água do mar. O pôr-do-sol estava, verdadeiramente, fantástico, e eu não o trocava por nada deste mundo. Comecei a observá-lo com mais atenção; sentia-me nova sempre que o via. Parecia que o mundo se tornava algo melhor, algo nunca antes visto. E talvez, só mesmo talvez, ele ficasse assim para sempre.
Dei por mim a sorrir para o sol, como se ele me fizesse a pessoa mais feliz do mundo. Senti um vento a aproximar-se, e olhei à minha volta. Não vi ninguém. Nos dias de Inverno, as pessoas não gostavam de ir à praia. Mas eu sempre adorei observar o pôr-do-sol, à beira-mar, especialmente no Inverno.
Voltei o meu olhar para a areia e peguei nalguns grãos, largando-os ao sabor do vento. Por uns instantes, fechei os olhos, sentindo o vento a pegar nos meus pensamentos e a levá-los para bem longe. De repente, dei por mim a sorrir, novamente, e apetecia-me ficar ali para sempre.
Só voltei a abrir os olhos quando senti alguém atrás de mim. Por momentos, os meus olhos recusaram-se a abrir totalmente, mas depois tudo ficou claro. O sol ainda lá estava, embora com uma cor mais alaranjada. Mas não era isso que importava, naquele momento. Quando senti a sua mão nas minhas costas, senti-me ainda melhor.
- Joana… – disse ele, retirando a mão do meu ombro e sentando-se ao meu lado, na areia. Vi-o a sorrir para mim, e encostei a minha cabeça no seu ombro. Adoro vê-lo sorrir, mas, naquele dia, só me apetecia abraçá-lo. E só queria que aquele momento nunca acabasse, e durasse para sempre.


Senti alguém a abanar-me, mas desta vez foi a sério. Abri os olhos e vi a minha irmã. Ela estava a gritar qualquer coisa sobre estarmos atrasadas para ir almoçar. Foi aí que percebi que tinha estado a sonhar. Depois, num pulo só, levantei-me da cama e fui a correr para a janela do meu quarto. Observei a praia, de dentro de casa, e, embora me sentisse desiludida por ter estado a sonhar, aquele tinha sido o melhor sonho da minha vida. Ao ver a areia da praia, e o azul do mar, senti uma nova esperança a apoderar-se de mim. Vi o meu reflexo no vidro, ainda em pijama, e vi que ainda estava a sorrir. E que ainda me sentia nos braços dele. E aí, só aí, percebi que estava apaixonada. Não sei se por ele, ou só pela vida em si, mas, nesse momento, soube que devia acreditar nos sonhos.
- Joana! – ouvi a minha irmã chamar, furiosa. E lembrei-me de ele ter dito o meu nome, no sonho. Então, decidi ir à praia, nesse dia à tarde, para ver o pôr-do-sol. Porque talvez, e só talvez, o meu sonho se tornasse realidade, e talvez me sentisse, de novo, a pessoa mais feliz do mundo.

Ser Pedro e Inês

Não tinha sono. Não tinha fome. Não tinha vontade de viver mais. Sentia-me perdida, sem nenhum lugar para me esconder daquela vida miserável. Já tinha sido feliz, isso era certo. Mas de que me serviria uma vida feliz se, dali para a frente, depois de tudo ter acabado, não me apetecesse mais nada senão morrer?
Foi aí que me lembrei. Diziam que era a mais bela história de amor, e eu sempre concordara. Até mesmo mais bonita do que a minha própria história. Mas era uma tragédia, e embora mostrasse a força do amor, não tinha um final feliz. Tal como a minha. A morte leva-nos as pessoas mais queridas, sem aviso ou sinal. E a dor é o mais difícil de ultrapassar.
Ao lembrar-me da lenda, tentei pôr-me no lugar de Pedro, talvez para perceber como seguiu com a sua vida. Mas, tal como só me conseguia lembrar da pessoa que amava, só consegui imaginar o dia da morte daquela jovem rapariga. E, ao criar um universo daquele dia, a dor e as lágrimas voltaram.
Estava na Quinta das Lágrimas, em Coimbra. Vi a fonte dos Amores, as águas do Mondego a percorrerem o seu caminho, e as árvores a participarem no sussurrar do vento, numa melodia agradável. Era assim que imaginara a vida harmoniosa e apaixonada dela. E, ao olhar para a fonte, vi-a. Bela, com um sorriso de paixão contagiante, e uma felicidade invejável. Era muito branca, e o seu vestido era comprido e elegante. Com ela, encontravam-se os filhos que tinha de Pedro, que exibiam sorrisos de alegria. Sim, ela era Inês. A bela e malograda Inês de Castro.
A harmonia daquele dia de Sol, e a felicidade que Inês e os filhos irradiavam, nada faziam imaginar a tragédia que se seguiria. E era esse o momento que temia. Mas era também por sua causa que estava ali, a viver aquele dia, como se da morte do meu marido se tratasse. Ainda tentei acordar do sonho, carregar no botão «stop» ou parar o tempo. Mas sabia que não podia. Não agora, que sabia que tinha de ver aquilo. E vi, apagando tudo à minha volta com uma borracha invisível, e esquecendo o presente que tanto me abalava.
Os carrascos levaram Inês para junto do Rei, e, com os seus olhos molhados e a sua expressão inocente, quase o conseguiu convencer a poupar-lhe a vida. Mas a determinação falou mais alto, e nada nem ninguém conseguiu evitar a tragédia. No momento em que a espada atravessou o corpo de Inês, ouviu-se um último grito a vir da sua voz. Um grito que ecoou pelas paredes do mundo, e que pareceu desvanecer-se no ar, tão subitamente como quando aparecera. Inês gritara bem alto o nome de Pedro.
Depois do momento trágico, vi o céu a encobrir-se e o silêncio da Natureza a ganhar forma. O tempo parou como e o próprio mundo estivesse a acabar. E vi, pela última vez, o rosto de Inês, que mostrava uma amargura só comparável às lágrimas que eu própria estava a chorar. A sua expressão não significava medo de morrer, mas sim preocupação por Pedro e pelos filhos. E percebi, então, que isso é que é amar.
Não é ser feliz, não é estar bem, não é ser amado. O amor significa amar alguém mais do que nos amamos a nós próprios, e colocar a sua felicidade acima de tudo na vida. Nada é mais importante do que ver essa pessoa sorrir, mesmo que seja por um momento apenas. E só quando regressei à realidade é que percebi que o que tinha vivido era real.
A dor passará, um dia, e a alegria de ter amado alguém voltará. Mas, mais importante do que isso, o amor nunca vai passar, e nunca será esquecido. Mais do que a tragédia, o amor engloba a felicidade de uma história romântica, como a própria vida de Pedro e Inês. Nem que seja por um dia, vale a pena viver a sua história. Porque o amor é o melhor sentimento que podemos experimentar.
Foi aí que decidi limpar as lágrimas e seguir em frente. Esquecer o passado de nada serve, mas recordar os bons momentos faz com que nos sintamos sempre completos.
Olhei-me ao espelho, e, em vem de descobrir um rosto amargurado, vi uma lágrima ao canto do olho, e um nariz avermelhado. Mas, mais importante ainda, descobri um sorriso. Leve, mas ainda assim um sorriso. E sorri ainda mais ao perceber que nunca iria deixar de o amar.

uma vida num olhar...

Era uma velha, muito velha. Revelava-se uma figura algo distante, longínqua. Isso talvez se devesse ao facto de estar a olhar fixamente para a televisão, fazendo dela o seu ponto de distracção. Ou talvez se devesse à sua expressão desgastada, pelo tempo ou pela vida passada.
Tinha o cabelo curto, grisalho e áspero, mas, ao mesmo tempo, notava-se um toque brilhante. Era algo ondulado, embora desse para perceber que naquele dia se esquecera de pôr os rolos. Ou talvez os caracóis já tivessem desaparecido, com a idade. Os seus olhos eram azuis, mas o brilho alterava conforme a luz que vinha da televisão. Quanto mais clara fosse a luz que ela transmitia, mais claros ficavam os olhos da mulher, e se eles estivessem escuros era porque a luz era fraca. Começavam por ser de um azul-turquesa muito claro, de seguida ficavam mais escuros, até parecerem o azul do céu à noite. A verdadeira cor azul dos seus olhos era posta à prova, e quase ficava irreconhecível.
A sua expressão era suave; cansada, mas, inesperadamente, alegre.
Também o brilho do seu rosto de alterava. A luz tornava as suas rugas da cara e da testa mais visíveis e evidentes. Notavam-se olheiras debaixo dos olhos da mulher, como se fossem dois papos definitivos. Talvez fossem. Ou talvez figurassem apenas no seu rosto por falta de sono. Talvez ela tivesse ficado horas a olhar incessantemente para a televisão, na noite anterior, como o estava a fazer naquela noite. Parecia completamente fixada no televisor que se encontrava á sua frente. E parecia nunca vir a abandonar o olhar de o que quer que fosse que estava a ver.
Tinha um nariz pequeno e achatado, como se não tivesse crescido mais desde os seus anos de juventude. A boca também era pequena, e os seus lábios eram de uma cor rosada. Pareciam ter sido pintados, mas há já algum tempo. Era como se os tivesse pintado de manhã, e o batom tivesse desaparecido com o tempo. Mas a sua vivacidade já tinha desaparecido, juntamente com a sua juventude. Já não tinha aquela expressão viva como quando era jovem, provavelmente, mas não era assim tão velha como podia parecer a primeira vista. As rugas davam-lhe um ar cansado, mas prudente e severo.
Vestia uma camisola de lã bastante quente e usada, de gola alta, de uma cor esverdeada. Não era corpulenta, mas não se podia dizer que era magra. Aquecia as mãos no colo, por baixo de uma manta, esfregando-as constantemente, mas sem nunca olhar para elas. Usava uma saia comprida, de um tecido quente, que lhe cobria as pernas até por baixo do joelho. A saia era castanha clara, e tinha desenhadas algumas imagens como plantas verdes e flores de diversas cores. Vestia umas collants acastanhadas por baixo da saia, e tinha calçados uns chinelos cor-de-rosa, com uma florzinha avermelhada no topo. A sua aparente falta de gosto na escolha da vestimenta devia-se, provavelmente, ao facto de estar em casa e de não ter ido à rua durante o dia. Ou então era daquelas pessoas que mudam de roupa quando chegam a casa, para se sentirem mais confortáveis. Ams o mais provável era tratar-se da primeira hipótese.
Estava sentada e recostada no sofá da sala, a repousar. A seu lado jazia uma caixa de chocolates, aberta e provocante. Dos vinte lugares que existiam na caixa, para os chocolates, só dez ainda permaneciam ocupados. De vez em quando, a velha lá tirava a mão esquerda do colo e pegava em mais um chocolate, levando-o à boca e saboreando-o. Mas nem sequer o olhava. Já o fazia com tanta naturalidade que não precisava de ver. E com a tamanha concentração com que olhava para a televisão, era provável que nem sequer se apercebesse de que estava a comer chocolates. E, de repente, os dez chocolatinhos eram reduzidos. E o número de lugares vazios aumentava.
Nove.
Continuava a olhar fixamente para o televisor da sala, como se dele dependesse a sua própria existência. E, de vez em quando, lá se alterava o brilho dos seus olhos e do seu rosto, com a luminosidade do programa que estava a ver. Estranhamente, não mudava de canal. Nem sequer pegava no comando que se encontrava exactamente ao seu lado direito, no sofá, e lhe tocava para ver outro programa. Era sempre o mesmo. Há horas. E parecia não se cansar nem um bocadinho.
Não tinha grande reacção ao que via na televisão. Por vezes, sorria, ao ver uma coisa engraçada, ou fazia uma cara descontente que dava a entender ter visto algo desgostoso. Mas nada de mais. Nem uma gargalhada nem nada parecido. Talvez fosse o sono. Ou talvez se tivesse tornado insensível, com o tempo. A verdade é que parecia não dar importância a mais nada a não ser àquele pequeno televisor que tinha à sua frente. E, ao fixá-lo, tudo o resto deixava de existir. Por vezes, até mesmo os chocolates eram esquecidos.
Levou a mão à cara, coçando-a com alguma força, como também já o tinha feito algumas vezes. Ao aperceber-se de que tinha sido uma mosca a causar-lhe a comichão, afastou-a com a mão e ela desapareceu pela porta da sala. Voltou a agarrar a mão no colo para a aquecer, e recomeçou a esfregar as mãos uma contra a outra. Também já se tinha habituado às moscas que voavam sobre a sala. Eram pelo menos três, sempre a sobrevoar a velha e o prato de comida que estava pousado na mesa da sala. Apesar de já estar limpo, o prato ainda continha vestígios de comida, e as moscas gostavam disso. A mulher olhava para o prato com um olhar maçador, como se não lhe apetecesse mesmo nada pegar nele e levá-lo para a cozinha. Seria sono? Ou apenas preguiça? Certo era que ela não se queria levantar. E permaneceu ali, sentada no sofá da sala, como já o fazia há umas horas. E voltou a olhar incansavelmente para a televisão.
Parecia não existir mais ninguém naquela casa. O silêncio reinava, como se não existisse ar, sequer. Só o leve zumbido das moscas atrapalhava o silêncio que se fazia sentir na sala, de vem em quando. Mas a velha já nem lhes ligava. Por vezes, ainda se dava ao trabalho de as enxotar, e de retirar as suas desgastadas mãos do colo para as mandar embora. Mas a maior parte das vezes já não se importava. E, ainda por mais, estava tão embrenhada no que estava a ver na televisão que nada mais parecia interessá-la.
Suave e lentamente, a velha voltou a retirar as mãos do se regaço e a expô-las ao ar frio que estava na sala. Parecia só haver uma coisa que voltava a convencê-la a agir dessa maneira: a caixa de chocolates aberta ao seu lado, que, de novo, foi tentadora. Com a mão direita, que parecia tremer (de frio ou apenas da sua velhice), pegou num daqueles pequenos chocolatinhos, devagar como um passo de caracol, e meteu-o na boca cuidadosamente. Aí, deixou-o derreter até desaparecer, finalmente. E voltou a olhar para o televisor, como se nada fosse. Mas a caixa de chocolates ficara com mais um lugar livre.
Oito.
Parecia comer os chocolates com uma naturalidade que só agora começava a mostrar. De vem em quando, virava a sua cara arredondada e rechonchuda para a caixinha ao seu lado, e observava aqueles chocolates de que tanto parecia gostar. Mas não os tirava. Nesse aspecto, parecia saber controlar-se. Olhava para as suas mãos, tapadas com a pequena manta, e parecia dizer a si própria que o frio não desaparecia. Ainda tentou aquecê-las com a boca, expirando ar quente, para ver se elas lhe obedeciam e levavam o frio embora. Depois, levou-as, de novo, ao colo, talvez por ter conseguido aquecê-las. Ou talvez por ter desistido de o tentar fazer. O que é certo, é que parou de expirar ar quente, da boca para as suas mãos rugosas, e voltou a ficar paralisada a olhar para a televisão. Como se ela fosse a coisa mais importante do mundo.
Já muito passava da hora do jantar, mas a velha continuava sem se importar com o prato sujo de comida em cima da mesa da sala. Em vez disso, voltou a esfregar as mãos no colo, enquanto se recostava melhor no sofá de cor beije. Era um dos poucos momentos que gastava sem olhar para o pequeno televisor que tanto a fascinava. Podia ser o televisor ou, simplesmente, o que ele mostrava, mas das duas uma: ou o programa que a velha estava a ver era, realmente, longo, e estava a dar há horas; ou então o canal que ela estava a ver exibia todos os seus programas preferidos, e não só ela não precisava de mudar de canal, como era completa e totalmente apaixonada por eles.
Depois de se encostar no sofá, a velha de cabelo grisalho e áspero voltou a dar uma olhadela na caixinha de chocolates de vinte lugares, como que a dizer: «daqui a um bocadinho eu como outro, mas agora ainda não. Tenho que me controlar». E não comeu. Levou o olhar da caixa e voltou a pousá-lo na televisão.
As suas pernas tremiam um pouco, da sua remota idade ou do frio que se fazia sentir. A saia tapava-lhe as pernas, e só uma fracção estava exposta ao ar. Aí, viam-se algumas varizes e cansaço; uma vida cheia de dias trabalhosos e fatigantes. Também o seu rosto quase maltratado e desgastado mostrava alguma amargura, pela própria vida ou apenas por ter chegado àquela idade onde já não apetecia viver mais. As suas rugas não pareciam ser recentes; talvez a velhice lhe tivesse chegado cedo, ou a angústia da vida a tivesse feito envelhecer mais depressa. Mas a sua expressão, apesar de suave, mostrava algo inexplicável. Talvez fosse nos seus olhos, ou na sua cara de quem tinha poucos amigos. Mas, fosse o que fosse que a perturbava, ou perturbara, em tempos, parecia ainda não ter desaparecido da sua memória. E o mistério permanecia no seu olhar.
Parecia embrenhada nos seus pensamentos; já não parecia abrangida pelo que estava a dar na televisão. Era como se se tivesse apagado do mundo exterior, apenas por alguns minutos. Continuava a fixar o televisor, mas já não com a atenção com que começara. Quando, finalmente, deu por isso, abanou a cabeça e olhou para a frente. E recomeçou a não dar importância a mais nada senão ao programa.
A certa altura, a velha começou a fazer uma cara estranha, de quem já está farto do que está a fazer. Mas, em vez de se levantar e de ir fazer outra coisa, pegou silenciosamente no comando que estava pousado no sofá, ao seu lado direito, com a sua mão enrugada, e levou-o lentamente até ao colo. Também a sua mão tremia, mas o mais provável era ser por causa do frio, e da diferença de temperatura entre o calor da saia e o ambiente. Mal voltou a pegar nele, posicionou-o na direcção da televisão, e, finalmente, fez o que já se esperava há muito tempo: carregou no botão que tinha o número um e mudou de canal. Pareceu mais feliz ao ver que estava a dar um programa que a aprazia, mas nada de sorrisos, ou de gargalhadas a mostrar os dentes. O seu ar sério e um pouco amargurado mantinha-se, sempre à frente de qualquer outra emoção mais forte. Então, pousou o comando no seu lugar inicial, que até já tinha marcada a sua silhueta. Ou talvez fosse só imaginação.
O seu cabelo grisalho estava penteado como se a mulher velha tivesse vindo de um cabeleireiro. Não tinha cabelos em pé, nem aqueles cabelos mais curtos que toda a gente tem a estragar a sua figura. As ondas do seu cabelo davam-lhe um ar mais jovial, apesar de parecerem não ter levado rolos. Os poucos vestígios de cor forte mostravam que o seu cabelo fora castanho-escuro, em tempos. Agora só lhe restavam mesmo vestígios.
Foi nessa altura que a velha olhou de relance para a caiza de chocolates, como que a verificar a sua presença. Ou tinha medo que eles desaparecessem, ou já não se lembrava que os tinha ao lado. Naquela idade, a memória já não devia ser a melhor, e talvez ela comesse demasiado queijo. A julgar pela quantidade de chocolates que faltavam na caixa, e pelo facto de parecer não existir mais ninguém naquela casa, a velha parecia ser uma mulher bastante gulosa. Mas, naquela altura, já devia de estar confusa. Não sabia se se devia controlar, ou se devia tirar outro chocolate para o comer. Olhou para a caixa pelo canto do olho, uma vez mais, e pareceu não querer resistir. Fixou-a durante uns momentos, talvez a ponderar a sua decisão. Mas não deixou escapar a oportunidade, e libertou, de novo, a mão do colo, para se apoderar de outro chocolatinho.
Sete.
Pegou no chocolate em forma de coração e levou-o à boca, cuidadosamente, sendo um caso de vida ou de morte deixá-lo cair. Apesar de pequeno, o chocolate deixou-se morder pelo estreito maxilar da sua predadora. Os seus pequenos dentes trincaram o pedaço de chocolate e levaram-no até aos molares, que, por sua vez, o esmagaram lentamente. A outra metade do chocolate foi colocada na boca da velha, de seguida, pelos seus rugosos e dormentes dedos, que depressa voltaram ao colo. O sabor do chocolate deve de a ter deliciado, porque os seus olhos se fecharam enquanto o engolia, mostrando que o seu sabor não podia ser melhor. Quando, finalmente, ele desceu pelo esófago, a velha abriu os olhos e voltou à rotina. Mas decerto o sabor do chocolate não desapareceu logo. E o mais provável era ficar na boca até lhe apetecer comer outro.
Passados alguns minutos de ter voltado a olhar para a televisão, os olhos da mulher começaram a fechar-se. Ela apercebeu-se de que não era só o sono a apoderar-se de si. Começou a fechar os olhos, distraídamente e despropositadamente, de vez em quando, mas depressa voltava a abri-los. Por vezes, franzia-os um pouco e parecia estar cansada de o fazer. Talvez se tivesse apercebido de que precisava dos seus óculos. Até era estranho que ainda não os tivesse posto. Mas só agora mostrava estar a ver desconfortavelmente sem eles. Então, sem demoras, desviou o seu misterioso olhar para a caixa avermelhada dos óculos, que estava à sua esquerda, e pegou-lhe com um grande esforço por parte da mão trémula, já quase aquecida, que teve de sair do seu esconderijo térmico. Ao abrir a caixa, já no colo, retirou do seu interior uns óculos antigos, como os que as pessoas da sua idade costumam usar. Grandes lentes, grossas e com o aspecto de terem imensa graduação. Mas, se só agora os punha, talvez fosse porque não precisava assim tanto de os usar.
Ao por os óculos na cara, a sua imagem alterou-se, e a sua expressão tornou-se ainda mais severa. Os seus olhos tornaram-se duas grandes bolas azuis, que quase pareciam de vidro, com a graduação dos óculos a dar-lhes um aspecto mais vivo. O reflexo já não se fazia nos seus olhos, mas sim nas lentes que agora os protegiam. As imagens da televisão reflectiam-se nos olhos, e o seu conteúdo era agora mais visível. Os olhos da velha ficavam escondidos por detrás daquela nuvem de imagens que parecia ter-se instalado no seu olhar. Mas ela percebeu que tinha razão, e que era exactamente dos óculos que precisava. Agora, já não precisava de franzir o sobrolho nem fechar os olhos por estar a ver mal
Ao fechar a caixa dos óculos, e ao colocá-la no seu sítio inicial, outro pormenor da sua vida passada foi desvendado: na sua mão esquerda, no dedo a seguir ao dedo mindinho, encontrava-se um anel, liso e prateado. Era curto e não muito grosso. Definitivamente, era um aliança. Depois de pousar a caixa, a velha retirou a outra mão do esconderijo e tocou no anel. Começou a rodá-lo apaixonadamente, com uma segurança que levava a pensar que já o tinha feito muitas vezes. Olhou-a durante muito tempo, esquecendo a televisão e concentrando-se naquele movimento. Mas, o mais curioso, era que não olhava em volta para ver onde estava o marido. Não o procurou, nem o chamou, nem sequer lhe telefonou. O que ia naquela cabeça era um mistério maior do que todos os que pudessem aparecer pelo caminho. Onde estaria o seu marido? Estaria longe? Ou estaria, simplesmente, no outro lado da casa? A tristeza no seu olhar fazia pensar o pior. E a paixão com que rodava o anel dava a entender uma verdade quase óbvia: talvez ela fosse viúva. Talvez há muito tempo, ou talvez recentemente. Mas isso explicava, em parte, a amargura na sua expressão, e a tristeza que tinha já assombrado a sala, apenas com o seu olhar.
Apercebendo-se da sua própria hesitação, a velha levantou o seu triste e aparente magoado olhar, para voltar a colocá-lo na televisão. Então, o seu rosto de amargura ficou descoberto, e, com a luz da televisão, descobriu-se uma lágrima a cair do seu olho esquerdo. Caiu lentamente, pela sua face abaixo. Mas, depois dessa, muitas outras se seguiram. A velha não as limpou, muito pelo contrário. Deixou-as correr, como que tentando esconder as suas emoções mais profundas. Olhou para a televisão e continuou a observá-la, ultrapassando o momento que tinha passado.
Passados algum tempo, as espessas e tristes lágrimas acabaram por secar, como se tivesse passado uma leve brisa e as tivesse levado para bem longe. Nessa altura, a velha já estava, novamente, fixada na televisão. A sua expressão magoada desapareceu, e deu lugar a uma emoção que não se explicava através do seu olhar. Era algo mais profundo, algo que estava no seu interior. E que não deixava transparecer cá para fora. Dava a entender que, se houvesse uma máquina para ler os pensamentos, os seus não iriam ser desvendados, de tão esquecidos ou de tão bem guardados que estavam. Nesse aspecto, a velha conseguia enganar toda a gente que a olhava. Mas o seu olhar, à primeira vista, levantava logo afirmações da sua vida passada. E a amargura existente não desaparecia.
Tentando abafar todas aquelas sensações, a velha deitou outro olhar provocante à caixa dos chocolates. Deve de ter pensado que a sua gula já estava no auge, porque fez uma expressão estranha face à tentação. Mas não conseguiu resistir. Levou a mão ao chocolatinho que estava no canto da caixa, pegou nele e levou-o à boca. Nem se deu ao trabalho de o morder. Atirou-o suavemente para a língua e deixou-o a desfazer, para o seu sabor permanecer durante mais tempo. A caixa ficara com menos um chocolate. E já não restavam muitos mais.
Seis.
Com os olhos fixos no televisor, a mulher continuou a olhá-lo com outro tipo de atenção. Agora, concentrara-se ainda mais naquela pequena caixa, e tinha voltado à expressão suave e alegre inicial. Podia ser do programa que estava a ver, mas, provavelmente, era para esquecer o que a aliança lhe lembrara, e para deixar o passado bem lá no fundo do poço. As suas enrugadas e trémulas mãos continuavam a mexer-se debaixo da manta, tentando aquecer-se e livrar-se daquele frio interminável. A princípio, parecia duvidar de que fosse possível mudar a sua temperatura, mas, naquele momento, parou de as esfregar e manteve-as no quente. As suas curtas e corpulentas pernas não paravam de tremer, embora já não fosse tão constantemente. O reflexo das imagens da televisão continuava a fazer-se sentir nas grossas lentes dos óculos, e a diferença de cores mostrava-se significativa. O ambiente silencioso mantinha-se na sala, fazendo com que parecesse ainda mais sombria. Tudo estava na mesma. A televisão parecia o seu mundo, e o que a rodeava não era mais do que uma telenovela demasiado parada.
Foi quando a velha deu uma gargalhada que as suas emoções vieram ao de cima. Pela primeira vez em toda a noite, mostrava uma alegria que quase se podia chamar de felicidade. Sinceramente, foi a única vez que isso aconteceu. De princípio, parecia uma pessoa reservada e só. E quando chorou ao olhar para a sua aliança, o seu olhar ainda se tornou mais sombrio. Mas, curiosamente, agora parecia ser uma pessoa que se dava mais às emoções, e que acreditava que viver os sonhos era mais importante que viver a realidade. Naquela idade, talvez fosse. No fundo, com aquele incessante olhar pousado sobre a televisão, e depois de uma análise mais ou menos prolongada sobre o seu rosto amargurado, a sua expressão só podia significar que a vida das presonagens nas novelas, e que a vida que as pessoas viviam nos programas que estava a ver, eram mais importantes do que a vida desinteressante e triste que ela prórpria levava. Talvez isso fosse verdade. Mas aquela gargalhada surpreenderia qualquer pessoa que tivesse observado a velha durante as últimas horas. Porque estaria uma velha, só e estranhamente desinteressada na vida, a ver televisão como se o mundo fosse acabar amanhã? A sua vida permanecia, ainda, um mistério no seu olhar.
O facto de deixar transparecer alguns dos seus sentimentos, e de guardar tão graciosamente outros, provocava-lhe uma estranha expressão difícil de interpretar. Ainda por mais, parecia estar a ficar cansada da sua incansável observação da televisão. As suas rugosas pálpebras tendiam a fechar, e a velha mulher estava como que a tentar aguentar a pressão para as manter abertas. A sua vida passada, através da observação do seu corpo, desvendava tempos difíceis. A velha parecia ter carregado o peso do mundo, em tempos, e talvez agora ainda o fizesse. Não era uma pessoa transparente; como já se vira, não mostrava as suas emoções à primeira pessoa que lhe aparecia à frente. Até à própria televisão parecia querer mostrar um sorriso, embora forçado, para disfarçar o seu descontentamento. Mas a televisão já a devia conhecer melhor do que ninguém, devido ao exagerado tempo que a velha passada à sua frente. Não lhe devia fazer muito bem, na sua idade já avançada, mas ela não parecia querer desistir. Não agora, que, apesar de parecer estar a ficar com sono, se estava a divertir tanto com o programa que observava. A gargalhada e os constantes sorrisos inocentes que mostrava à televisão eram prova disso mesmo.
Depois de outro longo sorriso, a velha deve de ter pensado, de novo, na caixinha dos chocolates que se encontrava ao seu lado. Com um breve olhar, comeu um chocolate só com os olhos, e mostrou a sua vontade de colocar outro na boca para saborear. Sem rodeios, tirou a sua mão já aquecida do esconderijo, e levou o quinto chocolate da noite à boca.
Restavam cinco.
Felizmente ou infelizmente para a velha, o sono deve de ter sido mais rápido a apoderar-se de si do que a vontade de continuar de olhos abertos a ver televisão. As pálpebras começaram a fechar, os ombros deixaram-se cair e o seu rosto perdeu toda a expressão que carregava. O azul dos seus olhos foi desaparecendo, gradualmente, e a vida que antes se vira no seu olhar parecia agora um simples pensamento desfocado pelo tempo. O sono apoderou-se de si, e a velha não resistiu ao cansaço. Os seus olhos largaram a televisão e a sua mente apagou-se. E a velha, muito velha, adormeceu em frente ao televisor da sala.

sexta-feira, 16 de março de 2007

Memória de uma tragédia

Eram oito horas e meia quando Pedro Sousa chegou ao 78º piso da Torre Sul do World Trade Center. Tinha subido no elevador e chegara rapidamente ao seu posto de trabalho, o First Commercial Bank. À primeira vista, como Pedro achara quando ali fora pela primeira vez, ambas as Torres Gémeas pareciam muito grandes. Uma vez lá dentro, quaquer pessoa ficava fascinada com os seus 110 pisos, mas as muitas empresas que lá existiam não eram tantas como isso. Era agradável trabalhar lá, pensava, principalmente num piso tão alto como o 78º. Quando acabara o curso de contabilidade em Lisboa, Portugal, nunca imaginara sequer ir viver para os Estados Unidos da América, muito menos trabalhar num dos mais altos e famosos edifícios do mundo. Por isso, sentia-se feliz por estar ali.
Naquele dia, onze de Setembro de 2001, tudo parecia estar na mesma. Tal como nos outros dias, as mais de cem pessoas que trabalhavam naquele piso estavam empenhadas em fazer concorrência umas às outras. O First Commercial Bank tinha um adversário, por alguns considerado inimigo, exactamente no mesmo piso, na mesma Torre: o Thompson Financial Baseline. Pedro considerava-o um adversário à maneira, e, por isso mesmo, um possível inimigo. Ainda por cima, a pessoa que mais detestava encontrava-se entre os trabalhadores desse banco, algures naquele 78º piso. João Fernandes, também português, era conhecido de Pedro desde que ambos tinham começado a trabalhar na Torre Sul. Desde essa altura, e desde que ambos tinham conseguido um cargo importante nas suas empresas, tratavam-se como verdadeiros inimigos. Mal se falavam, e, quando o faziam, não poupavam críticas. Detestavam-se mutuamente e isso notava-se, talvez porque eram ambos portugueses e ocupavam o mesmo cargo nas suas empresas.
Pedro não costumava chegar tão cedo ao trabalho. Normalmente, começava a trabalhar depois das nove, porque o trânsito era sempre infernal. Porém, naquele dia, levantara-se mais cedo e fora até à Torre Sul, conseguindo chegar antes das nove horas. Assim talvez pudesse adiantar trabalho de manhã, e sair mais cedo à tarde.
- Good morning. – cumprimentou uma colega.
Pedro tinha-se detido ao lado do elevador, abrangido por todos aqueles pensamentos. Mas depressa tomou consciência de que tinha que ir trabalhar.
- Good morning. – respondeu, caminhando até ao seu gabinete.
No caminho, cumprimentou vários colegas até entrar, finalmente, no seu escritório sem tecto. Abriu a porta, olhando uma vez mais para a placa que estava lá colada, da qual se orgulhava:

PEDRO SOUSA
FINANCIAL DIRECTOR

Os americanos não tinham aceite muito bem o seu nome português. Diziam que era de difícil pronúncia, mas tinham acabado por se adaptar a ele. Pedro estudara inglês antes de ir viver para os Estados Unidos. Sabia o essencial, mas queria aperfeiçoar o sotaque americano. Vivia lá desde há um ano, e acabara por se habituar a falar inglês todos os dias. Já era parte da sua rotina.
Sentado na cadeira, Pedro olhou pela janela. O que mais o fascinava em trabalhar ali era, exactamente, a vista que tinha do seu escritório. Conseguia ver o Empire State Building, a Estátua da Liberdade, e muitos outros edifícios que ainda não tivera tempo de conhecer. Comprara um apartamento, quando chegara à América, mas até agora ainda só o usara para comer e dormir. O trabalho ocupava-lhe muito tempo da sua vida, e ainda não conhecia quase nada de Nova Iorque. Talvez fosse por isso que gostasse tanto de olhar pela janela. Via as ruas de Nova Iorque, sempre com uma multidão imensa de gente; o trânsito maçador e os carros parados; e observava todo aquele ambiente que tanto o cativava. Tinha nascido em Lisboa, Portugal, e talvez fosse o amor ao ambiente cosmopolita daquela pequena cidade que o atraía em Nova Iorque. Mas Lisboa em nada mais se comparava à grandeza daquela maravilhosa cidade, considerada uma das maiores e mais bonitas de todo o mundo.
Durante um quarto de hora, Pedro adiantou algum trabalho, concluindo que sair mais cedo era agora mais fácil. Vendo uns papéis importantes em cima da sua secretária, levantou-se da cadeira e levou-os até um colega, para ele os ver. Ao sair do seu gabinete, reparou na quantidade de gente que tinha chegado depois dele. O piso estava completamente cheio, e, só de imaginar os outros 109 cheios, sentia arrepios por saber que estava tanta gente dentro daquele edifício. E que a Torre Norte estava igualmente cheia.
Pedro conhecia muitas pessoas que lá trabalhavam, mas só de vista. Ao longe, observou o seu adversário mais directo, João Fernandes, que estava dentro do seu gabinete sem tecto. Mas logo deixou de o oservar, e prestou atenção ao trabalho que o seu colega estava a verificar. Tudo parecia normal, até que se ouviu um barulho estranho, parecido com o som de uma explosão. Ao olhar para a rua, Pedro viu que um avião acabara de embater contra a Torre Norte, provocando um suspiro de medo entre os seus colegas de piso. Aproximou-se da janela, vendo que todo o horror lhe estava a passar à frente. Ainda passou as mãos pelos olhos, para ver se aquilo não era só um sonho mau, mas depressa percebeu que aquele dia, aparentemente normal, se estava a transformar num pesadelo real. Algumas pessoas desceram as escadas do seu edifício e fugiram para a rua, com medo que algo acontecesse. Mas Pedro deixou-se ficar, tal como muitas outrs pessoas. Ficou a olhar, horrorizado, para a Torre Norte, sem saber o que fazer. Algumas pessoas tinham começado a saltar dos seus pisos para o chão, apercebendo-se de que nada mais podiam fazer para se salvar. Era uma situação muito estranha, pensava Pedro, questionando-se como é que um avião se desviava tanto do seu percurso e caíra exactamente naquela Torre. Mas o horror que ele e os colegas de piso estavam a ver, não se comparava a nada que já tivesse visto. Ficou pasmado a olhar para a Torre, horrorizado pelas imagens que lhe passavam pelo rosto. Nem sequer lhe ocorreu fugir, mas não sabia o que fazer. Aquilo era, simplesmente, horrível.
Apesar de estar muito ao longe, devido à grande área do piso, Pedro conseguia ver que João estava a falar ao telemóvel. Apesar de não se dar com ele, Pedro observava-o e ouvia muitas conversas. Sabia que João estava a falar com a mulher, Margarida, com quem falava sempre às nove horas de cada dia. Tinha a certeza de que ele mantinha uma relação bastante forte com ela, apesar de viverem em dois continente separados. Ela vivia em Portugal, mas ia lá visitá-lo muitas vezes. Pedro só a tinha visto uma vez, mas sabia que João não gostava de viver longe. Apesar de o odiar, nunca se esquecera que, um dia, João o ajudara como nunca ninguém tinha feito. Quando Pedro tinha ficado preso no elevador da Torre, um dia de manhã, pensava que ia morrer. Sempre tivera um pouco de claustrofobia, e entrou conpletamnete em pânico quando viu que estava parado uns andares abaixo do seu. Ao ouvir uma voz vinda de cima, reconheceu-a de imediato. Era João, que dizia que o ia ajudar a sair dali. Pedro nunca descobrira se ele sabia que era o seu maior inimigo que estava preso, antes de o ajudar, mas calculara que sim. Mal ele carregou no botão, o elevador subiu e Pedro pôde, finalmente respirar fundo, agradecendo-lhe. Apesar de odiar, não lhe queria mal, e sabia que, pessoalmente, ele não era má pessoa.
Decerto estavam a falar sobre a Torre Norte. Margarida devia estar alarmada, mas João não era pessoa para desistir. Pedro sabia que ele ia ficar no edifício, e que não tinha medo de nada. Nesse aspecto, eram muito parecidos. Voltou-se, de novo, para outra Torre, vendo que o fumo e o fogo que dela saíam estavam a dificultar o trabalho dos bombeiros que já tinham chegado ao local. Estava com medo, mas não esperava, decerto, o que estava prestes a acontecer. Não teve tempo para pensar em mais nada, porque começou a ouvir os gritos de ansiedade das muitas pessoas que tinham ficado no seu piso. Virou-se para o outro lado da sala, e, ao olhar para a janela, viu exactamente o que receava, em silêncio, ver.
Quando tomou consciência do que estava a acontecer, só lhe ocorreu refugiar-se num sítio seguro. Quando o segundo avião embateu na Torre Sul, Pedro estava ainda em pé, fugindo apressadamente para debaixo de uma mesa. Ao ouvir o estrondo, teve a sensação de surdez, mas depressa percebeu que estava bem. A mesa que o protegia partiu-se, e Pedro sentiu um pedaço do tecto a cair-lhe sobre a perna. Ainda tentou tirar a perna da zona de impacto, mas já não foi a tempo. Quase não a sentia, e receou que estivesse partida. Com os braços, conseguiu tirá-la de debaixo dos destroços e levantou-se, tentando andar. Era um homem forte, e sabia que ia conseguir avançar. À sua volta, via uma quantidade inimaginável de destroços, e o horror tomou, uma vez mais, conta da sua mente. Havia pessoas entre os destroços. Muitas pessoas. Pouca gente estava em pé, e os que estavam apressaram-se a fugir pelas escadas da Torre. Mas Pedro não conseguia pensar em nada naquele momento. Tudo à sua volta parecia uma morgue, o que nunca imaginara presenciar. Estava a tentar movimentar a perna quando, aos seus pés, viu o corpo do colega que estava a verificar o trabalho que lhe dera. Ainda se baixou, tentando ver a pulsação, mas viu que o colega já estava morto. Levantando-se, e olhou para si mesmo. Tinha a camisa rasgada, as calças sujas e a cara ferida, sentindo-se totalmente perdido. Os escritórios sem tecto estavam, na sua maioria destruídos, e o silêncio tomava conta daquela morgue terrível. Olhou para o tecto e viu um bocado do avião, ainda seguro pelo que restava do chão do piso 79. Continuavam a descer pelas escadas muitas pessoas, vindas do andar de cima, apesar de tudo parecer perdido. A claustrofobia estava, de novo, a apoderar-se de si, e Pedro sentia-se preso num cubo de gelo, totalmente inquebrável.
Ao ouvir um som estranho, Pedro virou-se. Parecia alguém a chorar, mas, ao mesmo tempo, parecia que o som vinha de longe. Foi aí que Pedro se lembrou de João. Correu como pôde para o último sítio que se lembrava de o ter visto, mas deteve-se quando o viu no chão. Ainda estava vivo, e segurava o telemóvel na mão. Dele, ouvia-se uma voz feminina, de total desespero.
- João… – tremia Margarida, a sua mulher, ao telefone. – Por favor… dá-me um sinal… diz-me que estás vivo…
Pedro baixou-se e tentou ajoelhar-se, ignorando as dores que tomavam, agora, conta de si, e o fumo que abrangia o ambiente. Pegou no pilar que tinha atingido João, e que o impedia de se movimentar. Era pesado, mas Pedro conseguiu empurrá-lo para longe. Tirou a camisa e rasgou-a, tentando, com um pedaço de tecido, estancar a hemorragia que João tinha no braço que segurava o telemóvel. João mal conseguia respirar, mas estava consciente do acto de Pedro.
- Obrigado… – sussurrou, em esforço, pousando o telemóvel no chão.
- Estava a dever-te uma… – Pedro ameaçou sorrir, mas não tinha a mínima intenção de o fazer.
Ao ver um dossier no chão, um pouco sujo e estragado, Pedro pegou nele e levantou a cabeça de João, pousando-a em cima dele. Tentou pegar em João, mas ele tinha demasiadas dores. Seria impossível descer as escadas com ele. Margarida tinha-se calado, mas ouvia-se um leve choro do outro lado da linha. Pedro lamentou não poder fazer nada para salvar João. Sabia que ele não ia sair dali vivo, e queria ficar com ele nos seus últimos minutos. Era o mínimo que podia fazer.
- Desculpa… – pediu João, esforçando-se por se fazer ouvir. – Por tudo o que te fiz…
- Eu também te peço desculpa… – disse Pedro, deixando cair uma lágrima do olho.
- És um bom homem. – continuou, sabendo que não lhe restava muito tempo de vida. – Faz-me um favor…
O único favor que Pedro lhe queria fazer, naquele momento, era tirá-lo dali vivo, mas sabia que era preciso um milagre para ele sobreviver.
Ouviu um barulho do outro lado da sala. Um dos seus colegas no banco levantara-se do chão, e corria para as escadas.
- Let’s run… – disse-lhe, tentando incentivá-lo a fugir. Mas Pedro não podia ir. Não agora. Virou-se, de novo para João.
- Diz à Margarida que eu a amo… – falou, por fim. – E foge.
Foram as suas últimas palavras. Pedro ainda lhe pegou na cabeça, tentando ajudá-lo a levantar-se, mas não conseguiu. Começou a chorar, e abraçou-o como nunca imaginou fazer. Tal como sempre acreditara, João era boa pessoa. Era pena que só o tivesse percebido quando estava a morrer. Sentia-se um verdadeiro idiota por isso. Não conseguiu conter as lágrimas, e chorou tudo o que tinha para chorar.
- Come on… – chamou-o o colega, que esperava impacientemente no cimo das escadas.
Ao ver o telemóvel do amigo no chão, Pedro pegou nele e levantou-se, olhando uma vez mais para o corpo. Lamentava ter chegado tão tarde. carregou no botão vermelho do telefone, desligando a chamada. Não tinha coragem para falar, naquele momento. Olhou uma última vez à sua volta, vendo o horror que o rodeava. Era uma tragédia impossível de esquecer. Continuava a saltar gente da Torre Norte, e ouviam-se agora gritos de socorro vindos da rua e da Torre Sul. Pedro só queria conseguir salvar todas aquelas pessoas, mas sabia que não podia controlar o tempo. Tinha que fugir dali imediatamente, porque o fumo já lhe estava a dificultar a respiração.
Caminhou até às escadas, empoleirando-se no colega para andar. A única escada aberta era a Stairway A, que estava completamente livre. Desceram as escadas, ambos horrorizados com o terror daquela pacata manhã. Pedro olhou para o relógio. Eram nove horas e vinte. Os bombeiros deviam estar a chegar, mas só iam encontrar destroços. Pedro sabia que todo o prédio estava condenado.
Quando chegaram à rua, depois de descerem 77 pisos, puderam, finalmente, respirar fundo. Pedro sentiu-se, de novo, livre do cubo de gelo, como se alguém o tivesse quebrado. Foi logo assistido pelos médicos no local, apercebendo-se que a perna não estava partida, mas apenas ferida. Tinha que ir para o hospital, mas depressa ficaria bom. Enquanto os bombeiros subiam as escadas para os pisos afectados, foi dada a indicação de que as pessoas tinham que se afastar ainda mais do edifício. O fumo já cobria o ar, e ninguém desejava mais vítimas daquele terrível imprevisto. Ao longe, a vista era desoladora. Quando, momentos antes, Pedro olhara pela janela, nunca lhe passara pela cabeça detestar, momentaneamente, viver ali e, sobretudo, ter chegado mais cedo. Por esta hora, devia estar a chegar à Torre Sul para começar a trabalhar, e não a sair dela por um inexplicável suposto acidente. E dava tudo para não ter assistido à morte do amigo, embora ele só se tivesse tornado seu amigo naquela ocasião. Mas é para isso que eles servem.
Pedro foi levado para o hospital mais próximo, que estava um verdadeiro caos. Trataram-lhe rapidamente da perna, e só precisava de descansar durante uns tempos. Levantando-se da cama, Pedro olhou para o telemóvel que tinha em cima da mesa-de-cabeceira. Não, ainda não estava preparado. Olhou pela janela do hospital, que estava fechada devido ao fumo que ainda estava no ar. Por volta das dez horas e cinco, Pedro viu outro horror. A Torre Sul, onde trabalhava há um ano, e o monumento que mais o fascinava em Nova Iorque, estava agora a cair sobre si mesmo. Era a destruição total. De cima a baixo, tudo desapareceu numa questão de minutos. Pedro voltou para a cama e tentou adormecer, ainda lutando para abandonar todas as imagens daquela manhã. Mas não conseguia. Ligou a televisão do seu quarto com o comando à distância. Era impossível esquecer o que tinha acontecido. Todos os canais davam a mesma notícia. «Acidente no World Trade Center faz milhares de vítimas mortais. Dois aviões embateram violentamente nas duas Torres Gémeas, e a Torre Sul acabou de desaparecer em Nova Iorque.».
Era uma autêntica tragédia. Pedro nunca tinha visto nada assim. Ao ver imagens das pessoas a saírem da Torre Norte, a única que continuava em pé, Pedro não conseguiu conter as lágrimas, e baixou a cabeça num momento de dor e desespero. Tinha perdido amigos, naquele acidente. E, acima de tudo, tinha perdido a vontade de viver.
- Esteve lá? – perguntou, em inglês, o homem que se encontrava na cama ao lado. – Na Torre?
Pedro levantou a cabeça e olhou-o nos olhos. O homem estava bastante ferido, tinha um braço partido e mal conseguia falar.
- Sim. Na Torre Sul. – respondeu.
- Eu estava na Torre Norte, no piso que o avião atingiu. Só tive tempo para correr para as escadas, mas fui apanhado por uma «chuva de destroços». O meu melhor amigo estava lá.
- Lamento.
Ao ver que o homem estava bastante triste, Pedro quis dizer-lhe que sabia o que isso era, mas não teve coragem. Limitou-se a mudar de canal para ver se havia mais informações. Só mais tarde é que viu o desaparecer da Torre Norte, em directo, na televisão, porque preferiu não ir à janela ver. Ainda nas notícias, disseram que outro avião atingiu o Pentágono, mas que não tinha sido nada de grave, e que um outro avião tinha sido desviado para outro sítio, mas que se despenhara num bosque. Nas horas a seguir, adiantaram que um grupo terrorista, a Al-Quaeda, tinha anunciado que tinham sido eles a desviar os quatro aviões, com o propósito de atingir monumentos com muita gente nos Estados Unidos, através de bombistas suicidas. Pedro nem queria acreditar. Não era o único a querer vingar-se, mas aqueles homens eram uns autênticos génios, para conseguirem desviar quatro aviões quase simultaneamente. E Pedro preferia que não fossem. Desligou a televisão e adormeceu, tal não era o cansaço daquela manhã.
Uma semana depois, quando pôde, finalmente, sair do hospital, Pedro foi à procura de algumas pessoas que trabalhavam no Thompson Financial Baseline, para saber informações de João. Tinha decidido duas coisas: primeiro, não ia telefonar a Margarida, porque preferia falar-lhe pessoalmente; e segundo, ia regressar a Portugal. Foi o que os seus superiores lhe aconselharam, e Pedro sabia que era o melhor para ele. Um amigo de João, que não fora trabalhar a onze de Setembro, ficou surpreso por ver Pedro. Porque é que ele havia de querer saber a morada da mulher de João, se eles se odiavam? Mas fez-lhe a vontade e voltou à sua vida.
Passados alguns dias, Pedro apanhou o avião para Lisboa, sempre com receio de ver repetida a história daquele dia. Agora, andar de avião parecia mais perigoso e assustador. Já tinha a morada de Margarida, e achava que estava pronto para a enfrentar. Só não sabia o que lhe dizer.
Chegou a Portugal, apanhou um táxi para casa e arrumou as suas coisas. Tinha saudades de estar ali, embora estivesse habituado ao ambiente cosmopolita que tanto o fascinava em Nova Iorque. Pegou no telemóvel de João, vestiu uma camisa e umas calças, e saiu para a rua. Ali, o ar parecia mais ouro do que o que tinha respirado nos últimos dias. Sentia-se em casa, e sabia que era ali que devia ficar.
Quando chegou à morada que tinha escrita no papel, Pedro respirou fundo. Sabia que não ia ser fácil, mas estava disposto a arriscar. Pelo menos, por João. Prometera-lhe fazer um favor, e estava ali para cumprir a sua promessa. Bateu à porta e esperou. Quando Margarida Fernandes abriu, estava mal vestida e com olheiras. Tinha estado a chorar e sentia-se perdida. Tinha perdido a pessoa que mais amava, e estava sozinha a chorar a sua morte.
- Posso ajudá-lo? – perguntou, limpando as lágrimas.
- Chamo-me Pedro Sousa, e conheci o seu marido.
Margarida quis mandá-lo embora, mas sabia que precisava de um ombro amigo. Deixou-o entrar e ambos se sentaram no sofá.
- Talvez fosse o seu maior inimigo – continuou Pedro –, mas fui eu que estive com ele nos seus últimos minutos.
- Ninguém esteve com ele quando morreu. – disse, sarcasticamente. – Eu estava ao telefone com ele.
- Eu sei. – fez uma pausa. – Fui eu que lhe desliguei a chamada, quando vi que já não podia fazer nada por ele.
Margarida lembrou-se. Não tinha sido ela a desligar a chamada, e João já estava morto. Tinha sido aquele homem que ouvira as últimas palavras do seu marido.
- Se odiava o meu marido, o que é que está aqui a fazer? Porque é que esteve com ele quando ele morreu?
Pedro tirou o telemóvel de João do bolso, e entregou-lho.
- O João pediu-me para lhe dizer que a amava. E eu vim cumprir a minha promessa.
Pedro tinha vontade de chorar, mas quis conter-se.
- Ele era um bom homem. – continuou.
Margarida guardou o telemóvel, aumentando as lágrimas que lhe caíam do rosto.
- Por favor, vá-se embora. – disse, pondo-se em pé. – Não aguento mais esta pressão. Saia e nunca mais volte.
Ela virou-se e começou a chorar compulsivamente, pousando o telemóvel e agarrando-se à cara. Pedro quis obedecer, mas antes tinha que lhe dizer o que lhe ia na alma.
- Lamento a morte do João, e, sobretudo, lamento só o ter conhecido bem naquele dia. Mas acredite, quem me dera ter ficado lá na vez dele. Dava tudo para não estar a falar consigo, e para não ter estado na Torre. Quem me dera não a ver a sofrer, nem a si nem ao João, naquele dia. Acho que foi por ele que lhe desliguei a chamada, porque já não vos conseguia ver sofrer mais. Ele amava-a mesmo, e decerto lamenta não estar aqui, agora.
Margarida ouviu as palavras sentidas de Pedro, mas continuou virada de costas, a chorar. Só quando o ouviu abrir a porta, e depois fechá-la, é que percebeu que precisava de alguém para a ajudar a ultrapassar aquilo. Pedro, apesar de não gostar de João, não o abandonara, e cumprira a sua promessa. Também ele era um bom homem. E sentia-se disposto a voltar atrás no tempo, para morrer na vez dele. Só aí percebeu que tinha cometido um grande erro em tê-lo mandado embora.
Pedro saiu, feliz por ter dito o que pensava. Agora, não tinha mais nada a dizer. Sentia-se fraco, ainda mais do que antes, mas não podia fazer nada. Tinha que seguir em frente. Tinha feito o que devia.
Atrás de si, começou a ouvir alguém correr. Quando se virou, viu Margarida a dirigir-se a si, num passo apressado. Só teve tempo de a receber nos braços e de chorar com ela. Ficaram ali, abraçados, durante imenso tempo, mas isso não importava. Ambos partilhavam a dor de perder alguém, e sabiam que precisavam de a partilhar um com o outro. Nenhum deles ia esquecer aquela tragédia, mas as lágrimas, com o tempo, iam acabar por limpar a dor, embora a memória das vítimas ficasse, para sempre, nos corações do mundo.


Em memória de todas as vítimas da tragédia de 11 de Setembro de 2001

segunda-feira, 12 de março de 2007

Lua cheia...

A lua cheia inspira-me,
Sempre que por ela passo.
Estranhamente, o presente,
Evapora-se num só abraço.

Sinto as estrelas a brilhar,
Sinto a Terra a rodar.
Vou de novo ao passado,
Que tanto gosto de recordar.

Sinto que estou a sonhar,
Mas que não quero acordar.
Vou directa àquela noite,
Em que me ensinaste a amar.
A noite que recordo,
Imaginando o teu olhar.

A lua cheia brilhava,
Como o Sol a bater
Nas espessas ondas do mar.
Deitados na relva,
Olhámo-la juntos,
Até a noite acabar.

Nenhum de nós imaginava,
O que viria a acontecer.
O destino separou-nos,
Como nos fez conhecer.

Mas eu nunca esqueci,
A noite da minha vida,
Em que me apaixonei,
Pela lua e pelo brilho,
Que encontrei nos teus olhos,
Naquele dia infinito.

É aí que regresso,
Ao presente, tristemente.
Uma brisa atravessa,
O meu rosto, levemente,
Tentando levar as lágrimas,
Que choro, sensivelmente.

Nunca vou perder,
Aquela noite ao luar.
Nunca vou esquecer,
O amor que me faz sonhar,
Contigo e com a dor,
Que a lua cheia me faz lembrar.

a minha história...

Por vezes a vida é muito injusta. E eu, Susana, posso prová-lo.
Quando era pequena não era, decididamente, feliz. A minha mãe e o meu pai não se importavam comigo. Adoravam a minha irmã, e era ela a menina da família. Mas nunca me preocupei muito com isso. À noite, no meu quarto, sonhava com a minha felicidade dali a alguns anos. Quando completei dez anos, recebi apenas uma prenda, do meu tio. Era um relógio de pulso muito velho e quase sem trabalhar. Refugiei-me no meu quarto, e olhei pela janela. Uma pomba pousou no parapeito mas depressa voou para bem longe, para o mar. Foi nessa noite que prometi a mim mesma que, um dia, iria tão longe como aquela pomba. Iria sair daquela casa que só me trazia infelicidade. Não podia viver só dos sonhos. Tinha que viver a realidade.
Cresci, e logo que pude deixei a minha casa. Tirei o Curso de Direito e comecei a estagiar. Não me sentia feliz, mas já era um bom princípio.
Certo dia, apressada para uma reunião matinal com o meu chefe da Ordem, fui a alta velocidade para o trabalho. Foi nesse dia que a minha vida mudou. Ia na estrada, e não vi um homem que estava a atravessar a rua na passadeira e atropelei-o. Saí do carro e fui a correr ter com ele. Era um jovem, talvez da minha idade. Estava coberto de sangue na perna esquerda e na cabeça. Chamei de imediato o 112. Esperei, com o homem nos braços, inconsciente e cheio de sangue. A reunião não era uma prioridade naquele momento.
Fui até ao hospital e fiquei à espera de notícias. Pouco tempo depois, o médico veio ter comigo e informou-me que o rapaz tinha o osso da perna esquerda deslocado, e que esta ia ficar engessada por algum tempo. Disse-me também que ele tinha sofrido um traumatismo craniano, e que tinha perdido a memória. Só sabiam que se chamava Rui porque trazia a carteira no bolso do casaco.
Telefonei ao meu chefe e expliquei-lhe a situação. Logo que pude entrei no quarto onde o rapaz se encontrava, sem saber o que dizer. Ele estava acordado e perguntou-me logo quem eu era.
- Lamento imenso… – disse eu – Eu tinha pressa e não o vi…
- Então foi você que me atropelou…
- Pois… fui eu mesmo…
- Não comece a chorar… eu sei que não teve culpa… sente-se aqui ao meu lado e conte-me tal e qual como aconteceu.
Eu contei-lhe tudo. O Rui mostrou-se simpático comigo, nunca me quis culpar de nada. Logo a seguir a enfermeira chamou-me. Era o irmão dele ao telefone. Queria falar comigo. Ao princípio tive medo, mas o Pedro foi super querido. Disse que ia buscar o irmão no dia a seguir, e que queria conhecer-me pessoalmente. Fui para casa e no dia a seguir voltei ao hospital.
O Pedro chegou minutos depois de mim. Eu continuava a sentir-me culpada, mas sabia que o pior já tinha passado.
Esperámos e começámos a conversar. Foi aí que eu me senti pior. Ele contou-me que o Rui tinha uma doença muito rara que quase ninguém conseguia detectar. Só um profissional estrangeiro é que lhes tinha dito que essa doença era mortal. Eu fiquei em estado de choque, e senti-me de novo culpada. O Pedro explicou-me que ele a tinha desde adolescente, mas que ela podia decidir piorar a qualquer momento. Um acidente decerto não alteraria em nada o seu estado.
Ele entrou no quarto do Rui e contou-lhe isso tudo. Eu esperei impacientemente. Quando os dois voltaram para a sala de espera vinham a chorar. Aí percebi que a vida de infelicidades que eu dizia ter nada se comparava à vida daqueles dois jovens. Decidi ir para o trabalho e esquecer que os tinha conhecido. Não queria arranjar mais problemas do que os que já tinha. Mas ouvi alguém chamar-me:
- Susana, espere… – enquanto o Rui se despedia dos médicos, o Pedro chamou-me e eu voltei-me – Não se vá já embora…
Parecia que precisava de ajuda.
- Eu sei que não conhece bem o meu irmão, mas queria pedir-lhe um favor… – estava nervoso.
- Diga… eu não tenho pressa… – embora quisesse esquecer aquilo tudo rapidamente.
- O Rui é um rapaz muito sensível, vive com a nossa mãe em Lisboa e raramente se diverte porque ela quase não o deixa sair de casa. Não tem verdadeiros amigos há muitos anos e precisa de alguém que goste dele (além da família) e que o faça ter de novo razões para sorrir. Eu vivo no Porto e já pedi isto a milhares de pessoas mas nenhuma delas aceitou o desafio. Achei que talvez você quisesse ajudar…
Garanto que não estava à espera, mas tive muita pena do Pedro. Ele só queria que o irmão fosse feliz, como eu quisera ser desde criança. E, pela primeira vez, percebi que não custa nada ajudar.
- Pode contar comigo – foi a minha resposta.
Continuei a trabalhar, e nas férias de Verão fui buscar o Rui a casa. Perguntei-lhe onde é que ele queria ir. Respondeu-me que queria conhecer Portugal, visto não se lembrar de antes ter conhecido aquele país. No primeiro dia levei-o a subir o Cristo Rei e o padrão dos Descobrimentos, a visitar o Mosteiro dos Jerónimos e a passear por Lisboa. No segundo fomos aos palácios de Sintra e comemos queijadas. O Rui já se começava a lembrar de algumas coisas, e já não precisava de andar de muletas porque a sua perna estava muito melhor. Apesar de tudo, ele parecia-me feliz. E eu também me sentia bem quando estava com ele. Conheci sítios que nem eu fazia ideia de como eram bonitos.
Nas semanas a seguir iniciámos uma viagem ao Porto. Fomos de carro. Lá, ficámos em casa do Pedro. Num desses dias ele disse-me:
- Obrigado pelo que estás a fazer. Ele parece-me estar muito feliz.
Visitámos a cidade e decidimos voltar para Lisboa. O primeiro sítio onde parámos foi Aveiro, um dos lugares mais bonitos do país, na minha opinião. Acho que o Rui também gostou muito. Depois de almoçarmos num restaurante ele pediu-me para namorar com ele. Ao princípio fiquei agradada com a situação, mas a seguir aceitei sem pensar no meu futuro. A minha vida era infeliz e horrível, e decerto que o Rui não queria saber como é que ela era. Mas na altura não pensei nisso. Nesse momento sentia-me bem, e era isso que importava.
Continuámos a nossa viagem de regresso, contentes e muito mais cultos.
Quando as férias de Verão acabaram eu voltei a trabalhar, e o Rui também. Ele era Jornalista e trabalhava numa revista. Como ainda não podia guiar eu ia buscá-lo todos os dias ao trabalho e levava-o a casa. Até a mãe dele estava mais feliz. Tudo parecia estar a correr muito bem.
Nas férias de Natal eu e o Rui também estivemos juntos. Fomos até ao Algarve e divertimo-nos imenso. O Rui já tinha recuperado da perna. Certa noite, o Rui chamou-me e disse-me:
- Susy, quero que me faças um último favor: sabes que vais viver muito mais tempo do que eu. O teu destino é diferente do meu. E sabes que a tua vida vai ter de continuar sem mim. Por isso promete-me que, antes de me esqueceres por completo, vais escrever a nossa história e contá-la a milhares de pessoas. Falas na tua infância, na minha doença, … e não te preocupes porque podes continuar essa história mesmo que a minha já tenha acabado. Prometes-me isso? É o máximo que podes fazer por mim.
Eu fiquei muito triste porque parecia que ele sabia que o seu tempo estava a acabar, o que podia não ser verdade. Mas prometi-lhe que escreveria a história da nossa vida.
Passei o Natal em casa da mãe do Rui e do Pedro, também com eles os dois. Éramos uma família feliz, no verdadeiro sentido da palavra.
Mas esta história começou com «Por vezes a vida é muito injusta…», certo? E é quando tudo nos corre bem que surgem as situações mais complicadas e de tristeza.
Em meados de Março, o meu trabalho estava a correr muito bem. Deram-me um caso importantíssimo em que eu não podia falhar.
Numa sexta-feira ao fim da tarde eu estava numa das sessões no tribunal. Depois de falar ouvi o meu telemóvel tocar. Era o Pedro. Tive que atender mesmo ali.
- Susy… não sei como te dizer isto…ah…o Rui estava a sentir-se mal…. com febre e dores… e a minha mãe chamou o 112… ele já vai a caminho do hospital… se puderes ir ter a casa da minha mãe…
Oh não. Oh não mesmo. Eu não estava nada à espera, mas nem pensei antes de agir. Levantei-me e saí da sala sem dar explicações a ninguém. Tinha assuntos mais importantes para tratar sem ser os problemas do suposto culpado.
Fui até à casa da mãe deles e o Pedro também estava lá. Tinha ido a Lisboa em trabalho, soube da notícia e chamou-me. Fomos os três para o hospital.
Chegámos ao mesmo tempo da ambulância, porque sabíamos de um atalho mais rápido. Fui a correr e vi o Rui numa maca. Consegui falar com ele, mas ele é que quis falar:
- Susy… obrigado por tudo… adoro-te e ao Pedro também…nunca vos vou esquecer… escreve a nossa história e sê feliz…
E foi só. Eu não consegui dizer nada. Limitei-me a ouvir e a repetir ao Pedro e à mãe o que ele tinha dito. Esperámos muito tempo pela médica:
- Lamento imenso. – disse – O coração dele não aguentou a doença. Aconteceu mais cedo do que previsto, mas não pudemos fazer nada.
Nós chorámos e não tínhamos conforto possível. Abracei o Pedro porque não aguentava a pressão. Nenhum de nós estava à espera que aquilo acontecesse tão depressa, nem mesmo o Rui. Ainda hoje, quando conto isto, caem-me lágrimas dos olhos. Foi um momento marcante na minha vida. Não o podia esquecer.
O Rui fez parte da minha vida e ainda hoje faz. Tal como lhe prometi, aqui está a nossa história que ele tanto queria que eu escrevesse. Ele já desapareceu há dois anos, mas só hoje é que eu tive coragem de a contar, com a ajuda do Pedro.
Vivo com ele há um ano, e casámos há quatro meses. Tentámos reconstruir a nossa vida esquecendo que nos tínhamos conhecido, mas não conseguimos. Acabámos por o fazer juntos. Eu fui expulsa da Ordem dos Advogados por ter abandonado o Tribunal naquele dia, mas passados seis meses aceitaram-me de novo.
Agora vivo no Porto com o meu marido, o Pedro, com quem sou muito feliz.
Naquela noite, quando fiz dez anos, vi aquela pomba voar para bem longe. Prometi que iria fazer o mesmo. Até agora não tinha conseguido, mas acho que , finalmente, cheguei ao auge da minha vida. Nunca fui tão feliz. Do passado guardo apenas boas recordações. Do presente, direi daqui a alguns anos. Mas também devem ser muito boas.